Retiro na Casa Daniel Faria: o silêncio do mistério inefável

| 9 Jul 2024

Casa Daniel Faria. Retiro

“… da chegada a casa do caçador’, ao jeito da mesa pronta para o peregrino, …” Foto © Vera Constantino

Decorreu no passado fim-de-semana, 6 e 7 de julho, “Um retiro em julho, soa-vos bem?” que o 7MARGENS noticiou, o que fez engrossar as fileiras dos participantes na iniciativa, gente sedenta do Silêncio e do Belo que toque vidas, as reerga pelo lado bom. E foi, sim, uma espantosa novidade: na Casa Daniel Faria, houve um acolhimento pensado ao pormenor pela singeleza e o bom gosto no chamamento – ‘da chegada a casa do caçador’, ao jeito da mesa pronta para o peregrino, às palavras macias e serenas, à qualidade artística nos espaços, surpresa de uma equipa dinamizadora envolvida em todas as atividades em pé de igualdade (sem “segregação” das domésticas) que soava à relevância do evento para todos e vivido com todos…

Por iniciativa do Centro de Espiritualidade Redentorista (CER), o retiro realizou-se ali, por a casa estar inserida numa paisagem natural paradisíaca, nos arredores de Tabuaço, capaz de proporcionar um chão genuinamente bíblico de interpelação, sussurros singulares e profundo abraço à beleza da Criação.

Orientado pelo missionário redentorista Rui Santiago, este retiro foi uma revelação de como na Igreja Católica germinam oásis de grande qualidade espiritual e pastoral. Aliando um forte incentivo à formação cultural em interativa mesa-redonda, que acolhia as observações e as questões de quem participou, à meditação (no caso focadas na poesia de Daniel Faria e na escuta intensiva do fabuloso meio ambiente), onde imperou a liberdade e responsabilidade de cada um na total gestão do seu percurso. O espírito sinodal firmava-se em cada passo…

Sala de encontros da Casa Daniel: “O brotar da temática poética de especial caráter religioso, alinhada com a inquietante luta vocacional de Daniel Faria.” Foto © Vera Constantino

Através de incisivas notificações, Rui Santiago contextualizou o brotar da temática poética de especial caráter religioso em Daniel Faria, alinhada com a sua inquietante luta vocacional no contexto sócio-eclesial da altura: assim, sobressai a relação entre os seus poemas e as instigações mais profundas das histórias bíblicas e, sobretudo, do evangelho de João, por forma a alcançar os peregrinos e cidadãos da sua contemporaneidade. No fundo, Daniel reconta o essencial dos desafios colocados à vida humana presente na história do povo de Deus à luz da poética requerida pelas pessoas e mentalidades deste tempo. Proporcionou pistas exploratórias interessantíssimas que cada um seguiu a seu jeito.

Celebração na capela “na mais bela, confessa e ousada simplicidade”. Foto © Vera Constantino

A celebração, numa capela milenar, decorreu na mais bela, confessa e ousada simplicidade; centrou a liturgia no Silêncio do mistério inefável, recheado da participação de muitos na súplica, no louvor, na palavra-chave, no compromisso de fraternidade e de mudança, na graça e no sublime guardados como exultação no coração de cada um. E, de lá, continuam a enviar-nos lembretes para que o coração não adormeça cedo: olhamos de novo?

“recolhe das pedras os seres
vivos, a carne ainda quente pelo sangue
magmático. (…)
as flores dizem mais de Deus às
abelhas do que os teólogos nas
suas lições (…)”
(Daniel Faria)

Só é possível rabiscar umas notas, nunca dizer nem partilhar a dádiva daqueles momentos; apenas deleita viver nem que seja uma só vez na vida. Enquanto este espírito criativo e culto de sopro sinodal, para os nossos tempos não tomar lugar nem for premente na convocação e no proporcionar “grandir” espiritual um pouco por todo o lado…

 

Vera Constantino é professora do ensino básico e secundário em Almada

 

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