Estará o ser humano destinado à eternidade ou a sua existência conclui-se com o último suspiro? Somos “seres para a morte” (Heidegger) ou, pelo contrário, a nossa existência está votada à vida? Tanto numa como na outra interpretação da natureza do ser humano, não está apenas em causa o fim natural da vida biológica, mas a forma como equacionamos a totalidade da nossa existência.
O conceito de dignidade humana pretende exprimir o valor inalienável de cada pessoa e tem como pressuposto a ideia cristã de um ser humano criado por Deus à sua imagem e semelhança (Gn. 1, 26-27). Dessa crença judaico-cristã decorre a ideia de que a vida humana não veio a acontecer no mundo por mero acaso. Foi desejada, projetada e criada com um propósito cujo cumprimento pressupõe a eternidade. Segundo o ideário cristão, viemos à existência não por uma qualquer “decisão” aleatória de um destino cego, mas porque fomos amados desde toda a eternidade. A nossa existência no mundo visa, portanto, o cumprimento do projeto que, por um lado, já somos e, por outro, somos chamados a ser. A existência humana no mundo é o tempo e o espaço que nos foram dados para que nos autoconstruíssemos no exercício da nossa liberdade. É simultaneamente dádiva e empenhamento ético, ser e dever ser.

Michelangelo, A Criação do Homem (Capela Sistina).”Dessa crença judaico-cristã decorre a ideia de que a vida humana não veio a acontecer no mundo por mero acaso. Foi desejada, projetada e criada com um propósito cujo cumprimento pressupõe a eternidade.” Foto via Wikimedia Commons
Neste contexto, o valor incalculável do ser humano parece impossível de compaginar com a sua extinção pura e simples no derradeiro momento da vida. É por isso que a ideia de ressurreição fez o seu caminho histórico desde o tempo dos Macabeus (séc. II a.C.) e se desenvolveu no seio do judaísmo, do cristianismo e, posteriormente, do islamismo. Segundo se julga, a ideia da ressurreição tem a sua origem na experiência do martírio e, de uma forma geral, na experiência da morte de todas as vítimas inocentes. Se Deus é justo, como pode permitir que vençam os algozes e as vítimas inocentes sejam trucidadas pelos acontecimentos?
No contexto do ideário judaico-cristão, não faria sentido termos sido criados por um Deus que nos ama, com o objetivo de nos realizarmos, e sermos simplesmente devorados pelo nada absoluto que a morte representaria se não houvesse ressurreição. Que Deus cruel nos criaria para o esquecimento e a morte?
Desde os primórdios do cristianismo que a fé na ressurreição tem um lugar central no seu credo. Os primeiros testemunhos cristãos que chegaram até nós (sobretudo, Paulo) são disso prova suficiente na sua afirmação lapidar: Jesus foi crucificado pelos seus verdugos humanos (autoridades judaicas e romanas), mas Deus não permitiu que permanecesse nessa noite sombria e ressuscitou-o de entre os mortos, assegurando assim que a justiça prevaleceria sobre a injusta condenação e a cruel execução na cruz.

“A ressurreição não é, nem nunca foi um facto histórico observável. É um evento transcendente e não imanente ao mundo.” Fotografia: Fresco da Ressurreição, Igreja de Chora (Kariye Museum ) Istambul.
Mas a ideia de ressurreição não era pacífica mesmo no interior das primeiras comunidades cristãs. Paulo fala-nos claramente da dificuldade dos coríntios convertidos ao cristianismo em acreditar na ressurreição dos mortos (1Cor. 15, 12).
Esta dificuldade em acreditar numa tese tão central do credo cristão deriva do facto incontroverso de que não havia provas ou evidências palpáveis de que tal tivesse acontecido a Cristo (e muito menos de que tal experiência pudesse ocorrer após a morte de qualquer ser humano). A ressurreição não é, nem nunca foi um facto histórico observável. É um evento transcendente e não imanente ao mundo. É por isso que nenhuma análise historiográfica poderá sustentar a realidade efetiva desse “evento” escatológico. É pura matéria de fé, ou seja, deriva da confiança no amor infinito de Deus.
É verdade que os primeiros testemunhos se esforçam por justificar a crença na ressurreição, primeiro com as narrativas do túmulo vazio e depois com as “aparições” de Cristo aos seus primeiros discípulos. Mas tais “aparições”, a existirem, foram igualmente fenómenos irredutíveis a factos comprováveis. Mais do que “aparições”, dever-se-ia falar em “visões”, fenómenos internos à consciência do ser humano e não observáveis por outros. Os relatos evangélicos dão conta desta ambiguidade quando narram “aparições” repletas de contradições evidentes. A única certeza historiográfica que temos a respeito do encontro entre o Cristo ressuscitado e os primeiros discípulos é que as primeiras comunidades cristãs acreditavam (não sem hesitações) que Cristo tinha ressuscitado. As “aparições” são narrativas ficcionais resultantes da fé das comunidades, ou seja, da sua plena confiança no amor de Deus e na justiça divina. São fenómenos que exigem a fé. Avessos, portanto, a qualquer justificação que se baseie em métodos científicos.

