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Cristo. Inferno
Autor desconhecido: Anástasis, tormento do Inferno e Ressurreição de Jesus. Fresco de igreja bizantina de Chora, Istambul (Turquia). Foto © Gunnar Bach.

Niceia, 1700 anos: uma leitura atual (5)

Ressuscitou ao terceiro dia – a vida e a morte totalmente alterada

| 13/08/2025

Publicamos hoje o quinto texto sobre 1700 anos do Concílio de Niceia (atual İznik, Turquia), de uma reflexão de Vítor Rafael, colunista regular do 7MARGENS, doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. [Ler textos anteriores]

 

Desceu aos infernos, ressuscitou ao terceiro dia

 

No espaço que medeia entre a sua morte e a sua ressurreição, Jesus desce à mansão dos mortos. É uma das passagens mais enigmáticas das escrituras mas reflecte bem as nossas angústias perante o inevitável das nossas vidas. Um dia desceremos à mansão dos mortos, a essa realidade completamente desconhecida, escura e que nos expõe os limites e fragilidade do nosso ser.

 

Desceu aos infernos

Ícone da Ressurreição (Cristo liberta Adão e Eva do Hades), pintado no Mosteiro do Nascimento da Mãe de Deus

Ícone da Ressurreição (Cristo liberta Adão e Eva do Hades), pintado no Mosteiro do Nascimento da Mãe de Deus

Talvez um dos pontos mais controversos do Credo seja a declaração de que Jesus desceu aos infernos ou à mansão dos mortos. Esta doutrina ensinada por alguns pais da Igreja tem a sua base nalgumas passagens do Novo Testamento. A palavra inferno, tal como exposta no Credo de origem latina, não se encontra nas escrituras, mas é consensual que a mesma seja equivalente ao uso da palavra grega hades na versão da Septuaginta e que é usada para traduzir a palavra hebraica sheol. Ora hades, na mitologia grega, é o deus do mundo inferior e dos mortos, embora essa palavra grega no Novo Testamento transmita já a ideia de inferno dos condenados, ela pode também expressar um local de espera, onde todos aguardam a ressurreição escatológica antes do Julgamento Final.

Passagens como 1 Pedro 3:19-20; 4:6 ou Efésios 4:8-10 mostram que Jesus, antes de ressuscitar, desceu efectivamente aos infernos pregar aos espíritos encarcerados e derrotar o próprio inferno. O período intertestamentário é rico em literatura apocalíptica e não seria de estranhar que os judeus e até os primeiros cristãos pudessem ser influenciados por livros visionários como o livro de 1 Enoque e o Livro dos Jubileus. Parece existir algum paralelismo entre 1 Enoque, que relata a sua jornada para ir pregar aos espíritos angélicos caídos na sua condenação por Deus (1 Enoque 12-15) e o relato da Primeira Carta de Pedro, onde Cristo desce para libertar aqueles que haviam sido condenados. A passagem de 1 Pedro 4:6, sugere o julgamento dos mortos segundo os padrões humanos (o qual deve ser entendido como o direito romano) afim de que vivessem segundo Deus em espírito. Interessante que o tema da angústia do inferno era debatido amplamente pelos pais da Igreja. A título de curiosidade, na versão etíope do apócrifo Apocalipse de Pedro, escrito por volta de 135 a.C., Pedro pede a Jesus que tenha piedade das pessoas que estão no inferno, ao que Jesus responde que elas acabarão por ser salvas por Deus.

O tema da morte nas sociedades contemporâneas tem sido abordado quase como um tabu. Com a nossa cultura de negação da morte, diabolizamos a degradação dos nossos corpos e idealizamos-nos por vezes quase num eterno estado juvenil e de bem-estar. A morte é até levantada do próprio sepulcro, como o mostra a proliferação da cultura zombie: resignamos-nos a morrer. Inevitavelmente, com ou sem aviso, tranquilamente ou com dor, a morte irá chegar mais cedo ou mais tarde à nossa vida e faremos o nosso caminho descendente ao reino dos mortos.

Relembrando a parábola do rico e de Lázaro relatada em Lucas 16:19-31, apesar de ser humano algum poder atravessar o fosso que separa os que estão no seio de Abraão e os que estão em tormento, Jesus, neste interregno da noite escura da alma humana, é aquele que venceu o império da morte e o próprio diabo (Hebreus 2.14) e que nos pode iluminar. O introito da magnífica obra de Mozart espelha bem os anseios mais profundos do ser, pedindo que a luz perpétua de Jesus ilumine as nossas almas na hora da nossa morte (Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis) porque mesmo ali no mais profundo dos abismos, o Senhor estará connosco (Salmo 139:8)

 

Ressuscitou ao terceiro dia

Ressurreição. Mosaico, séc. XIII. Basílica de São Marcos, Veneza (Itália).

Nestes tempos modernos, a declaração de que alguém possa voltar à vida é deveras bem controversa. É verdade que existem relatos de pessoas que “voltaram à vida” após breves momentos de terem sido declaradas clinicamente mortas, mas nenhum que tenha ocorrido depois de alguém ter estado legalmente morto durante três dias. Curiosamente, essa afirmação do Credo nos tempos antigos não era assim tão extraordinária. Havia relatos idênticos nas religiões antigas egípcias, nos textos ugaríticos antigos, e até nos escritos gregos.

Mas contra certas correntes gnósticas que afirmavam que a ressurreição do Senhor tinha sido espiritual ou até aparente, a grande Igreja irá insistir que o corpo do Senhor foi físico, embora de uma outra natureza, um corpo glorioso, a qual será agora o paradigma na ressurreição final de todas as pessoas (2 Coríntios 4:14).

A ressurreição de Jesus é certamente o evento central do Novo Testamento. Paulo chega mesmo a afirmar que “se, porém Cristo não ressuscitou, vazio é o nosso anúncio e vazia é também a vossa fé” (I Coríntios 15:14-17). Não existe dúvida alguma que as experiências e testemunhos de todos quanto viram o Cristo ressurrecto, alteraram por completo a vida, não só dos que O presenciaram, como a de todos os que a seguir creram, mesmo sem O terem visto (João 20:29). O significado da vida humana ficou assim totalmente alterado, a vida e a morte passaram a ter novos significados.

 

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