Abusos sexuais na Igreja

“Roma, temos um problema” – e este livro ajuda a entendê-lo

| 16 Jan 2022

Pormenor da capa do livro Roma, Temos um Problema, de João Francisco Gomes, sobre a problemática dos abusos sexuais de crianças na Igreja Católica

 

Podemos ter um vislumbre do conteúdo deste livro nesta afirmação: “Durante 20 séculos, a Igreja soube da existência de pedófilos e de abusadores sexuais entre o seu clero, embora nem sempre tenha lidado com eles da mesma maneira. Em alguns períodos da história, os abusadores foram perseguidos até à morte pela própria instituição; noutros, prevaleceu sobre a justiça a protecção da imagem pública da Igreja através da ocultação dos crimes. Porém, em todos os momentos do seu longo percurso, sem excepção, a hierarquia da Igreja conheceu o problema e a sua especial gravidade” (p. 21).

Roma, Temos um Problema pode ser apresentado em quatro partes, assumidas aliás pela organização que o autor lhe dá: um primeiro levantamento histórico, sobre como o problema foi sendo encarado e resolvido ao longo de alguns séculos, seguindo aliás de perto algumas investigações sobre o tema publicadas no estrangeiro; uma segunda parte sobre casos marcantes a nível internacional, incluindo alguns pouco conhecidos; uma terceira parte sobre os casos portugueses até agora vindos a público; e uma quarta parte onde se apresenta uma perspetiva de reforma, a partir da cimeira de 2019 no Vaticano. Em síntese, faz-se uma descrição e análise de causas e consequências sobre o que aconteceu em 20 séculos de história do cristianismo (sobretudo ocidental), no capítulo dos abusos sexuais, para mostrar que o problema esteve sempre presente, de diferentes formas, também como reflexo de uma “relação complexa com o sexo” que o cristianismo foi mantendo em grande parte dos vinte séculos da sua história, como também se recorda (p. 24-25)

Com um importante manancial de informação, resultado da sistematização feita pelo autor a partir de diferentes fontes, o material é organizado de modo a permitir a leitura cronológica, embora com várias retrospectivas ou alguns avanços no tempo, consoante a necessidade e o propósito do que vai sendo abordado pelo autor, o jornalista João Francisco Gomes (JFG).

E o que acontecia nos primeiros séculos? O percurso começa por recordar excertos das cartas de São Paulo e da Didaqué, texto do séc. I/II, que condensa alguma doutrina moral; nessa altura, os cristãos viam-se como um grupo que propunha e tinha de viver uma moral diferente daquela que era comum na sociedade; exemplo disso é a Didaqué, espécie de catecismo dos primeiros cristãos, que propunha um código de conduta sobre questões éticas e morais como a propriedade, a hospitalidade ou os deveres de senhores e de escravos.

A moral estrita a que os cristãos se queriam obrigar olhava para questões como o abuso como algo de grande gravidade. E essa ideia predomina durante vários séculos, como se vai explicando no livro, com alguns altos e baixos. Não falta, ao longo do tempo, doutrina emanada de concílios de cristãos realizados na Península Ibérica ou obras marcantes como a Regra de São Frutuoso e o Livro de Gomorra, que JFG nos explica e nos desvenda ao longo do texto; é uma viagem que vale a pena fazer através do livro. Em algumas ocasiões nesse trajecto, a questão é abordada lateralmente, seja por causa da moralidade do clero (ainda não sujeito à disciplina do celibato e a uma organização eclesiástica como a de hoje), da confissão ou da homossexualidade – ou, até, de questões tão prosaicas como as heranças.

 

Casos paralelos

Ilustração representando o padre José de Calasanz, fundador de escolas para crianças pobres: um primeiro caso paralelo aos contemporâneos.

 

Se durante séculos se percebe que o problema foi existindo sob diversas formas, no século XVII há já uma história que pode ser vista como paralela às de hoje, no sentido do encobrimento: a do fundador dos padres escolápios, congregação dedicada à educação de crianças pobres: José de Calasanz, o fundador, encobriu episódios de abuso, embora tenha tentado acabar com eles. O que se passou? A minha interpretação, menos cáustica que a do autor, é que Calasanz ou fazia o que a hierarquia lhe ditava ou ele próprio seria desterrado e os abusos e seu encobrimento continuariam a acontecer na mesma.

Outro momento paralelo ao actual regista-se no século XVIII, quando o Papa Bento XIV reconhece explicitamente a centralidade da protecção das vítimas. Na constituição apostólica Sacramentum pœnitentiæ, de 1 de Junho de 1741, Bento XIV abordou o “tema quente da solicitação” de abusos através do confessionário e o que documento “foi verdadeiramente redefinidor do pensamento da Igreja sobre os abusos sexuais – ao ponto de a sua influência ter perdurado até aos escândalos contemporâneos”. Foi um ponto de viragem por ter reconhecido “explicitamente a protecção das vítimas, tornadas especialmente vulneráveis pela confissão” (p. 99-100).

