Rosa Luxemburg: revolucionária, pacifista, um ser humano total

| 28 Set 2020

Rosa Luxemburg na transição do século XIX para o século XX

Quando a guerra acabar, vamos à Córsega.
Lá, a Bíblia e a Antiguidade permanecem vivas…
(Rosa Luxemburg, carta endereçada a Sonia Liebknecht,
Wroncle, Janeiro 1917)

 

 

 

 

 

 

O nome desta mulher foi desde a sua morte, em 1919, utilizado por diversos sectores da sociedade de diferentes modos: sanguinária, sectária, comunista, esquerdista, marxista-leninista, anarquista, ecologista, feminista… afinal, quem foi verdadeiramente Rosa Luxemburg?

 

Cidadã do mundo

 “… Sinto-me em casa no vasto mundo onde há nuvens, pássaros e lágrimas”
(carta endereçada a Mathilde Wurm, 1917)

Rosa Luxemburg nasceu em 1871, na Polónia, quando esta estava integrada no Império russo, de uma família judaica, desafogada, da pequena burguesia. Em Varsóvia, em 1881 (Rosa tem dez anos) há um pogrom, embora a família não seja afectada. Mas nunca se esquecerá, tornando-a mais consciente do antisemitismo.

Nessa altura, o Estado impunha uma limitação na frequência no liceu aos alunos de origem judaica, mas Rosa conseguiu aí estudar. Continua os estudos em Zurique, na Suíça, matriculando-se no curso de Ciências Naturais, tomando contacto com jovens militantes e simpatizantes do marxismo.

Conheceu então Leo Jochiges, de origem lituana, que será o seu companheiro e que a aconselhou a mudar para o curso de Economia. Obteve o doutoramento magna cum laude neste curso e assim Leo orientou-a para a militância revolucionária, visto que ele vivia permanentemente para esse ideal.

Leo e Rosa naturalizam-se alemães e deslocam-se para Berlim, a capital do Império alemão, onde desaguavam, no então Partido Social-Democrata, exilados políticos e revolucionários europeus. A Rosa desagrada-lhe o ambiente e a ideologia dos dirigentes do partido, embora a adesão do operariado fosse grande. No fim do século XIX e inícios de XX, o proletariado é uma classe muito pobre que tem um salário insuficiente para sustentar a família.  O horário de trabalho, independentemente da idade, oscila entre as 10 e as 12 horas, em condições miseráveis: às mulheres, é dado metade desse salário; as crianças – a prole – também trabalham e ganham um quarto do mesmo. Sobrevivem de um trabalho “que o diabo amassou”. Daí os jovens quererem “mudar o mundo”.

Embora se baseie nas teses de Karl Marx e seja teórica do marxismo com várias obras escritas, Rosa Luxemburg rejeita algumas das teses marxistas. Considera que ser revolucionário é uma questão moral.  Defende que o socialismo deverá estar ligado à democracia e a liberdade de pensar e agir diferentemente deve ser profundamente respeitada: “Uma democracia alargada e mais ilimitada… sem isso, é inconcebível a dominação das largas massas populares.” Opõe-se às teses de Lenine: é contra a insurreição armada. Propõe como alternativa elevar a consciência dos operários, não armá-los; é também contra o poder centralizado, hierárquico, isto é, “a ditadura do proletariado”.

 

Revolucionária idealista

“… Ora, eu sou e quero permanecer idealista…”
(carta endereçada a Leo Jochiges, sem referência de data)

Rosa Luxemburg vive em contradição: aspira a uma vida sólida, familiar, apreciando a natureza, a literatura e a poesia, a música e todas as formas da arte. Por isso tem frequentes divergências com o companheiro, que vive só para a militância; por outro lado, diverge de muitos sectores do partido acerca da própria noção da revolução.

Dizia ela, numa carta a Leo Jochiges, em 1898: “Ontem à noite… peguei nas cartas [dos  pais e de dois irmãos]. Li-as todas, chorei até os olhos ficarem inchados e fui para a cama desejando nunca mais acordar. Particularmente odiosa tornou-se-me toda a ‘política’. Por causa dela… não respondia às cartas [deles]… meu ódio voltou-se contra ti porque foste tu que me acorrentaste para sempre [à política]… [Leo escondera-lhe a notícia da morte da mãe porque havia algo importante que ela tinha de escrever e não deveria deslocar-se à Polónia, onde estavam os pais] … a política é um servir a Baal idiota, em que toda a existência humana, vítima do seu próprio dilaceramento, da sua atrofia espiritual se sacrifica…”

Muito mais tarde, na prisão em Wroncke, escrevia a Sonia Liebknecht (1917): “No fundo, sinto-me melhor… quando estou num jardim, mais no meu elemento, como aqui ou deitada sobre a erva… do que num congresso do partido… no meu íntimo, estou mais perto dos meus melharucos que dos camaradas. Digo-lhe a si, porque sei que não vai pensar que estou a atraiçoar o socialismo.”

