Requiem pelos vivos!

| 13 Abr 2022

 

Uma vagem e as suas sementes! Como poderá esta metáfora falar-nos de um Requiem, da vida e da morte? A vagem morre para que as sementes venham a ganhar vida quando caírem na terra. Esta imagem diz a profundidade da nossa morte, da minha e da tua. Nenhum de nós é proprietário absoluto da sua vida nem da sua morte. Ambas vêm e vão sem que possamos travar o fluxo do seu devir. Não somos nem a origem de nós mesmos nem damos a morte a nós próprios. E, todavia, ninguém pode nascer nem morrer por nós, em nosso lugar. Somos como vagens frágeis, cuja existência estala, e dá aos outros a semente de continuarem a linhagem. O estalar da vagem é o sinal de uma liberdade dada ao mundo. Que sementes lançaremos à terra? A qualidade das sementes dirá a qualidade dos frutos, não que isso seja uma determinação, mas uma potência inerente ao próprio estar em vida. É Michel de Montaigne que no-lo assegura: «A morte é a origem de uma outra vida» (Que filosofar é aprender a morrer, ed. VS., p. 27).

A vagem que morre contém dentro de si a vida. Mistério simples e profundo! Numa dimensão não meramente utilitária e material, o nosso ser está sempre em transformação. Ninguém sabe em absoluto a nossa origem, as transformações das origens imemoriais que sofremos para ser aquilo que somos hoje. E também não sabemos os devires que se seguirão. Este não-saber o que virá é precioso, pois nos poderá abrir para uma confiança fundamental, para o que torna possível a nossa demora no mundo, a relação com outrem. Nascemos pelo menos duas vezes, entre muitas outras que se sucedem no decurso da existência. Nascemos do ventre da nossa mãe e nascemos quando damos e transmitimos o fogo da vida a alguém, à nova geração, por exemplo. E nascemos na própria morte, já não como no modo primitivo, mas como textura onírica do real, nascemos na memória dos outros. Nenhuma morte será em vão se passarmos esse fogo da vida que nos anima e faz desejar ser algo mais. Somos seres de desejo, esse desejo de sermos amados até ao fim. E quem nunca desejou algo tão simples, ser amado, sentir o desejo de outrem, presente ou ausente, passado ou futuro?

A autêntica experiência cristã – que vive de um certo não-saber e de um encontro inesperado com a vida do mundo – é uma visão esperançosa da vida. É uma experiência sempre primaveril, ainda que por vezes ingénua ou até infantil, no sentido pleno da palavra. Mas também não ilusória nem etérea. Ser em Cristo, mas humanamente solidários. Não é possível ser-se em Cristo sem a carne do outro humano que me interpela e me transfigura. Não seremos somente seres para a morte, mesmo se não poderemos iludir esse facto bruto da evolução biológica. Vivemos no dom permanente, da vida e da morte, nesse trânsito que aglutina todo o sentimento de existir. Desde os antigos, com ou sem religião, que a grande procura humana é a de termos uma “boa morte” como expressão de uma “vida boa, bela e justa”. O que nos torna singulares, desde as nossas origens mais remotas, é o facto de levantarmos os olhos para o céu, este gesto de olhar para algo, que está para além de nós mesmos ou dos nossos ombros, que não vemos, mas que nos habita, assombra, suporta, encoraja, que nos anima. Quanta leveza neste gesto de olhar. Quantos pesos aí se libertam. Quando levantamos os olhos, saímos do nosso intimismo ou do secreto interior, vemos o horizonte, a amplitude, a frescura das coisas, recriamos o mundo e a nossa própria vida. Vemos, ouvimos, sentimos e contemplamos a frescura matinal dos viventes. O corpo expõe-se e faz-se corpo com outros corpos também eles expostos ao nosso próprio corpo.

A serenidade de um rosto na morte talvez provenha da força de um olhar levantado para o céu. Morreu em paz, sereno, diz-se. O olhar sereno do morrer crente, não de resignação nem de conformismo com a morte, mas simplesmente uma confiança em algo que supera as nossas forças. Essa confiança (fides) que é um suporte, esse olhar de uma vida simples, a passagem do tempo, nas mãos cálidas, intensas e fecundas, vem dessa confiança que sabe que a própria dúvida está também ela envolta de opacidade. Como dizia S. Paulo, citando alguns dos poetas pagãos: “[no Deus vivente] vivemos, nos movemos e existimos”. Mais do que além, não será Deus o aquém de nós mesmos, abaixo de nós, como o fundo de um poço sem fundo que nos segura, força de uma “visibilidade anónima”? “Deus, Ogiva do mundo” (Fernando Pessoa)? Tal como a morte, Deus será, porventura, o mistério mais profundo, a questão das questões, a nossa questão. Qual Deus? De que modo podemos ainda dizê-lo? A descrença, que frequentemente assola o crente, chega velozmente, nas diabruras da noite. Por vezes, ela é forte, arrebatadora. Só o silêncio ousará compreender esse mistério fundo, ver profundo nas escarpas do tempo histórico, e para além dele também, a visionar mais além a agitação do quotidiano? Mas também esse silêncio dói, e então faz-se prece simples de um incrédulo crédulo a caminho do último vagão crepuscular. O Horto das Oliveiras é extenso e simbolicamente universal, é também o nosso Getsémani, o lugar total do despimento das máscaras. É o lugar sem o qual não há Passagem (Pessah), claridade nem transfiguração. É o lugar da condição para a incondicionalidade, da opacidade desse “se é possível…”, no qual reside toda a força de uma esperança.

