Restos mortais do bispo-missionário António Barroso de novo trasladados

| 16 Nov 19 | Destaques, Igreja Católica, Newsletter, Últimas

Noventa e dois anos após a trasladação dos restos mortais de D. António Barroso, no cemitério de Remelhe, o Vaticano impôs nova trasladação para o interior da igreja paroquial, a fim de guardar a memória integral do venerável missionário, nascido no séc. XIX. Será neste domingo, 17 de novembro, às 16h, em Remelhe (Braga).

 

A notícia da morte de António José de Sousa Barroso, missionário em Angola e bispo em Moçambique, Meliapor (Índia) e na diocese do Porto chegou, inquietante, tinha ele sessenta e três anos, no dia 31 de agosto de 1918, ao palácio de Sacais, na cidade do Porto.

Assistido por uma equipa médica, o corpo do patriota singular e insígne bispo não resistiu às infeções, que se acumularam no organismo, devido às febres que o assolaram em terras de missão, a partir de 1880, ano em que foi enviado para Angola e o antigo reino do Congo.

As deslocações à Metrópole eram impostas por abalos na saúde, onde a malária se intrometia como primeira causa. A escassez de meios sanitários nos territórios coloniais fez inúmeras vítimas a que também não escapavam os agentes da missionação.

Por determinação do testamento lavrado, em 1917, um ano antes da morte, o então bispo do Porto decidiu adquirir um mausoléu, para fins funerários da família, no cemitério da sua terra natal. Apesar de bispo residente na diocese do Porto, D. António Barroso quis regressar, na morte, ao lugar que o viu nascer, em 5 de novembro de 1854, e o receberia durante o primeiro exílio, quando a República nascente determinou a sua expulsão da diocese. Um castigo pesado, e considerado ilegal, aplicado ao bispo rebelde, acusado de desobediência aos ditames da governação, personificada no ministro da justiça, Afonso Costa, fervoroso militante da Maçonaria e manifestamente anticlerical.

António Barroso deixou nesse testamento, urgido por doença grave, palavras de grande sensibilidade. Escrevia a 19 de fevereiro de 1917: “Nasci pobre, rico não vivi e pobre quero morrer, em obediência e acatamento às sábias leis da Igreja Católica. Por isso, salva a liturgia, quero que o meu funeral seja o mais pobre possível.”

 

A morte de um missionário pioneiro 

Foram os vexames impostos pela República, por ele designada “República Velha”, e as febres intestinais, em resultado das viagens apostólicas pelo interior das colónias portuguesas, que envelheceram o missionário de Remelhe e, depressa, o colocaram entre a vida e a morte.

Na tarde de 2 de agosto de 1918, D. António Barroso é atingido pela febre paratifoide, que o carrega de sofrimento e põe em alerta toda a diocese portucalense.

Na madrugada de 31 de agosto, sábado, o coração do missionário Barroso deixou de bater. Por quatro dias, os fiéis e o clero velaram o corpo do seu pastor, no paço de Sacais e na sé catedral. Muitas lágrimas se envolveram em verdadeira saudade pelo bispo de rara coragem. Nunca a imprensa lhe fora tão favorável.

No dia 4 de setembro, o corpo foi trasladado, de comboio, para Barcelos, sob chuva abundante, tendo sido depositado, em vela, na igreja matriz da cidade. No dia seguinte, a urna rumou para o cemitério de Remelhe, num carro de bois. Foi sepultado num modesto sarcófago. Ali repousaria o bispo missionário, por nove anos, até à construção da capela jazigo, erguida na entrada do cemitério, por subscrição pública, lançada pelo jornal O Comércio do Porto, dirigido por Bento Carqueja, sob o risco do arquiteto Marques da Silva.

A trasladação dos restos mortais realizou-se a 5 de novembro de 1927, quando se completavam 73 anos do seu nascimento, na eira da casa de Santiago. Assistia a este momento histórico, uma multidão de mais de cinquenta mil pessoas, que cobria o chão de capas de estudantes e flores brancas. Em 1930, vitrais da autoria de Ricardo Leone iluminavam passos da vida do missionário da cruz e da enxada.

 

A vontade da Santa Sé

Não foi atribulado o descanso do missionário Barroso no cemitério da sua terra natal. Mais complexo fora o tempo da evangelização levada a cabo pelo missiólogo que, em pleno séc. XIX, abriu de espanto o saber dos políticos, nacionais e estrangeiros, que rodeavam a Sociedade Portuguesa de Geografia, em Lisboa, e o Ateneu Comercial do Porto, onde proferiu uma magistral conferência. Deixara ali novas luzes para uma solução pacífica dos compromissos do Padroado português, fragilizado por contendas entre esta organização, de cariz nacional, e a propaganda fidei da responsabilidade da Santa Sé.