No século XIX essa configuração muda com um documento do Papa Pio IX. A intenção era boa: pretendia-se acabar com muitos abusos no âmbito da relação estabelecida no confessionário. A regra passou a ser o sigilo da denúncia (inicialmente, até com a ideia de proteger os acusadores). Mas, se as intenções eram boas, elas viriam encher ainda mais o inferno em que muitas vidas mergulhariam, nas décadas e dois séculos seguintes.

O livro muda, aqui, do registo histórico, para o da linguagem jornalística, iniciando uma viagem pela realidade e pelas principais tragédias, mais ou menos conhecidas, das últimas décadas: Estados Unidos da América (incluindo Boston e Pensilvânia), Austrália, Alemanha, Irlanda, Chile… Nos EUA, avulta o caso de Boston, surgido em 2002 pela investigação do Boston Globe e mediatizado pelo filme Spotlight, que acaba por ser uma etapa importante no tratamento da questão, sobretudo porque pela primeira vez fica claro também o encobrimento dos bispos – no caso, o cardeal Bernard Law. O filme transmitirá depois a ideia de que as denúncias começam com esse caso mas, de facto, elas já vinham de trás: no início da década de 1990, por exemplo, já houvera casos muito graves no Canadá e EUA, que deram origem às primeiras medidas de combate à tragédia – várias delas recordadas também no livro.

O papel de João Paulo II no problema é posto em causa no livro, e bem, confirmando que foi muito apressada a decisão de o canonizar. Claramente, o Papa Wojtyla teve conhecimento de elementos sobre dois casos terríveis – Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, e o cardeal McCarrick, que chegou a arcebispo de Washington DC (em relação a este último, o relatório do Vaticano confirma isso mesmo).

Tenho para mim que, no final dos anos 1990 e início do novo século, a débil saúde de João Paulo II fazia com que, de facto, o governo da Igreja estivesse na mão de duas personagens sobre as quais têm vindo a público dados que as colocam como tendo tido um papel muito funesto: o cardeal Angelo Sodano, então secretário de Estado do Vaticano, e o hoje também cardeal Stanisław Dziwisz, secretário de João Paulo II (por exemplo, o jornal Il Fatto Quotidiano publicou, pouco depois da eleição do Papa Francisco, um extenso trabalho que denunciava isso mesmo). Eram Sodano e Dziwisz quem filtrava a informação que chegava – ou não – ao Papa e não me admira que eles filtrassem o que não interessava. Quando João Paulo II chama ao Vaticano, em 2002, os cardeais norte-americanos, mesmo já muito débil, o seu discurso é muito duro, mas será muito difícil algum dia conhecer o que realmente ele sabia sobre o tema – e, nomeadamente, sobre Maciel e McCarrick. Além disso, o tipo de situações e o número de casos averiguados ainda não eram o que são hoje e a actuação foi respondendo ao que nessa altura se conhecia.

 

Mudar as mentalidades

O Papa Francisco procura primeiro uma conversão de mentalidades e só depois introduz as leis para suportar essa mudança, sugere o livro.

 

Finalmente, JFG propõe uma viagem pelos 19 casos que já apareceram em Portugal e que são inventariados (a propósito: numa eventual reedição, valeria a pena acrescentar uma cronologia e uma tabela numérica dos casos sobre os vários países referidos).

Aqui troco de lugar com o autor e sou mais céptico em relação às observações que são feitas no livro sobre Portugal: apesar do passo dado no sentido da criação da comissão independente de estudo sobre os abusos, falta ainda que os vários bispos que fizeram comentários desvalorizando a importância de um qualquer levantamento histórico venham a público admitir que mudaram de opinião. Claramente, terá sido a sucessão de vozes críticas que fizeram com que a Conferência Episcopal adoptasse esta importante decisão: primeiro, a pressão vinda do Vaticano, com a visita a Portugal do padre Hans Zollner, em Maio de 2021; depois, a de alguns bispos (cardeal António Marto e José Ornelas, entre outros) e da carta que 276 católicos escreveram a pedir essa mesma investigação.

O livro acaba com a memória do que foi a conferência de Fevereiro 2019 no Vaticano, sobre a protecção de crianças e pessoas vulneráveis. Na conferência, destacou-se o papel das vítimas e o importante discurso da jornalista mexicana Valentina Alazraki – e o livro sublinha esses dois elementos.

Algumas conclusões são possíveis a partir da leitura desta obra:

1) Esta realidade não mudará só com leis, é preciso mudar a mentalidade, como recorda o jornalista Austin Ivereigh, citado no livro: “Foi só depois de terem mudado as mentalidades que o Papa Francisco introduziu leis (…). Porque é que ele não introduziu estas leis antes? Porque sabe que podemos ter todas as leis, mas, se a mentalidade não mudar as leis não servem para nada. Em primeiro lugar, ele procura uma conversão de mentalidades; depois, introduz as leis para suportar essa mudança.” (p. 370) A Igreja já fez muito e “está hoje noutro nível de compreensão” sobre os abusos sexuais e é hoje uma “das instituições do mundo mais bem apetrechadas para lidar” com esses casos; mas, como ficou dito, as mentalidades não mudam só com leis ou a vontade do Papa (p. 380-381).