“Todos aqueles que nós amamos, detestamos, conhecemos ou simplesmente encontramos falam através da nossa voz” (François-George Maugarlone). Os outros falam em nós a todo o instante e por isso nunca morrem. Estamos ligados uns aos outros, por muito autónomos ou independentes que queiramos ser. E estamos ligados não só com os vivos, mas também com aqueles que já não estão entre nós, a dita comunhão dos santos e dos humanos. Estamos vivos até à morte e na morte. Se há um Requiem, é um Requiem pelos vivos (cf. Requiem for the Living, de Dan Forrest) que somos sempre, mesmo para além da morte. A memória dos antepassados é a raiz que nos lança para o futuro e permite viver o presente. Não se trata de um culto mórbido ou doentio da morte ou dos mortos, fantasmagórico ou paranormal, mas de uma confiança e esperança que o mundo é graça de uma presença invisível, que faz de nós todos carne uns dos outros. Partilhamos não só a mesma humanidade, de carne e osso, como também, segundo a fé cristã, “somos à imagem e semelhança de Deus”, somos corpo para a glória no corpo vivo e primaveril do Infinito. Nem tudo é compreensível, mas possivelmente vivível! Baudelaire di-lo muito profundamente: «De um Infinito que amo e que jamais conheci» (“Hino à Beleza”, in As Flores do Mal, Relógio d’Água, p. 69).

Vivemos da promessa que vem ao nosso encontro já hoje, a promessa de um amor mais profundo, mais simples, mais autêntico. Vivemos já na promessa de que só o amor nos salvará, só o amor faz de nós seres de esperança, só o amor nos dará a verdadeira vida. Os outros falam na nossa voz. Os nossos sentidos respiram o mundo e pelos sentidos respiramos a beleza das coisas. Tudo no mundo está interligado. Desde a mais ínfima partícula ou elemento até às formas superiores de vida. A morte não apaga uma relação, não apaga um gesto, não apaga uma palavra, não apaga uma presença. Há ausências que são mais próximas do que as presenças físicas. Como escreve o poeta romeno Dinu Flamand, no seu «Jardim Tropical»: “Nunca imaginei que fosse tão difícil entrar / nessa tua ausência que me olha dia após dia / da presença da tua ausência/mãe” (in Sombras e Falésias, Guerra e Paz, p. 85).

A morte de alguém é, no fundo, uma ausência intermitente. Uma pausa no fluxo escorreito do tempo natural. Vivemos sempre nas “intermitências da morte” (José Saramago). Esse alguém virá à memória. E nesse vir intersticial a linhagem seguirá o seu rumo. “Fazei isto em memória de mim”, difícil memento diante da nossa própria caducidade. Nos grandes textos da humanidade, vemos sempre este pedido do ancião no leito da sua morte: “O meu maior desejo, quando já não estiver entre vós, é que vivais em paz”. Viver em paz para morrermos em paz, quer dizer, pacificados com os outros e connosco mesmos. Na morte de alguém vivemos a fraternidade humana, a força de uma presença, que testemunha e atesta que a nossa morte é a comunhão dos viventes, a comunhão da Vida que deflagra a todo o instante e em todo o lugar. “Só seremos felizes quando caminharmos na boa direcção, na direcção que tomamos desde a origem, despertando da argila. Nessa altura podemos viver em paz, porque aquilo que dá um sentido à vida da um sentido à morte” (Antoine de Saint-Exupéry, Um Sentido para a Vida, Livros do Brasil, p. 136).

Nas ocupações dos afazeres quotidianos, tendemos a esquecer uma verdade profunda que Martin Heidegger nos legara: “Desde que um homem nasce, ele é já suficientemente velho para morrer.” Mas a todo o momento, poderemos despertar da argila, porque nada no mundo está determinado nem destinado de antemão. Somos em devir, em transformação até na morte. O que é o mistério da Passagem (Pessah) senão esse despertar do corpo da argila, esse despertar incompreensível da morte, para ser memória do corpo novo dos que permanecem no mundo? Fernando Pessoa deu-nos um pouco desse vislumbre, dessa páscoa terrenal da passada escutada, quando escreve: “A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto. / Se escuto, eu te oiço a passada / Existir como eu existo. / A terra é feita de céu.”

 

João Paulo Costa é presbítero da Igreja Católica, investigador na área de filosofia e autor de À sombra do invisível (Documenta, 2020)

 

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