Rever os critérios da vida para salvar a vida na Terra (artigo inédito do Papa Francisco)

| 17 Out 19 | Casa Comum, Cristianismo, Destaques, Direitos Humanos, Espiritualidades, Newsletter, Últimas

Este artigo inédito do Papa Francisco, parcialmente publicado no Corriere della Sera, está incluído no livro Nostra Madre Terra. Una lettura cristiana della sfida dell’ambiente. A obra reúne os discursos do Papa sobre o cuidado da criação e será publicado pela Libreria Editrice Vaticana, em 24 de outubro, na Itália e na França, com prefácio assinado pelo patriarca ortodoxo Bartolomeu, de Constantinopla. O texto foi inicialmente publicado no Vatican News e a tradução foi adaptada pelo 7MARGENS ao português de Portugal. Os subtítulos são também da nossa responsabilidade (Foto da capa: O Papa em Skopje. Governo da República da Macedónia do Norte/Wikimedia Commons)

 

Precisamente porque tudo está interligado (cfr Laudato si’ 42; 56) no bem, no amor, precisamente por isto cada falta de amor repercute-se em tudo. A crise ecológica que estamos enfrentando é, acima de tudo, um dos efeitos desse olhar doente sobre nós, sobre os outros, sobre o mundo, sobre o tempo que passa; um olhar doente que não nos faz perceber tudo como um dom oferecido para nos descobrirmos amados.

É esse amor autêntico, que às vezes nos chega de uma maneira inimaginável e inesperada, que nos pede para rever os nossos estilos de vida, os nossos critérios de julgamento, os valores nos quais baseamos as nossas escolhas. De facto, já é sabido que poluição, mudanças climáticas, desertificação, migrações ambientais, consumo insustentável dos recursos do planeta, acidificação dos oceanos, redução da biodiversidade, são aspectos inseparáveis ​​da desigualdade social: da crescente concentração do poder e da riqueza nas mãos de poucos e da assim chamada sociedade do bem-estar, dos loucos gastos militares, da cultura do descarte, do desperdício e de uma falta de consideração do mundo do ponto de vista das periferias, da falta de proteção das crianças e dos menores, dos idosos vulneráveis ​​e nascituros.

Um dos grandes riscos de nosso tempo, então, diante da séria ameaça à vida no planeta causada pela crise ecológica, é o de esse fenómeno não ser lido como o aspecto de uma crise global, mas de nos limitarmos a procurar – embora sendo necessárias e indispensáveis – soluções puramente ambientais.

Ora, uma crise global requer uma visão e uma abordagem global, que passam antes de tudo por um renascimento espiritual no sentido mais nobre do termo.

Paradoxalmente, as mudanças climáticas poderiam tornar-se uma oportunidade para nos fazermos perguntas de fundo sobre o mistério de sermos criaturas e sobre aquilo pelo qual vale a pena viver. Isso levaria a uma profunda revisão dos nossos modelos culturais e económicos, para um crescimento na justiça e na partilha, na redescoberta do valor de cada pessoa, no empenho para que quem hoje está à margem possa ser incluído e aquele que vier amanhã ainda possa desfrutar do beleza do nosso mundo, que é e continuará a ser um dom oferecido à nossa liberdade e à nossa responsabilidade.

A cultura dominante – aquela que respiramos por meio das leituras, encontros, entretenimento, nos media etc. – baseia-se na posse: das coisas, do sucesso, da visibilidade, do poder.

Quem tem muito vale muito, é admirado, considerado e exerce alguma forma de poder; enquanto aqueles que têm pouco ou nada, correm o risco de perder até mesmo o próprio rosto, porque desaparece, torna-se um daqueles invisíveis que povoam as nossas cidades, uma daquelas pessoas das quais não nos damos conta ou com quem procuramos não entrar em contacto. Certamente, cada um de nós é, antes de tudo, vítima dessa mentalidade, porque somos de muitas maneiras bombardeados por ela.

Desde pequenos, crescemos num mundo onde uma ideologia mercantil generalizada, que é a verdadeira ideologia e prática da globalização, estimula em nós um individualismo que se torna narcisismo, ganância, ambições elementares, negação do outro… Portanto, nesta nossa situação atual, um comportamento justo e sábio, anterior à acusação ou ao julgamento, é acima de tudo o da tomada de consciência.

 

Estruturas de pecado que produzem o mal

Estamos envolvidos, de facto, em estruturas de pecado (como São João Paulo II lhe chamou) que produzem o mal, poluem o meio ambiente, ferem e humilham os pobres, favorecem a lógica da posse e do poder, explorando os recursos naturais de maneira exagerada, obrigando populações inteiras a abandonar as suas terras, alimentam o ódio, a violência e a guerra. Trata-se de uma tendência cultural e espiritual que distorce o nosso sentido espiritual que, ao contrário – em virtude de termos sido criados à imagem e semelhança de Deus – naturalmente nos direciona para o bem, o amor e o serviço aos outros.

Por essas razões, o ponto de viragem não poderá vir simplesmente do nosso esforço ou de uma revolução tecnológica: sem negligenciar tudo isso, precisamos de nos redescobrir como pessoas, isto é, homens e mulheres que reconhecem serem incapazes de saber quem são sem os outros e que se sentem chamados a considerar o mundo à sua volta não como um objetivo em si, mas como um sacramento da comunhão. Dessa maneira, os problemas de hoje podem tornar-se autênticas oportunidades  para que possamos descobrir-nos verdadeiramente como uma única família, a família humana.

