Rogai por nós

| 14 Mai 2024

Filme. Cinema. Baptismo

“O batismo enquanto arma legal, que sequestra, soa-nos hoje a desvario. Naquela época, foi sobretudo uma afirmação política de um Estado papal em decadência, agarrado à letra da lei em nome do seu poder e sobrevivência.” Imagem retirada do trailer do filme “O Rapto” de Marco Bellocchio

No domingo 28 de abril, na comunidade cristã que integro, celebrámos o batismo de uma criança. Na igreja, somos todos constituídos em igual dignidade pelo batismo e isso faz de todos nós corresponsáveis no acompanhamento e vivência cristã dessa criança.

Também eu fui batizada em criança, mas ainda muito pequena, mais precisamente com um mês de vida. À minha avó acometia-a a preocupação intensa com a ameaça de um limbo que me retivesse, no caso extremo de uma morte precoce, e por isso eu, a primeiríssima neta, tinha de ser protegida.

Há dias, num jantar de trabalho, inesperadamente surgiu à mesa conversa sobre o batismo de crianças, histórias de senhoras que queriam as suas crianças batizadas para as protegerem de bruxedos. Arrebitei a orelha, pois já andava com o tema em mente, sugestionada por O Rapto (2023), o filme de Marco Bellocchio que estreou em Portugal em abril deste ano. Nele é narrado o sequestro, aos 6 anos de idade, de Edgardo Mortara, uma criança judia batizada por uma empregada, à revelia da família. O episódio é um facto histórico e passou-se em 1858, época em que Bolonha, onde a família Mortara vivia, pertencia ainda aos Estados Pontifícios e estava, por isso, sujeita ao direito canónico. Era ilegal uma criança católica ser educada por uma família não católica.

Para um cristão, parece-me ser um ótimo trabalho de introspeção ver este filme. É possível que Marco Bellocchio o tenha realizado como um presente à nossa medida, obrigando-nos a encarar, no rosto de uma criança, o modo como conseguimos esvaziar de sentido até as pertenças mais santas.

Resumidamente, esta é a história de uma criança que por ser batizada em segredo é retirada à família e enviada para ser catequizada em Roma, na companhia de outras crianças judias a quem teria acontecido o mesmo. Acontece que o pequeno Edgardo foi mais permeável aos ensinamentos recebidos e vai acabar por tornar-se presbítero e, na idade adulta, defender o caminho que se lhe desenhou. Milagre?

O filme, menos resumidamente e com pano para mangas, fala-nos também de maternidades. Entre elas a mãe judia de Edgardo, que não abdica do filho e vai continuar anos a fio a insistir no seu regresso à matriz familiar. Mostra-nos perifericamente o silêncio de uma outra mãe judia, cujo filho doente acaba por morrer ainda internado no colégio que o reeduca. A cena do funeral dessa criança deixa a suspeita de que na abnegação dessa mãe se esconde um grito. A empregada que batizou Edgardo, afirmando querer salvá-lo do limbo, assume também contornos de uma maternidade mal reclamada. E ainda a igreja, que se identifica como mãe, e arrebanha para si um exército de alminhas-petizes.

Neste filme ricocheteia por muitos cantos uma ideia que me toma diversas vezes e que pode ser justaposta assim: como é que coisas tão boas e belas podem ser ditas e feitas tão feias?

A minha cena de eleição: o pequeno Edgardo (Enea Sala) vai escapulir-se do quarto para olhar mais uma vez um Jesus crucificado. E sem pompa nem circunstância, com toda a segurança da verdade, retira-lhe os pregos que o prendem à cruz. Aí dá para acreditar que foi realmente batizado. O pequeno Edgardo afirma, das profundezas dos seus seis anos, que a única resposta ajustada ao amor é a ousadia de existir em amor.

O batismo enquanto arma legal, que sequestra, soa-nos hoje a desvario (mas não a todos). Naquela época, foi sobretudo uma afirmação política de um Estado papal em decadência, agarrado à letra da lei em nome do seu poder e sobrevivência. O caso do rapto do jovem Mortara acabou por correr o mundo e contribuiu para a imagem despótica do Papa-rei e o isolamento político dos Estados Pontifícios, culminando com a sua queda em 1870.

A fotografia do filme é lindíssima, mas conta muito mais a densidade das emoções que tateia. Edgardo é retratado como um rapaz forte, procurando ser um ótimo pupilo, mas que garante à mãe, quando a força dos abraços é mais forte do que a das expectativas que lhe põem em cima, que todas as noites não se esquece que amará Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças. Aos seis anos já se é gente, tem-se memória e história, e a tarefa a que Edgardo se propõe exige-lhe que avance com tudo que foi e é.

“O batismo libertou-me, fui eu que o quis”, diz o Edgardo adulto, quando confrontado por um irmão que procura resgatá-lo da sua vida em Roma. “E que liberdade houve nessa aceitação?”, questiona o irmão, “Eras tão pequeno…”

A mãe do menino, perante as muitas petições pela libertação do filho, cataloga esses esforços como palavras vãs. Ecoa o Eclesiastes, “tudo é vaidade e correr atrás do vento.”

Imensas são as palavras, tão fortes, tão bonitas, tão vulneráveis ao desvirtuamento e ao sem sentido.  Com cinco letrinhas apenas se escreve a palavra “vento”. A palavra vai virar-se de pernas para o ar, tanto pode dizer o vento que esvazia, como o Espírito que paira e atravessa toda a realidade.

O velho Edgardo Mortara permaneceu católico e padre toda a vida. Faleceu aos 88 anos, em Liège.

 

Título: O Rapto
Realizador: Marco Bellocchio
Elenco: Enea Sala , Barbara Ronchi , Fausto Russo Alesi , Paolo Pierobon
Tipo: Drama Histórico
Ano: 2023
Países: França, Itália, Alemanha
134 min

 

Sara Leão é mediadora educativa e formadora de Português Língua Estrangeira.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Festival D’ONOR: a cultura com um pé em Portugal e outro em Espanha

Este fim de semana

Festival D’ONOR: a cultura com um pé em Portugal e outro em Espanha novidade

Está de regresso, já a partir desta sexta-feira, 19 de julho, o evento que celebra a cooperação transfronteiriça e a herança cultural de duas nações: Portugal e Espanha. Com um programa “intenso e eclético”, que inclui música, dança, gastronomia e outras atividades, o Festival D’ONOR chega à sexta edição e estende-se, pela primeira vez, às duas aldeias.

Bonecos de corda e outras manipulações

Bonecos de corda e outras manipulações novidade

“Se vivermos em função do loop que as redes sociais e outros devoradores de dados nos apresentam, do tipo de necessidades que vão alimentando e das opiniões e preconceitos que vão fabricando, vivemos uma fraca vida. Essa será, sem dúvida, uma vida de prazo expirado, por mais que o dispositivo seja de última geração e as atualizações estejam em dia.” – A reflexão de Sara Leão

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This