A decisão de Francisco de, em 16 de junho de 2017, ter elevado à condição de Venerável a figura do bispo missionário português, impeliu o Papa à guarda dos restos mortais de D. António Barroso, no interior da igreja paroquial de Santa Marinha de Remelhe. Dado que a situação jurídica dos cemitérios portugueses, por imperativos legais vindos do liberalismo, nos finais da monarquia, deixou ao poder civil a sua estruturação e controlo em todo o país, a trasladação que agora se opera para o interior do templo, permitirá que os restos mortais de D. António Barroso fiquem, em exclusivo, sob a alçada do poder eclesiástico. Sortirá assim, como efeito, um novo sentido pastoral para este espaço, permitindo uma mais intensa devoção ao venerável apóstolo da evangelização.

É norma geral da Santa Sé preservar, de outros fins, as relíquias que pertençam àqueles que estão já integrados nos processos de canonização, promovidos pela Congregação para a Causa dos Santos. Esperam os devotos do venerável D. António Barroso que esses futuros passos sejam dados no mais breve tempo possível.

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Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Dez
10
Ter
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Dez 10@17:30_18:30

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Dez
11
Qua
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Dez
14
Sáb
3º Concerto de Natal da Academia de Música de Santa Cecília @ Basílica do Palácio Nacional de Mafra
Dez 14@21:00_22:30

Entrada gratuita mediante o levantamento de bilhetes nos Postos de Turismo de Mafra e Ericeira

 

A Academia de Música de Santa Cecília, escola de ensino integrado de música, apresenta o seu terceiro concerto de Natal nos dias 14 e 15 de Dezembro, no Palácio Nacional de Mafra, classificado recentemente como Património Cultural Mundial da UNESCO.

Neste concerto participa um coro constituído por 250 crianças e jovens dos 10 aos 17 anos e uma orquestra de cordas de alunos da escola, a soprano Ana Paula Russo e ainda o conjunto, único no mundo, dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

No programa estão representados vários compositores nacionais e estrangeiros, destacando-se a obra “Seus braços dão Vida ao mundo”, sobre um poema de José Régio, da autoria da jovem Francisca Pizarro, aluna finalista do Curso Secundário de Composição da Academia de Música de Santa Cecília.

O concerto assume especial importância não apenas pela singularidade do conjunto dos seis órgãos do Palácio Nacional de Mafra mas também pela dimensão do número de jovens músicos envolvidos.

A relevância do concerto manifestou-se em edições anteriores (2016 e 2017), pela sua transmissão integral na RTP2, tendo o concerto de Natal de 2017 sido difundido em directo para a União Europeia de Rádio. O concerto tem o patrocínio da Câmara Municipal de Mafra.

Programa do concerto

Arr. Carlos Garcia (1983)
Ó Pastores, Pastorinhos (tradicional de Alferrarede)

Francisca Pizzaro (2001)
Seus braços dão Vida ao mundo (sobre um poema de José Régio), obra em estreia absoluta, encomendada para a ocasião; Francisca Pizarro é aluna do curso secundário de Composição da AMSC

Arr. Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
O Menino nas Palhas (tradicional da Beira Baixa)

Eurico Carrapatoso (1962)
Dece do Ceo (sobre um poema de Luís de Camões)

Arr. Carlos Garcia
Gloria in excelsis Deo (tradicional francesa) *

Franz Xaver Gruber (1787-1863) Arr. Carlos Garcia
Stille Nacht

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Alleluia, do moteto Exsultate, jubilate

Tradicional francesa
Quand Dieu naquit à Noël

Louis-Claude Daquin (1694-1772)
Noël X

Arr. Malcolm Sargent (1895-1967)
Zither Carol (tradicional da República Checa)

Tradicional do País de Gales
Deck the Halls

John Henry Hopkins Jr. (1820-1891); Arr. Martin Neary (1940)
We three Kings

Arr. Mack Wilberg (1955)
Ding! Dong! Merrily on High (tradicional francesa)

Arr. David Willcocks (1919-2015)
Adeste Fideles (tradicional), com a participação do público.

CANTORES E MÚSICOS
Ana Paula Russo, soprano

Ensemble Vocal da AMSC
Coro do 2º Ciclo da AMSC
Coros do 3º Ciclo e Secundário da AMSC

Orquestra de Cordas da AMSC
Pedro Martins, percussão

Rui Paiva, órgão da Epístola
Flávia Almeida Castro, órgão do Evangelho
Carlos Garcia, órgão de S. Pedro d’Alcântara
João Valério (aluno da AMSC), órgão do Sacramento Liliana Silva, órgão da Conceição
Afonso Dias (ex-aluno da AMSC), órgão de Sta. Bárbara

Carlos Silva, direcção da orquestra

António Gonçalves, direcção

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