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Leão XIII e Leão XIV: a mesma defesa da dignidade da pessoa humana, em 1891 e em 2026.

Doutrina social católica

“Rerum Novarum” e “Magnifica Humanitas”: uma comparação entre a encíclica de Leão XIII e a de Leão XIV

| 31/05/2026

Tendo por base a leitura integral das duas encíclicas e recorrendo a instrumentos de Inteligência Artificial (Claude) é possível resumir algumas das permanências e relevar as enormes diferenças entre os dois documentos que a passagem do tempo e a evolução das sociedades introduziram no pensamento da Igreja Católica.

 

O gesto simbólico

Não é acidental que Robert Francis Prevost tenha escolhido o nome Leão XIV. A Magnifica Humanitas celebra explicitamente o 135.º aniversário da Rerum Novarum e apresenta-se como sua herdeira direta. A própria estrutura do argumento imita o gesto de Leão XIII: uma “revolução” tecnológica desumanizante exige que a Igreja ofereça princípios de orientação enraizados na dignidade da pessoa humana. Em 1891 era a fábrica; em 2026 é o algoritmo. Mas a lógica é a mesma: o ser humano não pode ser reduzido a um instrumento da produção.

Essa continuidade, porém, não deve obscurecer as diferenças profundas – de contexto, de método e de alcance – entre os dois documentos.

 

I. O CONTEXTO HISTÓRICO

Rerum Novarum (1891)

Leão XIII escreve no auge da primeira Revolução Industrial. O contexto é o de uma Europa em que trabalhadores urbanos vivem em condições de extrema pobreza, sem proteção legal, sem direito de associação, sem salário suficiente para sustentar uma família. Existem dois campos ideológicos em confronto: o liberalismo económico (que deixa o mercado regular tudo) e o socialismo (que propõe a abolição da propriedade privada). A Igreja sente-se interpelada a oferecer uma terceira via.

O adversário principal é duplo: o capitalismo selvagem que explora os trabalhadores, e o socialismo que dissolve a família e nega a propriedade. O foco é nacional e europeu, embora com pretensão universal.

 

Magnifica Humanitas (2026)

Leão XIV escreve num mundo radicalmente diferente. A tecnologia digital e a inteligência artificial não são apenas instrumentos de produção – são infraestruturas de poder que moldam a cognição, o trabalho, a comunicação, a guerra e a democracia. Os adversários não são ideologias políticas bem definidas, mas tendências difusas: o paradigma tecnocrático (a ideia de que tudo pode e deve ser otimizado), o transumanismo (a promessa de uma humanidade melhorada além dos seus limites naturais), e a concentração de poder em entidades privadas transnacionais que escapam ao controlo democrático.

O alcance é genuinamente global e inclui preocupações que Leão XIII não podia antecipar: o cuidado da Casa Comum, a igualdade de género como condição de dignidade plena, a questão dos refugiados e migrantes, os sistemas de armas autónomas.

 

II. O MÉTODO

Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro

Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro: na Rerum Novarum, “Leão XIII diz o que é certo e o que é errado com a clareza própria da escolástica. A Magnifica Humanitas adota um método herdeiro do Concílio Vaticano II e, mais recentemente, do estilo de Francisco.” Foto: Direitos reservados.

Rerum Novarum: a doutrina aplicada

A Rerum Novarum opera principalmente por dedução: a partir de princípios filosóficos e teológicos (natureza humana, lei natural, propriedade, família), deriva orientações concretas para a organização do trabalho e do Estado. O tom é assertivo e muitas vezes prescritivo. Leão XIII diz o que é certo e o que é errado com a clareza própria da escolástica.

 

Magnifica Humanitas: o discernimento partilhado

A Magnifica Humanitas adota um método diferente, herdeiro do Concílio Vaticano II e, mais recentemente, do estilo de Francisco. O documento não pretende dar respostas definitivas a questões técnicas específicas – reconhece explicitamente que a Igreja não tem competência para resolver dilemas de engenharia ou de política regulatória. O que oferece são critérios de discernimento: dignidade da pessoa, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade, opção pelos pobres.

Esta humildade metodológica é, ao mesmo tempo, uma força e uma limitação. É uma força porque evita que a Igreja fale com autoridade sobre o que não conhece. É uma limitação porque pode deixar o leitor em busca de orientações mais concretas sem saber exatamente onde como aplicar os princípios.