Enquanto tomamos consciência de que estamos perdendo o objetivo, que estamos a dar prioridade ao que não é essencial ou até mesmo ao que não é bom e faz mal, pode nascer em nós o arrependimento e o pedido de perdão. Eu sinceramente sonho com um crescimento da consciência e de um sincero arrependimento de todos nós, homens e mulheres do século XXI, crentes e não-crentes, das nossas sociedades, por nos deixarmos levar por lógicas que dividem, provocam fome, isolam e condenam. Seria belo se nos tornássemos capazes de pedir perdão aos pobres, aos excluídos; então tornar-nos-íamos capazes de nos arrepender sinceramente também do mal feito à terra, ao mar, ao ar, aos animais…

 

Tecnologia não é suficiente

Pedir perdão e perdoar são ações possíveis apenas no Espírito Santo, porque é Ele o artífice da comunhão que abre os fechamentos dos indivíduos; e é necessário muito amor para deixar de lado o próprio orgulho, para perceber que se cometeu um erro e para ter esperança de que novos caminhos sejam realmente possíveis.

O arrependimento, portanto,  para todos nós, para a nossa época, é uma graça a ser implorada humildemente ao Senhor Jesus Cristo, para que essa nossa geração possa ser recordada na história não por seus erros, mas pela humildade e a sabedoria de ter sabido reverter a rota.

O que estou dizendo talvez possa parecer idealista e pouco concreto, enquanto aparecem mais caminhos viáveis que visam desenvolver inovações tecnológicas, redução no uso de embalagens, desenvolvimento de energia a partir de fontes renováveis ​​etc. Tudo isso é, sem dúvida, não apenas um dever, mas necessário. No entanto, não é suficiente.

A ecologia é ecologia do homem e de toda a criação, não apenas de uma parte. Assim como para uma doença grave o remédio por si só não é suficiente, mas é necessário olhar para o doente e entender as causas que levaram ao aparecimento do mal, assim analogamente a crise do nosso tempo deve ser enfrentada nas suas raízes. O caminho proposto consiste, então, em repensar o nosso futuro a partir das relações: os homens e as mulheres do nosso tempo têm tanta sede de autenticidade, de rever sinceramente os critérios da vida, de apostar naquilo que vale a pena, reestruturando a existência e a cultura.

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Agenda

Dez
14
Sáb
3º Concerto de Natal da Academia de Música de Santa Cecília @ Basílica do Palácio Nacional de Mafra
Dez 14@21:00_22:30

Entrada gratuita mediante o levantamento de bilhetes nos Postos de Turismo de Mafra e Ericeira

 

A Academia de Música de Santa Cecília, escola de ensino integrado de música, apresenta o seu terceiro concerto de Natal nos dias 14 e 15 de Dezembro, no Palácio Nacional de Mafra, classificado recentemente como Património Cultural Mundial da UNESCO.

Neste concerto participa um coro constituído por 250 crianças e jovens dos 10 aos 17 anos e uma orquestra de cordas de alunos da escola, a soprano Ana Paula Russo e ainda o conjunto, único no mundo, dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

No programa estão representados vários compositores nacionais e estrangeiros, destacando-se a obra “Seus braços dão Vida ao mundo”, sobre um poema de José Régio, da autoria da jovem Francisca Pizarro, aluna finalista do Curso Secundário de Composição da Academia de Música de Santa Cecília.

O concerto assume especial importância não apenas pela singularidade do conjunto dos seis órgãos do Palácio Nacional de Mafra mas também pela dimensão do número de jovens músicos envolvidos.

A relevância do concerto manifestou-se em edições anteriores (2016 e 2017), pela sua transmissão integral na RTP2, tendo o concerto de Natal de 2017 sido difundido em directo para a União Europeia de Rádio. O concerto tem o patrocínio da Câmara Municipal de Mafra.

Programa do concerto

Arr. Carlos Garcia (1983)
Ó Pastores, Pastorinhos (tradicional de Alferrarede)

Francisca Pizzaro (2001)
Seus braços dão Vida ao mundo (sobre um poema de José Régio), obra em estreia absoluta, encomendada para a ocasião; Francisca Pizarro é aluna do curso secundário de Composição da AMSC

Arr. Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
O Menino nas Palhas (tradicional da Beira Baixa)

Eurico Carrapatoso (1962)
Dece do Ceo (sobre um poema de Luís de Camões)

Arr. Carlos Garcia
Gloria in excelsis Deo (tradicional francesa) *

Franz Xaver Gruber (1787-1863) Arr. Carlos Garcia
Stille Nacht

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Alleluia, do moteto Exsultate, jubilate

Tradicional francesa
Quand Dieu naquit à Noël

Louis-Claude Daquin (1694-1772)
Noël X

Arr. Malcolm Sargent (1895-1967)
Zither Carol (tradicional da República Checa)

Tradicional do País de Gales
Deck the Halls

John Henry Hopkins Jr. (1820-1891); Arr. Martin Neary (1940)
We three Kings

Arr. Mack Wilberg (1955)
Ding! Dong! Merrily on High (tradicional francesa)

Arr. David Willcocks (1919-2015)
Adeste Fideles (tradicional), com a participação do público.

CANTORES E MÚSICOS
Ana Paula Russo, soprano

Ensemble Vocal da AMSC
Coro do 2º Ciclo da AMSC
Coros do 3º Ciclo e Secundário da AMSC

Orquestra de Cordas da AMSC
Pedro Martins, percussão

Rui Paiva, órgão da Epístola
Flávia Almeida Castro, órgão do Evangelho
Carlos Garcia, órgão de S. Pedro d’Alcântara
João Valério (aluno da AMSC), órgão do Sacramento Liliana Silva, órgão da Conceição
Afonso Dias (ex-aluno da AMSC), órgão de Sta. Bárbara

Carlos Silva, direcção da orquestra

António Gonçalves, direcção

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