
Ricardo Araújo Pereira num momento da entrevista à Ecclesia.
O escritor e humorista Ricardo Araújo Pereira diz que o seu trabalho resulta de “uma consciência aguda da morte”, ligando o riso ao luto, realçando que, como ateu, acredita não haver nada antes do nascimento ou depois da morte.
Em entrevista à agência Ecclesia, o humorista afirma: “O trajecto, entre o nascimento e a morte, faz-se de forma diferente se tivermos a capacidade de rir. É precisamente pela consciência do que acontece, de que isto tem um fim, que o riso é uma espécie de solução – muito precária e frágil, fugaz, mas uma anestesia muito breve, de supressão da emoção.”
Ricardo Araújo Pereira nota que o riso é uma forma de lidar com o luto e que, a gargalhada, que resulta do fazer rir, nasce do ventre, “local onde nascem também os bebés”. E a ligação entre a capacidade de rir e o ventre materno, a vida, é “interessante”, afirma.
A ideia de morte, recorda, marcou a sua vida desde o nascimento, fruto do relacionamento próximo com a sua avó, Adélia Maria da Cunha, que enviuvou cedo, 20 anos antes do nascimento do neto Ricardo.
“Essa pessoa que eu depois conheci era viúva há 20 anos, vestia de preto e tinha o sobrolho carregado. A lembrança da morte e que o meu avô tinha morrido, estava sempre presente (…) Num certo sentido, uma parte da sua vida tinha acabado, e, portanto, essa sombra pairou desde o início. Foi bastante formativo”, recorda.
A avó, descreve, enquadrava-se no “catolicismo popular”, sem “um pensamento teológico sofisticado, como os pais da Igreja”; reconhecia a ideia que “no fim da vida existe uma espécie de exame, quem passa é recompensado, quem não passa é castigado”. Foi com ela que Ricardo Araújo Pereira viveu uma relação que marcou profundamente a sua vida, em termos afectivos e o levou a trilhar o caminho do humor.
No seu entender, quando se morre “vai-se para o sítio de onde se esteve antes de ter nascer”, ou seja, “o nada, inócuo”.
“A boa notícia disto é que eu não tenho qualquer recordação de ser doloroso. É apenas nada. Percebo que isso seja uma desilusão. No fundo causa um mau perder. Para que é que isto serve, então? Se é para acabar nisso, para que isto tudo?”, observa.
Entre Platão, que fala de um “sono sem sonhos”, e Hamlet que, pela mão de William Shakespeare, reconhece a ideia de um sono, mas “com sonhos” que “poderão ser tão terríveis como a realidade”, Ricardo Araújo Pereira opta pela ausência de sonhos, mesmo sendo “uma ideia insatisfatória”.
“Não coloco a possibilidade de ser com sonhos. A minha perspetiva é que seja sem sonhos, igual ao sítio onde estávamos antes de termos nascido, uma não existência sem memória sem nada”, sublinha.
“Muitas vezes penso que, mais do que não acreditar em Deus, eu não gostaria que existisse apenas na medida em que me faz muita confusão que uma entidade, omnipotente, tenha poder sobre mim para a eternidade”, afirma.
As dúvidas existenciais foram-se impondo à medida que foi crescendo: “Todos vão fazendo essa pergunta e vão chegando, mais ou menos, às mesmas conclusões: não há tantas coisas que importam, mas as que importam, importam mesmo, e essas são as relações próximas, a capacidade de manter relações com os outros, de sermos próximos e vice-versa”, observa.
O escritor coloca a hipótese de os crentes se sentirem mais acompanhados, reconhece uma “solidão em quem não crê”, mas igual transtorno perante a morte de alguém.
“É possível que haja uma solidão nos não crentes, parece-me que existe, uma espécie de solidão existencial, em que os dois momentos fundamentais, o nascimento e a morte, apesar das pessoas que possam estar à volta, são uma ocorrência individual”, diz.
Sendo ateu, Ricardo diz que acredita nas pessoas, recordando o contacto que manteve com padres, religiosos (o seu último livro, Idiotas Úteis e Inúteis, é dedicado a uma religiosa e um padre que foram seus professores) e outros cristãos: “O que nos resta, pelo menos a mim, é acreditar nas pessoas. Eu assisti a muitos actos de bondade praticados por cristãos, por isso acredito neles. Mas a história regista também actos de maldade praticados por cristãos. Apesar disso, acredito nas pessoas, acho que é a única coisa que nos resta”, conclui.
Sobre a Bíblia, que já por diversas vezes afirmou que lê assiduamente, Ricardo afirma que ela “fornece uma interpretação não só de mim próprio, mas também do que me rodeia”.
A entrevista na íntegra pode ser vista aqui:









