Leituras de Páscoa (8)

“Ressurreição – Manual de instruções”

| 31 Mar 2024

Nas últimas semanas, o 7MARGENS publicou um “Diário de Caminho” de Cláudio Louro, como peregrino de Santiago, e iniciámos a publicação do “Diário de um jejuador”, da autoria de Khalid Jamal, como propostas para a reflexão a propósito de tempos fortes para os cristãos (a Quaresma) e para os muçulmanos (o Ramadão) respectivamente. Hoje, 28 de Março, os cristãos celebram Quinta-Feira Santa, o início do Tríduo Pascal que culmina no Domingo de Páscoa.

Tendo em conta a centralidade e importância da Páscoa no calendário cristão (os ortodoxos celebram-na, este ano, apenas no início de Maio, uma vez que seguem o calendário juliano), o 7MARGENS pediu a colaboração de duas editoras, Editorial AO e Paulinas, no sentido de podermos publicar excertos de algumas obras que ajudem à reflexão para e sobre estes dias, sempre na relação com o tempo histórico que estamos a viver. Em resultado da escolha feita, aqui reproduziremos diariamente excertos de dois livros, até Domingo, agradecendo desde já a disponibilidade das editoras para esta iniciativa.

 

Ressurreições no quotidiano 

 

No jeito descontraído, mas provocador, caraterístico das suas obras, Fabrice Hadjadj propõe este «manual de instruções» sobre a ressurreição de Jesus. É, sobretudo, uma reflexão sobre o significado da ressurreição na vida quotidiana, mais ainda, a ressurreição como um acontecimento da vida quotidiana. Neste sentido, Hadjadj não deixa pedra por revirar nem aparição por comentar, mas sempre em busca do comum, da ressurreição presente nos interstícios quase imperceptíveis da vida de todos os dias: os diálogos com o cônjuge, a gritaria dos filhos, a refeição mais ou menos conseguida, o trabalho mais comum… depois da ressurreição de Cristo tudo pode ser ressurreição das pessoas. Afinal, o extraordinário da ressurreição é isso: não ser um cometa que brilha no céu noturno e desaparece, deixando todo o mundo de boca aberta, mas uma presença nas pequenas coisas quotidianas, que não acabam de nos surpreender, na sua simplicidade e banalidade.

 

 

Os Evangelhos contra as nossas quimeras

Transfiguração de Jesus, por Giovanni Bellini.

Transfiguração de Jesus, por Giovanni Bellini.

 

“A fé num certo carpinteiro galileu chamado Jesus, morto e ressuscitado em Jerusalém «sob Pôncio Pilatos» – quer dizer, numa pequena província do Império, governada por um funcionário da administração romana –, foi muito eficaz para me fazer assentar de novo os pés na terra. Esta fé é demasiado detalhada para nos permitir pairar entre as abstrações das «ciências» ou das «espiritualidades». Sobretudo o facto de a ressurreição ser um princípio de realidade bastante severo. Aqueles que acreditaram n’Ele eram pescadores que sabiam consertar as suas redes, pedreiros capazes de construir catedrais, monges hábeis a limpar e trabalhar os campos, ou seja, pessoas extremamente práticas e concretas. Acreditar no Ressuscitado era para eles tão sólido como plantar trigo ou construir uma basílica romana. E mais sólido ainda, visto que eles se apoiavam nessa fé para erguer a abóbada, à semelhança da espiga.

Os Evangelhos da Páscoa vão todos nesse sentido, completamente contra as nossas quimeras. Inevitavelmente, se pensássemos num homem que tivesse entrado na glória divina, imaginá-lo-íamos a fazer coisas extraordinárias – mais brilhante do que uma vedeta na cerimónia dos Óscares, fazendo malabarismos com as estrelas, estabelecendo uma tal harmonia que o lobo habitaria com o cordeiro e a pantera se deitaria com o novilho (Is 11, 6)…

Ora, devemos render-nos à evidência, Jesus ressuscitado não faz nada disso. Fora uma rede de pesca cheia, a transbordar, e uma ascensão a propósito da qual dois homens de branco acalmam a assistência, interpelando-a: Homens da Galileia, porque estais a olhar para o céu? (At 1, 11), Ele não faz milagres nenhuns. Ou, se os faz, são milagres do avesso, discretos, reservados, corriqueiros.

Curiosamente, depois da sua ressurreição, Jesus não só resplandece menos do que durante a sua transfiguração no Tabor, mas já nem sequer tem o carisma de antes: Maria Madalena toma-o inicialmente por um simples jardineiro, os discípulos de Emaús, pelo mais ignorante dos habitantes de Jerusalém, os Apóstolos, por uma espécie de pescador aposentado à beira do lago de Tiberíades… Ele atravessou o limiar da morte, voltou a subir dos infernos e faz questão, apesar de tudo, com um pudor inexplicável, de se manifestar como um transeunte qualquer: Ele próprio apresentou-se no meio deles (Lc 24, 36; Jo 10, 19.26). Os evangelistas insistem nesta modéstia. No meio deles, quer dizer, com uma familiaridade surpreendente, mais surpreendente do que qualquer aparição fantástica, pois, em tais circunstâncias, era uma aparição fantástica que deveríamos esperar. (…).

 

A realidade como fonte

Jesus e a Samaritana. Pintura de 1650.

Jesus e a Samaritana. Pintura de 1650.

 

Afinal, há algo melhor do que fazer coisas extraordinárias: iluminar o ordinário a partir do interior. E Jesus não poderia fazer o contrário, sendo Ele, de facto, o Verbo criador e redentor – o mesmo que cria, o mesmo que salva e o mesmo que salva aquilo que criou, caso contrário não salvaria nada (aqui não se trata de fazer «tábua rasa», mas de preparar uma mesa que assuma o «fruto da terra e do trabalho do homem»). O ordinário, foi Ele que o inventou, como algo que ninguém tinha feito até então. Como poderia desdenhá-lo? Pelo contrário, Jesus resgata-o, reergue-o e liberta-o da fantasia. É verdade que Ele se deixou levar, aqui e ali, por prodígios impressionantes e até bastante numerosos, como curar doentes pelo simples contacto do seu manto ou alimentar milhares de pessoas famintas com aperitivos insuficientes para duas pessoas. Todavia, devemos reconhecer que, à escala da sua estadia aqui na terra (alguns momentos dos três anos da sua vida pública, em comparação com os seus trinta anos de vida oculta e silenciosa), sobretudo para alguém que é Todo-poderoso, estamos a falar de efeitos bastante limitados. E por uma boa razão! Se Ele fizesse surgir uma cidade inteira do solo, correríamos o risco de esquecer que, antes disso, Ele já estava a criar o universo inteiro. Se tivesse feito telhados com um simples estalar de dedos, acabaríamos por esquecer que Ele já tinha feito muito mais do que isso de uma vez só: criando homens com todos os seus membros que, graças à energia d’Ele recebida, exercem a arte da carpintaria. Com o seu cajado, Moisés consegue abrir o Mar Vermelho. Jesus, enquanto Verbo eterno, é o autor do próprio Mar Vermelho, até à mais pequena centelha da menor das suas vagas, de tal modo que a sua obra mais assombrosa não é fendê-lo com um gesto nem acalmar a tempestade (o que há de mais natural?), mas pedir um copo de água à Samaritana.

 

Ressurreição – Manual de instruções, de Fabrice Hadjajd
200 pág., Editorial AO

 

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