Retrospectiva

| 9 Mai 20

Annapolis, 16 de Fevereiro de 2020: “Uma bela cidade piscatória, a capital do estado de Maryland, onde residimos.” Foto © Ana Luísa Pimentel

 

Muitas vezes na minha fé sou encorajada a olhar para trás no tempo para perceber o que me trouxe aqui, e hoje no meio de tantas incertezas faço novamente esse exercício de olhar para a minha história e entender o porquê de estar aqui, neste preciso momento.

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

Em Janeiro de 2020 aterramos em Washington DC, Estados Unidos, para ficarmos por uns anos. Não foi uma decisão de ânimo leve, mas foi uma decisão tomada em plena liberdade e com plena consciência das perdas que isso representava – a perda da proximidade da família e amigos, a perda da segurança e previsibilidade do estilo de vida escandinavo, nova interrupção da minha vida profissional, além dos abalos no dia-a-dia escolar dos miúdos. Mas viemos tão simplesmente em busca da alegria, em busca de um sentido renovado, amantes da mudança como somos.

Para exprimir o meu optimismo, recordo uma conversa com a minha filha mais velha, de 13 anos, a quem dizia: “tenho um bom ‘feeling’ em relação a 2020, acho que este ano nos vai trazer experiências muito boas!” Olhando em retrospectiva, e sabendo o que sabemos hoje da pandemia COVID-19, parece uma afirmação ridícula. Mas já nessa altura, a minha filha surpreendentemente consciente do mundo que a rodeia, se escandalizou: “Mãe, como é que podes dizer uma coisa dessas perante os incêndios (naquela altura ainda activos) na Austrália, o rescaldo do maior incêndio de sempre na Amazónia, e o Trump ter estado tão perto de provocar o início da 3ª guerra mundial contra o Irão?!”

Orgulho-me da sua consciência global e ambiental, algo que me era tão distante nos meus 13 anos de idade! No entanto, e sem querer desresponsabilizar-me pela ordem mundial das coisas, senti-me impelida a reafirmar o meu optimismo e resgatar a alegria dos pequenos gestos que estão ao nosso alcance. Disse-lhe que também estava preocupada, e irreflectidamente prometi-lhe que o resto do ano seria melhor…

Em Fevereiro de 2020, depois de encontrarmos alguma ordem cá em casa, depois de desempacotar dezenas de caixotes, sentimos uma nova energia e vontade de conviver, conhecer as tradições locais, celebrámos o Super Bowl, assistimos entusiasmados ao nosso primeiro jogo de basketball, emocionámo-nos na Estátua da Liberdade mediante a história dos primeiros imigrantes americanos, deslumbrámo-nos com a beleza do Mount Vernon junto ao rio Potomac, local histórico onde viveu o primeiro presidente americano George Washington. E isto era apenas o começo…

Annapolis, 16 de Fevereiro de 2020. Foto © Ana Luísa Pimentel

 

Nessa altura propus-me encontrar uma orquestra amadora onde continuar a minha actividade musical, e fui calorosamente acolhida por uma orquestra local,formada pelos funcionários do Instituto Nacional de Saúde (NIH). Por volta da mesma altura, dediquei-me a explorar igrejas e comunidades religiosas nas redondezas de DC e Maryland, e cheguei a participar numa celebração de um pequeno grupo de pessoas que reúne a cada domingo sob a liderança alegre de Roxanne S., no pitoresco bairro de Brookmont, Bethesda, para celebrar a palavra, meditar e participar na vida espiritual daquela comunidade.

No início de Março de 2020 inacreditavelmente o mundo parou, para nos protegermos uns aos outros de uma pandemia. Sobre a forma como temos vivido este período incerto já muito se escreveu. Olhando para trás em retrospectiva entendo que a busca de uma vida melhor, com mais sentido, foi aquilo que aqui me trouxe, por mais que haja momentos em que este parece ser o sítio errado para estar, na hora errada. É a esperança afinal aquela que nos traz sempre a novos lugares, é a esperança afinal que continuará a guiar-nos.

 

Ana Luísa Pimentel vive em Washington DC, Estados Unidos da América, é psicóloga, natural de Lisboa e viveu 10 anos na Dinamarca na sua primeira experiência de expatriada. É mãe de três filhos e casada com o Luís. Considera “casa” o lugar onde se sente bem acolhida.

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