Mas Rosa sente que moralmente já não pode abandonar a causa do proletariado e lutar por uma sociedade mais justa. É, pois, um objectivo não propriamente marxista, mas pessoal. No entanto, integrada no seio dos sociais-democratas desse tempo, torna-se rapidamente um quadro importante, pela sua energia e abnegação: desloca-se pela Europa, faz discursos inflamados, é jornalista e um dos dirigentes da Internacional Operária.  Torna-se notada – ainda por cima por ser mulher – e começam as suas “estadias” na prisão.

 

Pacifista

Lápide de Rosa Luxemburg, no cemitério central Friedrichsfelde, em Berlim. Foto: Direitos reservados.

 

“… a universalidade de interesses, a harmonia interior –
todos podem fazê-lo ou esforçar-se para isso”

(carta endereçada a Luise Kautsky, sem referência de data)

A ameaça de uma Guerra na Europa torna-a, intransigente contra a participação da Alemanha no conflito. Juntamente com outros militantes, entre os quais Karl Liebknecht, Clara Zetkin e Paul Levi sai do seu Partido Social-Democrata e forma a Liga Spartakista. Na Grande Guerra 1914-1918, Rosa de Luxemburg e outros militantes são acusados de “antipatriotas” visto não apoiarem a participação da Alemanha no conflito.

Rosa fica praticamente sempre presa, mudando de uma prisão para outra; em 1916 e 1917, em Wroncke, havia um pequeno jardim e ela podia sair por umas horas. Mas em Breslau, a partir dos fins de Julho de 1917, esteve sempre encarcerada (exceptuando as voltas no pátio da prisão). Embora a derrota da Alemanha se desse em fins de Setembro de 1918, Rosa saiu da prisão só em Novembro de 1918, na amnistia concedida pela Revolução alemã.

 

Um ser humano total

“É preciso, antes de mais nada: viver como um ser humano total.”
(carta a Mathilde Wurm, 1917)

Vive-se, em Berlim “uma grande efervescência revolucionária” que leva a Liga Spartakista a tomar opções radicais que desagradam a Rosa e a outros “hostis ao terrorismo e ao putschismo”. Karl Liebknich funda o Partido Comunista, embora Rosa preferisse que se chamasse Partido Socialista.

Enfim, assiste-se à desagregação das forças revolucionárias, não preparadas para o novo contexto político. A facção moderada do Partido Social-Democrata, a favor da presença alemã na Grande Guerra, proclama a República e forma um governo. Devido a grandes manifestações e revoltas populares, muitas pessoas foram chacinadas pelos freikorps, grupos de antigos militares que, sob o peso da derrota na Guerra, encontram o bode expiatório nos pacifistas – acusados de traidores, comunistas, revolucionários, judeus…

Estes grupos (incorporando posteriormente as forças SA nazis), além de muitos outros assassinatos, prepararam a morte de Rosa de Luxemburg e de Karl Liebknech, com muita antecedência. No dia 15 de janeiro de 1919, Rosa é procurada no seu domicílio clandestino; ambos são levados para serem interrogados, individualmente, mas nada obtêm dos prisioneiros.

Matam então Karl a pontapé, soco e com um tiro na cabeça; a Rosa, esmagam-lhe o crânio, atirando o corpo, metido num saco com pedras, para um canal do rio. O assassinato de Karl é justificado com uma alegada tentativa de evasão; o dela porque teria sido vítima de um linchamento da população.  O corpo foi encontrado só em Maio do mesmo ano; o julgamento dos assassinos foi praticamente formal.

 

Cartas na prisão

Rosa Luxemburg, em 1915, quatro anos antes de ser morta.

“…minha querida Sonjuscha, a vida é assim. É preciso vivê-la com coragem,
com um sorriso nos lábios, aconteça o que acontecer.”

(Breslau, 15 Dezembro 1917)

 

 

 

 

 

 

Rosa escreve muitas cartas aos seus amigos e é nessa escrita que se revela profundamente. Nas Cartas de Prisão a Sónia Liebnekcht, jovem mulher de Karl, consola-a – o marido também está preso – dá-lhe conselhos e envia “saudades aos pequenos”.

