Ribeiro Santos assassinado há 50 anos: Adamo ou Bob Dylan?

| 14 Out 2022

Foto: Ribeiro Santos fotografado numa reunião associativa. © Site dedicado a Ribeiro Santos

 

Comigo, tudo começou assim. Adolescente, eu adorava o Adamo. Mas a minha prima mais velha, a Zé, escrevia-me – vivendo largo tempo juntas, no Porto, tínhamo-nos separado; ela estava em Belas-Artes, arquitectura; eu frequentava o quarto ano do liceu, na província. “Como podes ser tão romântica?”, dizia ela. “Assassinato de John Kennedy, luta dos estudantes americanos – e não só! – contra a guerra no Vietname… repara nas canções do Bob Dylan, falam sobre isso, a revolução, a resistência de milhares de jovens que não querem ser mobilizados…”

No fundo, eu achava que ela tinha razão, mas ainda era cedo. Houvera alterações abruptas na minha adolescência e vivia num mundo diferente, mesquinho e não podia sair dele. Depois, no último ano do liceu tive uma crise religiosa; tudo me parecia opaco, sem vida e num café junto à ponte de D. Luís, no Porto, alguém me disse: “Se já não tens fé, sai da Igreja…” Não era bem isso que eu queria ouvir, mas se calhar… ninguém me deu uma mão ou eu própria vivia num mundo emaranhado de ideologias: lera Por Que Não Sou Cristão?, de Bertrand Russell; um livro de Erich From, do qual já nem sei o título; o Manifesto do Partido Comunista e outros. Mas eu hesitava; havia, nesse tempo, uma grande turbulência na minha família. Iniciei no Porto o curso de Românicas e detestava o ambiente: escuro, só raparigas, o bar da faculdade servia de lugar de engates das meninas de Letras com os “engenheiros”. Nada daquilo me interessava, achava mesquinho.

Comecei a ir às reuniões dos estudantes politizados. Embora o Zé Pacheco Pereira tivesse acabado ou estivesse para acabar o curso de Filosofia, apareceu uma vez numa sessão cultural organizada pela sua organização política da esquerda radical – enfim, essas organizações eram quase todas de “esquerda radical”, vulgarmente chamadas “maoístas” ou então, pelos estudantes “conscientes”, de “marxistas-leninistas” (só o radicalíssimo MRPP acrescentava a essa designação o termo “maoísta”), mas isso não queria dizer que os outros não fossem “maoístas”… uma grande confusão!

E realmente, pelo tom claro, calmo, racional daquele rapaz bastante mais velho do que eu, não havia dúvidas que se diferenciava das outras reuniões em que os estudantes se exaltavam uns contra os outros, havia gritos, digladiando-se mutuamente… isto, nas reuniões para fundar uma Associação de Estudantes da Faculdade de Letras do Porto, que o director não a desejava nem por sombras. E nessas reuniões – feitas no vão das escadas porque o director não permitia outra maneira decente de reunir os “futuros” colaboradores da Associação de Estudantes – não se falava da alta política; era meramente associativismo. Pelo menos, para mim… ingénua e sentimental.

Mas eu reencontrara, no Porto, a minha prima e mestra política que continuava a dar-me lições marxistas-leninistas. E eu continuava a retardar a minha decisão.

Então soube – houve um meeting de estudantes no pátio da Faculdade de Ciências (na Praça dos Leões) devido ao assassinato de um aluno do ISEF, vulgo Economia, em Lisboa, por um pide que presente no anfiteatro e encurralado pelos estudantes, puxou da arma e atingiu um responsável e colaborador associativo, membro político do MRPP, José António Leitão Ribeiro Santos. E outro, José Lamego, fora só ferido porque o pide não tinha mais balas.

O meu coração subiu-me no peito. Os meus olhos choraram o herói. Senti na pele a falta de liberdade de associação, a repressão mantida ao morno na minha faculdade que cheirava a comida – por causa da cantina; a cavalos – por causa das cavalariças da GNR que ficavam muito perto; e cheirava também a pides: todos os empregados eram da PIDE (excepto um), chefiados pelo Pinto, o pide-mor que nos perseguiam quando distribuíamos comunicados aos estudantes. O retrato do meu herói aparecia nas paredes, feito em serigrafia manual e eu tenho-o ainda no meu coração e comovo-me quando falo nele. Nunca o conheci, mas ele foi “a gota de sangue” – como lhe chamou João Isidro num documentário realizado por Diana Andringa para a RTP  –  que me fez, finalmente, escolher um caminho: mudar o mundo… achava eu, na altura, no tempo das utopias, sempre más conselheiras.

 

(Mais informação sobre Ribeiro Santos pode ser encontrada na página a ele dedicada)

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário.

 

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