2) Conhecer a verdade, restaurar a confiança, dar a palavra aos crentes e promover uma profunda reforma da Igreja, são algumas das urgências para enfrentar este flagelo – escrevi isto em 2018, na sequência dos casos da Pensilvânia e do Chile, e mantenho-o aqui, pois a leitura da obra de JFG só reforça estas propostas. Nesta perspectiva, o Sínodo que a Igreja está a viver deveria ser uma ocasião propícia para que também a questão dos abusos fosse resolvida com o contributo dos crentes. Podemos acrescentar que é fundamental ainda acompanhar e cuidar das vítimas e tratar dos abusadores (eles próprios muitas vezes ex-vítimas)

 

Uma das mais graves crises do catolicismo
Encontro do Papa com os bispos chilenos em 2018 Foto Vatican News sem creditos

Encontro do Papa com os bispos chilenos em 2018. Foto © Vatican News.

 

3) Já evolui em relação à análise sobre a profundidade desta crise: em 2010, pensava que ela era a mais grave dos últimos 100 anos; em 2018, com o Chile e Pensilvânia, ficou claro que ela já era comparável à crise de abuso de poder, clericalismo, formas de nepotismo, centralidade da instituição em detrimento do evangelho e má gestão de bens que levou à Reforma do século XVI.

Neste momento, é evidente que ela é uma das mais graves crises que o cristianismo e a tradição católica enfrentaram nestes 20 séculos. E só uma investigação universal, em cada diocese ou país, feita por iniciativa da Igreja (ideia já defendida pelo padre norte-americano Thomas Reese), mas entregue a especialistas independentes, incluindo mulheres, pode ser um primeiro passo para saber o que se passou, curar as feridas e introduzir mecanismos de protecção e segurança para enfrentar o futuro de forma diferente.

4) A absoluta necessidade e urgência de reconfigurar a formação dos padres, nomeadamente no campo da afectividade e sexualidade, bem como no âmbito do seu ministério, que esteja mais de acordo com a dimensão de serviço própria do cristianismo e não com a dimensão de casta sacerdotal recuperada do judaísmo antigo.

Neste campo, o livro cita várias afirmações do Papa e de outros protagonistas contra o abuso de poder e de consciência como base do abuso sexual; não posso estar mais de acordo com elas; e vejo que, em muitos casos, o abuso de poder, o considerar-se “dono” do evangelho e da instituição subsiste – por causa da formação dos seminários, outra questão aflorada no livro a partir de afirmações de várias pessoas.

Na carta entregue aos bispos do Chile, em Maio 2018 (para mim, talvez o mais completo, mais duro e mais importante documento sobre o tema, a par da carta de Bento XVI aos católicos da Irlanda, e que na minha perspectiva poderia ter merecido um tratamento mais aprofundado), Francisco escreve: “Essa psicologia de elite ou elitista acaba por gerar dinâmicas de divisão, separação, ‘círculos fechados’ que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias nas quais, em vez de evangelizar, o importante é sentir-se especial, diferente dos demais, deixando assim em evidência que nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. Messianismo, elitismos, clericalismos, são todos sinónimos de perversão no ser eclesial.” Repitam-se algumas palavras: elitista, divisão, espiritualidades narcisistas e autoritárias, messianismo, perversão…

 

* * *

Capa do livro Roma, Temos um Problema de João Francisco Gomes, sobre a problemática dos abusos sexuais de crianças na Igreja Católica

Pequenos pormenores que podem ser revistos numa eventual segunda edição (como a alusão a Pedro como “bispo de Roma e primeiro Papa”, conceitos que na altura não existiam ou a Idade Média “esticada” até ao início do século XVI) não deslustram em nada a qualidade deste livro e a competência da escrita, o que merece ser sublinhado nos tempos que correm. Além do mais, a obra é servida por uma boa capa e um bom título, a remeter para a histórica viagem da Apolo XIII à Lua que, como sabemos, poderia ter acabado mal. Perante o problema surgido a bordo na nave espacial, foi o esforço conjunto de uma vastíssima equipa que ajudou a que as vidas dos três astronautas pudessem ser salvas. Aqui, também só o envolvimento de todos – vítimas, responsáveis, comunidade eclesial – pode ajudar a remediar o que se passou. E este livro é uma boa fonte de informação para nos dizer o que não pode voltar a acontecer. Por isso, o autor está de parabéns.

 

Roma, Temos Um Problema – Como a Igreja Católica lidou com dois mil anos de abusos sexuais, de João Francisco Gomes
Ed. Tinta-da-China, 2021
430 pág., 21,90 €

 

(Este texto é uma versão corrigida e alargada da intervenção de apresentação do livro, em Novembro, em Lisboa.)

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