A amiga envia-lhe livros e comenta com ela obras de Thomas Mann, Pierre Loti, Oscar Wilde, Tolstoi; ou de poetas como Goethe, Schiller e Hölderlin; lê obras de Botânica e Zoologia e comunica à amiga que as aves canoras estão a desaparecer na Alemanha devido à cultura de grandes extensões que destrói sebes e arbustos onde as aves construíam os ninhos e se alimentavam: “Li isto com imensa tristeza”; tal como os índios americanos, “são pouco a pouco expulsos dos seus territórios… e estão condenados a uma morte silenciosa e cruel”.

Recorda com ela momentos passados em conjunto, com Karl Liebknech: o “concerto” de um rouxinol no Jardim Botânico; um serão na casa de Rosa: “… lemos algumas páginas em voz alta…recitei-lhes este poema espanhol de que tanto gosto: ‘Louvado seja quem criou o mundo/ No qual o esplendor desabrocha por toda a parte/ Criou o mar com seus abismos sem fundo/ criou os navios que o sulcam/ Criou o paraíso e a luz eterna,/ Criou a terra – e o teu rosto!…”.

“Fala” com uma borboleta que parece estar a morrer: “escuta, aquele passarito que canta a alegria, o contentamento. Isto deveria dar-te um pouco de vida!” Não pude deixar de rir ao ouvir-me repreender uma borboleta… são palavras inúteis… Mas não foram! Ao fim de uma meia hora… recuperou as forças, começou a mover-se e lentamente levantou voo…”

Despede-se com saudade da natureza que observou e amou, antes de ser transferida para Breslau, mas depois observa: “…é ou não verdade que a vida é bela e que vale a pena ser vivida… ri da minha atitude. Meu Deus! O céu, as nuvens e a beleza do mundo não ficarão em Wroncle, não tenho que me despedir dela! A beleza do mundo acompanhar-me-á sempre enquanto eu viver.”

Em Breslau, na prisão mais austera, vê somente as copas de algumas árvores: “um grande álamo negro que começa a vibrar, quando o vento começa a soprar… uma fila de freixos… neste enorme pátio empedrado onde faço os meus passeios, fixo obstinadamente as lajes para não ver os prisioneiros que trabalham no pátio, pois o seu aspecto desgraçado é um espectáculo muito penoso… há alguns que sob a influência da mais profunda degradação humana, parecem não ter idade, nem sexo, nem personalidade… mas também há entre as prisioneiras rostos que maravilhariam um olhar de um pintor.”

Face a uma certa desolação – “…sinto a falta de ar puro, do jardim e das aves…” – Rosa observa e encanta-se com as nuvens ou as gralhas: “… pelas quatro horas a noite aproxima-se… centenas de gralhas sobrevoam o pátio em voos dispersos…”

Descreve um estado de espírito semelhante a uma teofania: “Ontem fiquei muito tempo acordada… tenho que me deitar às dez horas… dizia para comigo: não é tão singular eu estar constantemente alegre – sem que tenha razões para tal. Eis-me aqui deitada numa cela escura… a prisão mergulhada num silêncio de morte… no fundo de um sepulcro… ouve-se, de vez em quando, o rolar surdo de um comboio e muito próximo… a tosse e o passo lento da sentinela, o ruído da areia, rangendo sobre os seus passos… evoca toda a desolação de uma vida sem saída. Eis-me estendida, abandonada na escuridão, e apesar de tudo, uma enorme alegria estranha, inconcebível, faz vibrar o meu coração, como se eu estivesse caminhando por um prado em flor, sob um sol luminoso. No meio das trevas sorrio à vida… Procuro uma razão, mas não a encontro e não me posso deixar de rir de mim própria. Creio que é a vida, o único segredo, pois a escuridão profunda, quando a sabemos contemplar, é bela e doce como veludo. É a vida que canta também nos passos da sentinela… gostaria tanto de lhe enviar [à Sonia] esta chave mágica…”

 

Este texto é baseado na obra Cartas de Prisão, Rosa Luxemburg, ed. Assírio & Alvim, 1975; e também no texto Rosa Luxemburg: Breve Perfil de uma Revolucionária, Isabel Maria Loureiro, prof. do Departamento de Filosofia, Universidade de S. Paulo, Brasil; e Wikipedia francesa (entrada Rosa Luxemburg)

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