Rituais pós-nascimento: “Ku xlomula mamani ni ku humisa mwana”

| 26 Set 20

Ben Lugamba. The Mother. Mãe

The Mother (A mãe). Obra de © Ben Lugamba (Congo), cedida pelo autor.

 

Nas culturas bantu do sul de Moçambique, especificamente na xironga e na xitswa, após o nascimento de um bebé, a mãe e a sua criança ficam, por algum tempo, interditados do convívio com a família alargada, por se considerar que os seus corpos não se encontram fortes o suficiente para conviver com agentes impuros, sejam do ambiente poluído de fora de casa, sejam os que com eles habitam, pelo facto de viverem entre o resguardo do lar e outras actividades que realizam fora de casa.

Quanto à mãe, têm sido realizados dois rituais: o que ela deve cumprir para reiniciar a sua actividade sexual com o seu esposo e o outro ligado à sua emancipação para o reinício do convívio familiar. O primeiro realiza-se cerca de 40 dias após o parto ou depois de o cordão umbilical da criança cair: a mulher deverá pegar numa fralda limpa do seu filho e estendê-la na cama, por cima dos lençóis. Será um indicativo para o marido ficar informado de que é chegada a hora. Realizam o acto por cima dessa fralda que depois é vestida à criança. Se a cópula acontecer antes disso, estarão a djambelar (prejudicar) a criança, o que a deixará assustada ou até mesmo arriscar a interrupção do seu aleitamento.

Para que a mulher retome a sua vida doméstica, fazendo algumas lides da casa, e o contacto com a comunidade ao seu redor, deve ser sujeita ao ku xlomula (liberar). Nesse ritual, queima-se e mói-se o pau de uma árvore específica para o efeito, sendo depois a sua cinza passada de forma circular pela sua cintura e pela da sua criança. E reza-se. Depois disso, a mulher neneca (põe a criança às costas). O ritual é realizado dentro de casa, por um conjunto mínimo e restrito de pessoas, as mais velhas da família, as escolhidas para o efeito.

De seguida, saem para o quintal, onde se encontra uma comunidade composta por parte da família e vizinhos que a recebem, junto com o seu bebé, com cânticos que invocam a proteção ao bebé e que louvam a Deus por esse nascimento. São sobretudo cânticos de alegria. Os dois, mãe e bebé, ficam no meio de um círculo. Após o que a mãe pode retomar a sua vida doméstica, mantendo ou não a criança dentro de casa – ainda sob resguardo, pois esta última só poderá de lá sair após um outro acontecimento, que deve ser realizado nesse mesmo dia ou numa outra altura combinada. Trata-se do ritual de receber a criança na comunidade, ku humisa mwana (tirar a criança do resguardo do lar).

Quanto ao pai, se se der o caso de ele manter uma relação extraconjugal, durante o período de proteção do filho e da esposa; ao regressar à casa, deverá pegar na criança ao colo e dizer-lhe: “Não te assustes, sou o teu pai.” Fazendo isso, fica desculpado, afastando também a impureza que tenha trazido para dentro de casa. Acredita-se que tal acontecimento fora de casa o faz regressar com o “sangue quente”, capaz de adoecer a criança.

No que a essa criança diz respeito, depois de nascer é baptizada (ku tsivela) em ambiente restrito (ver texto Os rituais de nascimento rongas e portugueses).

Segue-se o ritual de ela ser recebida pela comunidade (Ku humisa mwana), para com ela começar a conviver. Isso também se dá após a queda do seu umbigo ou cerca de 40 dias após o nascimento. Esta ocorrência é realizada por familiares dos pais da criança e por vizinhos. O ambiente é mais alargado do que no baptismo.

A criança sai com a sua mãe do quarto, envolta em capulanas ou na neneca, é colocada dentro de uma peneira disposta no meio de um círculo feito pelos seus familiares. Da peneira, é carregada por alguém que a mostra à família em volta e que a recebe em cânticos, enquanto simultaneamente se entregam prendas aos seus pais. Existe a ideia de que para começar a pegar na criança ao colo, deve-se-lhe oferecer uma prenda.

Uma das canções cantada nesse momento é:

Grupo 1: wa xiwona ximwanana, wa xiwona ximwanana, wa xiwona ximwanana xinga phwaliwa nyamuntla – 2x
Grupo 2: xikwini xinwanana?
Grupo1: hilexia, hilexia, hilexia.
Grupo 2: xikwini xinwanana?
Grupo1: hilexia xinga phwaliwa nyamuntla. Hi tlangela ximwanana, Hi tlangela ximwanana, Hi tlangela ximwanana xinga phwaliwa nyamuntla -2x
Grupo 2: xikwini xinwanana?
Grupo1: hilexia, hilexia, hilexia.
Grupo 2: xikwini xinwanana?

(Grupo 1: vejam o bebé que nasceu hoje; Grupo 2: onde é que está? Grupo 1: está ali, está ali. Grupo 1: alegremo-nos/festejemos pelo/a bebé que nasceu hoje).

A música é entoada em jeito de uma performance.

No âmbito da investigação que fiz sobre esses rituais, uma das mulheres que respondeu afirmou que a ideia de que a criança deve ficar resguardada, não é só da cultura e religião bantu. Ela contava que teve o seu primeiro filho, numa altura em que vivia em Nova Iorque, numa clínica de um médico judeu que, após o parto e no dia em que lhe concedeu alta, pediu-lhe encarecidamente que ao sair do hospital fosse directa a casa e de lá não saísse, antes de 40 dias após o parto. De acordo com ele, isso garantiria que a criança ficasse protegida de impurezas do ambiente e do convívio do dia a dia, uma vez que antes desse período a criança não se encontra suficientemente imunizada.

Em função das conversas surgidas nesse contexto da pesquisa, a referida mulher contou ainda que os judeus também realizam os seus rituais pós-parto, como por exemplo a circuncisão masculina, o brit milá.  Não sendo ela judia, o médico preferiu circuncisar a criança desta narradora dias antes da sua alta hospitalar.

Essa observação fez-me ler sobre outros preceitos relativamente às crianças judias, logo após ao seu nascimento: o brit milá é realizado oito dias após o nascimento do bebé. Verifiquei ainda que a ideia de se receber o bebé numa peneira, ritual acima referido, é similar ao que os judeus fazem a um filho primogénito, o haben pidyon, no qual algumas crianças, 30 dias depois do seu nascimento, são colocadas numa bandeja de prata, seguindo-se um momento no qual o pai oferece cinco moedas de prata a um elemento do grupo de sacerdotes.

Os bitongas, povo do sul de Moçambique, também fazem a circuncisão, mas esta é realizada quando a criança-rapaz completa quatro anos de idade e em conjunto com outros rapazes da sua idade. Quanto às raparigas realizam-se outros tipos de rituais, por exemplo, os de donzelar (já narrados no meu texto “Verdades” dos mitos: rituais de donzelar).

Este encontro com as mulheres sujeitas de pesquisa, que antecedeu a presente crónica, serviu para, mais uma vez, deixar a aprendizagem de que a natureza humana é a mesma, apenas os hábitos nos mantêm separados. Quero com isto afirmar que, independentemente do modo de agir, a ideia de que mãe e bebé devem ser resguardados de impurezas, antes de cerca de 40 dias depois do parto, existe em muitas culturas.

 

Sara Laisse integra o Graal-Moçambique e é docente de Cultura Moçambicana, na Universidade Politécnica; saralaisse@yahoo.com.br.

 

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