Relatório chocante publicado em França

Responsabilidades sistémicas da Igreja numa “cultura de abusos”

| 28 Jun 2023

Thomas Philippe et son frère Marie-Dominique Philippe à l’Arche. Photo non datée. Un rapport sur le système d’abus instauré par le père Marie-Dominique, fondateur de la communauté Saint-Jean, a été publié lundi 26 juin 2023. L’ARCHE

Marie-Dominique Philippe e o seu irmão Thomas Philippe. Foto © L’Arche, s/ data

 

Morreu em 2006, com 93 anos. E, como se costuma dizer em meios católicos, “em odor de santidade”. As suas obras e a veneração de tanta gente pelo seu exemplo abriam eventualmente a possibilidade do processo de beatificação. Afinal, não passava de um escroque, do ponto de vista moral e, sabe-se agora, foi ao longo de décadas, um abusador moral e sexual de largas dezenas de religiosos e religiosas. O seu nome: Marie-Dominique Philippe. O jornal Religion Digital chama-lhe “o Maciel francês”.

A visão global sobre as malfeitorias do padre Marie-Dominique Philippe e de outros colaboradores seus constam de um relatório de perto de mais de 800 páginas que foi publicado esta semana em França, com o título Comprendre et guérir – Origines et analyses des abus dans la famille Saint-Jean (“Compreender e curar

A investigação refere-se apenas à congregação dos Irmãos de São João, por ele fundada em 1975, e foi solicitada em 2019 pelo seu capítulo geral. Integrou irmãos da instituição e especialistas externos, entre os quais psiquiatras, psicólogos, historiadores e teólogos.

O enredo deste caso apresenta uma certa complexidade, visto que o nome do padre Marie-Dominique Philippe surge igualmente em duas outras investigações, já divulgadas em anos recentes: a que envolve Jean Vanier e a instituição Arche International, por ele fundada, assim como o padre Thomas Philippe, irmão de Marie-Dominique; e, por outro lado, um livro da autoria de Tangi Cavalin, intitulado Les Dominicains Face au Scandale des Frères Philippe (“Os dominicanos face ao escândalo dos irmãos Philippe”).

O estudo Compreender e curar apurou que, desde a fundação dos Irmãos de São João, o padre Marie-Dominique Philippe terá abusado de adultos de ambos os sexos, tendo tido “papel decisivo” na multiplicação desses abusos e na cultura abusiva que foi instituindo. Nessa linha terá havido abusos praticados por 72 irmãos (8 por cento do total desde a fundação do instituto religioso), tendo sido contabilizadas 167 vítimas, maioritariamente mulheres.

Os abusos de poder e sexuais já vinham de meados dos anos 1950. Nessa altura, M.-D. Philippe foi punido, mas o castigo não foi divulgado e o mestre geral dos dominicanos levantou a pena pouco tempo depois. Isso permitiu ao padre arquitetar a criação de institutos religiosos masculinos e femininos, aprovados por vários bispos, e sofisticar as precauções, conforme refere a investigação.

No novo contexto, em que teve, em poucos anos, a partir de 1975, centenas de jovens nas comunidades nascentes, desenvolveu um esquema baseado em dois níveis de atuação: um o formal e público, em que as instruções e as normas, respeitavam, em traços gerais, a doutrina aprovada pela Igreja. Mas num segundo nível – “secreto” – “reservado a certas almas” capazes de as aceitar, eram trabalhadas outras orientações. Os gestos íntimos, mesmo que fora da relação conjugal e contrários ao voto de castidade, “podem ser uma expressão do amor divino”. Mediante os gestos de ternura física de um – aquele que está em situação de poder – “a misericórdia divina pode atingir o outro na sua fraqueza e curá-lo das suas feridas”. E mesmo “o encontro dos corpos pode ser entendido como um ato místico e até como uma oração”. E dado que não se busca “o prazer por si mesmo”, mas, antes, “exprimir o amor divino”, a intimidade sexual, tal como a caridade fraterna, “também não é exclusiva”, podendo, portanto, “ser vivida com várias pessoas ao mesmo tempo”.

Os autores do relatório sublinham que o padre M. Dominique Philippe  “desempenhou um papel central, tanto direta como indiretamente, na difusão dos abusos sexuais entre irmãos e irmãs. Diretamente, devido aos seus próprios abusos e “porque aprovou situações de abuso ou fechou os olhos a elas, quando uma declaração clara, decisões firmes e sanções teriam esclarecido a consciência das pessoas e permitido às vítimas libertarem-se do constrangimento e da confusão em que se encontravam”. O papel indireto terá ocorrido através da formação intelectual e espiritual que proporcionou, encorajando alguns irmãos e irmãs a “entrarem em relações equívocas, espirituais e sexuais”, como mostra a secção teológica do relatório. Nada disso exonera de responsabilidades os membros das comunidades de religiosos, diz também o texto.

A “natureza sistémica” do abuso é também objeto de destaque. O documento refere que o contexto eclesial estava “marcado por disfunções, nomeadamente falta de reações firmes por parte da hierarquia, perante situações desviantes e sacralização de figuras de autoridade”, como mostrou o relatório da Comissão Independente sobre os abusos sobre crianças, publicado em França em 2021.

Por outro lado, adianta o relatório, “pode também conjeturar-se que, se as sanções de 1957 contra o padre Marie-Dominique Philippe não tivessem sido ocultadas e se não tivessem sido levantadas, a sua capacidade de causar danos teria sido consideravelmente reduzida”.

Em resultado dos testemunhos das vítimas, as comunidades dos Irmãos de São João começaram, por volta de 2010, a tomar “gradualmente consciência de que existia um problema fundamental de moral e que era preciso fazer alguma coisa para o resolver”. Quando, em 2013, o prior geral dos Irmãos decidiu revelar as perturbações morais do fundador, iniciou-se o longo processo comunitário de desvinculação em relação a ele, de que este estudo é expressão e instrumento.

Marie-Dominique Philippe foi frade dominicano, um prolífico autor de obras de filosofia e de teologia, matérias que lecionou ao longo de grande parte da sua vida, nomeadamente na Universidade de Friburgo, Suíça. Era um admirador de João Paulo II e julga-se que a estima era recíproca. Em cada ano, na terça-feira santa, ele, com os noviços, dirigia-se a Roma para um encontro com o Papa polaco.

(Para compreender melhor este dossiê, os leitores poderão interessar-se por ver um debate com dois irmãos de São João, organizado pelo canal católico francês KTOTV.)

 

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