“Mais do que “aparições”, dever-se-ia falar em “visões”, fenómenos internos à consciência do ser humano e não observáveis por outros. Os relatos evangélicos dão conta desta ambiguidade quando narram “aparições” repletas de contradições evidentes.” Gravura: Caminho de Emaús (pormenor da capa do livro “Perguntas de Deus, Perguntas a Deus”).
Qual é então a credibilidade da ressurreição, se depende exclusivamente de um ato de fé? Em meu entender, a fé não pode ser interpretada como um conjunto de crenças em fenómenos absurdos, implausíveis, sem qualquer razoabilidade. Pelo contrário, só faz sentido acreditar em algo para o qual eu possa encontrar razões que o tornem credível, ainda que indemonstrável.
Haverá razões que poderão ser aventadas no sentido de justificar a fé na ressurreição enquanto “evento” transcendente, mas plausível? Convém estabelecer um ponto prévio: todas as razões que possam ser apresentadas partem do pressuposto de que existe um Deus, que esse Deus é a origem de todas as coisas e que criou o ser humano com o propósito de lhe permitir a sua total realização. Sem uma firme crença nestes postulados, não há qualquer possibilidade de acreditar na ressurreição. O contrário é possível: podemos crer na existência de Deus sem crermos na ressurreição. De facto, durante centenas de anos, não fazia parte da fé hebraica a ideia da ressurreição. E mesmo no tempo de Jesus, ainda havia grupos no interior da religião hebraica que a negavam, ainda que acreditassem claramente em Deus e no valor definitivo da sua Lei.
Adentremo-nos agora nas razões que podem fazer alguma luz sobre a ressurreição:
- Se Deus nos criou para a vida, não faz sentido que o nosso destino definitivo seja a morte. O facto de termos sido criados por Deus parece implicar que o nosso destino é a vida e não o nada.
- Jesus foi condenado e morreu injustamente. Se Deus o não ressuscitasse, ficaria em causa a justiça divina. Como poderia o Deus perfeito e justo permitir que Jesus sucumbisse ao arbítrio cruel dos seus perseguidores? Este mesmo argumento é evidentemente extensível a todas as vítimas da injustiça humana ou do mero acaso: a justiça infinita de Deus implica a sua intervenção no sentido de não permitir que a mentira, a injustiça, a crueldade, o mero acaso etc. tenham a última palavra sobre as vítimas.
- Se Deus nos criou para que pudéssemos cumprir-nos cabalmente, a ressurreição parece ser necessária para que este propósito se realize. Poucos seres humanos — se é que há algum nestas condições — poderão chegar ao final da vida e assegurar que se cumpriram totalmente. Precisamos da ressurreição para tornar possível o propósito de Deus. Na verdade, só Deus poderá concluir esse processo existencial da nossa plena realização. Sem Deus, seremos sempre um projeto inacabado.
- A aspiração à eternidade é universal. Como podemos interpretar essa sua característica? Há essencialmente duas maneiras de o fazer. A primeira decorre de uma visão ateia da vida: esta aspiração é uma mera ilusão e, portanto, não tem qualquer conteúdo concreto. Além disso, é esta aspiração que é responsável pela crença na existência de um deus, ou seja, deus seria a projeção dos nossos desejos ilusórios — mera criação do desejo humano de eternidade. Nesta interpretação fica por esclarecer qual o propósito de uma tal ilusão.
A segunda perspetiva parte do pressuposto de que existe um Deus que tudo criou, incluindo o desejo humano de eternidade como aspiração à comunhão absoluta com Ele. Neste contexto, não faria sentido que Deus tivesse semeado no coração humano a sede de infinito sem prover à sua realização.
- Se viemos de Deus, pelo menos como ideia eterna ou como projeto, por que razão não seria Deus o destino de cada um? Ele é o fundamento de todas as coisas e, portanto, dele viemos e para Ele regressamos. Deus é a pátria definitiva onde poderemos encontrar o nosso pleno cumprimento.
As razões atrás expressas põem em relevo o facto de que a fé na ressurreição está intimamente ligada à crença num Deus que é a origem de todas as coisas. Sem Deus no horizonte da vida, nenhuma ressurreição será possível.
No entanto, não há certezas sobre um tema tão nebuloso. É possível que a totalidade das coisas existentes não tenham um fundamento estável, um sentido absoluto. Por mero acaso, aqui teríamos chegado e assim seremos roubados à existência. Não haveria, portanto, qualquer sentido definitivo para a vida. Poderíamos atribuir-lhe sentidos transitórios, mas seriam sempre fugazes e efémeros. A última palavra sobre a existência seria o não-sentido, o nada absoluto. Nesta perspetiva, a crença na ressurreição seria assimilável a um mero conto de fadas infantil, no qual acreditam os que ainda se não ergueram da sua condição de menoridade intelectual.
Porém, até um conto de fadas tem a sua verdade intrínseca. Talvez a simplicidade espontânea da entrega confiante das crianças seja algo que não convirá perder. Possivelmente, Jesus terá querido dizer algo semelhante quando afirmou que, “se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu” (Mt 18, 3-4; Lc 18, 17).
A contingência do mundo parece exigir que haja um fundamento absoluto, um princípio sem princípio, um Deus que o tenha projetado e criado com um propósito. No que me toca, prefiro esta segunda hipótese. Torna luminosa a contingência da vida e não limita a esperança ao ritmo exíguo dos nossos passos.
Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.