 

III. OS TEMAS CENTRAIS

Tomáš Halík

O teólogo checo Tomáš Halík em Lisboa, na conferência sobre “Ler os Sinais dos Tempos”, a propósito da publicação do seu livro O Sonho de Uma Nova Manhã (Paulinas Editora), em Novembro de 2024. Foto © António Marujo/7MARGENS

O trabalho

A Rerum Novarum coloca o trabalho no centro absoluto. O trabalhador manual, explorado, sem voz nem direitos, é o sujeito de todo o documento. Leão XIII defende o salário justo, o direito de associação, o descanso dominical, a proteção das mulheres e crianças. É um ‘documento de combate’ a favor dos mais fracos numa situação concreta de exploração.

A Magnifica Humanitas retoma esta centralidade do trabalho, mas num contexto de automação e desemprego tecnológico. A questão não é apenas a do salário justo, mas a possibilidade mesma de trabalhar – e o que acontece à dignidade das pessoas quando o trabalho desaparece. Leão XIV não condena a automação, mas exige que a sua introdução seja avaliada com base no seu impacto na dignidade dos trabalhadores e na exigência de que as sociedades criem alternativas que não deixem ninguém para trás.

 

A propriedade

A Rerum Novarum defende vigorosamente a propriedade privada contra o socialismo, mas insiste na sua função social: ninguém pode usar a sua propriedade de forma a prejudicar o bem comum.

A Magnifica Humanitas aplica este princípio aos novos bens da era digital: patentes, algoritmos, plataformas, dados. A concentração destes bens nas mãos de poucos é tão problemática quanto a concentração da terra fundiária no século XIX. O princípio da destinação universal dos bens exige formas de acesso equitativo à tecnologia.

 

O Estado e a regulação

A Rerum Novarum atribui ao Estado o papel de árbitro e protetor: deve garantir os direitos dos trabalhadores, impedir a exploração, criar as condições para uma vida digna. O Estado é visto como natural aliado da ordem social cristã.

A Magnifica Humanitas é mais cautelosa. O problema atual não é um Estado ausente, mas um poder tecnológico que excede a capacidade regulatória dos Estados. A resposta não pode ser apenas nacional – exige cooperação internacional, organismos supranacionais mais eficazes e novas formas de governança que envolvam a sociedade civil, as universidades, as comunidades religiosas. A subsidiariedade aplica-se aqui de forma invertida: as instâncias superiores (incluindo as globais) têm o dever de criar as condições para que as instâncias inferiores possam exercer a sua responsabilidade.

 

A dimensão espiritual

A Rerum Novarum tem uma dimensão espiritual, mas é sobretudo um documento de direito natural – os seus argumentos são acessíveis à razão, mesmo sem fé.

A Magnifica Humanitas é muito mais explicitamente teológica. A dignidade humana fundamenta-se no mistério trinitário. O modelo de relação justa entre pessoas é o amor intratrinitário. O “verdadeiro mais que humano” não é o transhumano melhorado pela tecnologia, mas o santificado pela graça. Esta espessura teológica é simultaneamente o ponto mais original do documento e o que o torna mais difícil de traduzir para o debate público secular.

 

IV. O QUE PERMANECE, O QUE MUDA

V. UMA CONTINUIDADE PROFUNDA

“Leão XIII dizia que não há autêntica evangelização sem atenção à vida concreta dos povos. Leão XIV diz que não há desenvolvimento humano integral sem atenção à forma como a tecnologia afeta a liberdade, o trabalho, a verdade e a paz.” Imagem reproduzida do Vatican News

Por baixo de todas as diferenças, há uma continuidade que importa nomear: ambas as encíclicas recusam que o progresso económico e tecnológico possa ser avaliado apenas em termos de eficiência ou de crescimento. O critério decisivo é sempre a dignidade de cada pessoa humana concreta – especialmente as mais vulneráveis.

Leão XIII dizia que não há autêntica evangelização sem atenção à vida concreta dos povos. Leão XIV diz que não há desenvolvimento humano integral sem atenção à forma como a tecnologia afeta a liberdade, o trabalho, a verdade e a paz. A questão mudou; a convicção fundamental permanece.

Em 1891, a Igreja foi uma das poucas instituições a defender os trabalhadores quando poucos o faziam. Em 2026, propõe-se ser uma das poucas vozes a defender a irredutibilidade da pessoa humana quando a pressão para a reduzir a dado, perfil ou consumidor, é mais forte do que nunca. Se conseguirá fazê-lo com eficácia – essa é outra questão. Mas o gesto de se colocar do lado da dignidade da pessoa humana, mesmo contra a corrente, é o mesmo em 2026 como o foi em 1891.

 

João Wemans é engenheiro físico, doutorado pelo Instituto Superior Técnico. Consultor da área digital e estratégica da empresa eVISO.

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