
A diocese da capital francesa quer aproveitar a oportunidade do restauro da catedral de Notre-Dame para tornar o espaço e a experiência das visitas mais interessante, criando um ambiente mais aconchegante, com linguagens mais atuais. Foto © Gabriela Sauciuc.
E se, ao voltar à catedral de Notre-Dame, em Paris, depois da sua reabertura em 2024, encontrasse uma ocupação do espaço radicalmente diferente, mais preocupada com as pessoas que a visitam do que com a reconstituição fiel do que ela era antes do incêndio de 2019?
É, em boa medida, essa a opção que estará sobre a mesa, esta quinta-feira, 9, quando a Comissão Nacional do Património se encontrar com os autores da proposta e com os responsáveis da diocese de Paris, que a encomendaram.
Mas, entretanto, a polémica já eclodiu e saltou para os meios de comunicação, agravada (e, há quem diga, também influenciada) pelo processo das últimas semanas que levou à demissão do arcebispo de Paris.
A diocese da capital francesa quis aproveitar a oportunidade para tornar o espaço e a experiência das visitas mais interessante. Isso passaria por deslocar grande parte dos confessionários, do séc. XIX, para um outro espaço e, no seu lugar, instalar obras de arte alusivas a cenas e protagonistas da Bíblia, acompanhadas da projeção de legendas e citações da Bíblia em várias línguas nas paredes laterais das capelas, que explicassem a sua origem e significado.
A iluminação seria completamente alterada, criando um ambiente mais escuro em todo o espaço, baixando as luzes para o nível dos olhos das pessoas, o que permitira dar mais força visual aos vitrais.
As capelas laterais, que já se encontravam bastante deterioradas antes do incêndio de 2019, veriam as obras de arte restauradas e colocadas em diálogo com obras modernas ou contemporâneas.
O piso propriamente dito veria as cadeiras substituídas por bancos mais confortáveis e com iluminação própria, podendo mesmo ser removidos em determinadas alturas, para facilitar a mobilidade dos visitantes.
A ideia geral da mudança proposta, segundo declarações do padre Gilles Drouin, que é diretor do Instituto Superior de Liturgia e superintende nesta área das obras, é criar um ambiente mais aconchegante, com linguagens mais atuais, valorizando a participação nas muitas centenas de missas e cerca de 150 concertos que ali têm lugar anualmente.
A proposta visa igualmente acolher e informar melhor o público “que nem sempre é de cultura cristã”. Como exemplo, o clérigo refere os visitantes chineses para quem a cena da Natividade de Jesus pode não ser entendida. Cita também o caso da capela existente na catedral em que se venera o mártir chinês do século XIX, S. Paulo Tchen, que pode ser foco de outra atenção se houver forma de comunicar com os visitantes chineses em mandarim.
Museu ou catedral?
Quando se começou a conhecer pormenores da proposta desencadearam-se reações antagónicas. Esta terça-feira, 6, o jornal Le Figaro e a revista La Tribune de l’Art publicaram uma tomada de posição de mais de uma centena de personalidades que recusam de forma terminante o leque de ideias que está em cima da mesa.
Uma das subscritoras, a jornalista Anne-Elisabeth Moutet, explicita a posição afirmando, em declarações à rádio Europe 1: “A diocese de Paris tem um projeto para fazer o que chama de viagem catecumenal dentro da catedral, para explicar o catolicismo a 12 milhões de turistas, com animações, projeções de palavras em diferentes línguas nas paredes da catedral. Isso tem certamente o seu lugar num museu, mas não numa catedral”.
Os signatários da tomada de posição, acrescenta a jornalista, “defendem a organização e a conceção do lugar concebidas por Viollet-le-Duc [o restaurador da catedral no início do século XIX], hoje ‘reduzida a nada’ pela diocese de Paris”.
Outras figuras que apoiam claramente as soluções encontradas consideram que a pretensão de manter o interior da catedral exatamente como se encontrava seria uma “capitulação”, que a própria história do monumento contradiz de forma evidente, como escreveram no jornal Le Monde.
A contundência dos opositores tem sido relacionada com a animosidade com que os setores mais conservadores de França se encontram relativamente às determinações restritivas do Papa Francisco relativamente ao recurso à missa tridentina, que o agora demissionário arcebispo de Paris teria implementado com rigor.
Um editorial do diretor do jornal La Croix desta quarta-feira, dia 8, distancia-se da posição dos que defendem que o restauro deve tomar como referência o estado de coisas antes do incêndio, lembrando que Notre-Dame não é um mero monumento nacional, por ser “um edifício religioso, ou seja, vivo”.
“Uma época que tem confiança em si mesma – acrescenta o editorialista – deve ser capaz de aceitar sem drama algumas inovações artísticas ou litúrgicas, desde que não deformem o edifício”. Sugerindo que se poderia evitar a “armadilha da gadgetização” (como no caso da projeção luminosa de passagens da Bíblia), observa: “Seria ainda mais prejudicial congelar a catedral num passado fantasioso.”
A data para a reabertura da catedral ao público continua a estar prevista para 2024. Neste momento, terminaram as obras que visaram dar segurança e consolidação à estrutura, incluindo as abóbadas. O restauro propriamente dito vai agora iniciar-se.










