Na próxima quinta-feira, 4 de dezembro, será apresentado publicamente o Roteiro Protestante Português, livro da autoria de João Paulo Henriques, formado em Informação Turística e Comunicação. A obra pretende ser um guia histórico-cultural e turístico do protestantismo em Portugal e no mundo e resulta da pesquisa e trabalhos académicos do autor.
O volume ilustrado tem 440 páginas aborda temas como a “Identidade Protestante”, a “História da Reforma e das Principais Igrejas, Movimentos e Personalidades”, os “Princípios, Teologia e Práticas”, a “Evolução Social, Política, Cultural e Artística”, o “Património Cultural Protestante no Mundo e em Portugal”, a “Simbologia”, os “Retratos Sociodemográficos”, e por fim, converge num “Roteiro Cultural e Turístico” e fornece ainda um glossário com termos do protestantismo.
Deste modo, a obra permite aos interessados entrar numa narrativa contínua, em consultas pontuais ou na preparação de uma viagem, dando uma visão integrada do património cultural protestante em território nacional e apresentando-o de modo ilustrado em pelo menos 43 sítios das sete regiões turísticas do país, referindo ainda muitos outros lugares de interesse turístico e elementos artísticos e etnográficos.
A obra será apresentada numa sessão que decorre a partir das 16h, na Biblioteca Nacional de Portugal, que contará com a presença de Paulo Mendes Pinto, coordenador da área de Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, e dos colaboradores, Timóteo Cavaco, presidente da Aliança Evangélica Portuguesa, e Osvaldo Castanheira, designer e professor de artes na antiga Escola Industrial e Comercial de Sintra.
Tendo em conta a relevância da obra, o 7MARGENS associa-se à sua publicação, divulgando também a seguir alguns dos excertos do texto. Na página digital dedicada ao livro está resumido o seu conteúdo e explicada a forma de o encomendar, o que pode ser feito também através do endereço roteiroprotestante@gmail.com

Capa do livro com o chi-ro, símbolo clássico do pioneirismo protestante português.
I
“1517 – 31 de outubro – Martinho Lutero publica em Wittenberg, Alemanha, as suas 95 Teses contra a venda das indulgências. A data marca o início histórico da Reforma Protestante.”
Identidade Protestante
(…) “Com o surgir de comunidades rurais e independentes, os despertamentos religiosos dos séculos XVIII, XIX e XX, a fragmentação das confissões e uma posição teológica ortodoxa assumida no séc. XX, a designação evangélica passou, na atualidade, a estar mais conotada com as igrejas de governo congregacional e de doutrina conservadora. Contudo, é preciso relevar que a identidade evangélica está ainda bem presente no protestantismo histórico na denominação e teologia das suas igrejas. O seu enquadramento é muito dependente do período histórico e das geografias em análise.”
Revolução Industrial e Movimentos Sociais
“Os revivalismos dos sécs. XVIII e XIX tinham criado mais igrejas e crentes evangélicos que, dado o seu carácter fragmentário, se juntavam muitas vezes em sociedades de promoção religiosa e de apoio social. Esta dinâmica era paralela à Revolução Industrial, que alterava as condições de trabalho e provocava migrações dos campos rurais para os bairros citadinos. As igrejas integravam-se nos novos bairros fabris, promovendo escolas dominicais, a alfabetização, a higiene, a alimentação, a abstinência do álcool e o apoio a vítimas da prostituição, e criticando as condições dos presos e doentes mentais e a crueldade exercida sobre os animais de carga. Algumas destas iniciativas eram braços sociais das igrejas, como o Exército de Salvação, fundado pelo metodista William Booth em 1865, e outras organizações cristãs que viriam a evoluir para uma missão universalista, tais como as Sociedades Protetoras dos Animais (1824) e a Young Men’s Christian Association – YMCA (1844), fundada por George Williams, que representava as uniões de jovens das igrejas e foi uma das principais organizações pioneiras da prática desportiva a nível internacional.”(…)
1846 – Fundação da Aliança Evangélica em Londres.

Gospel: Sister Rosetta Tharpe (1915-1973), evangelista da Igreja de Deus (pentecostal afroamericana), cantora de gospel e pioneira do rock’n’roll, com forte influência em Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley e Led Zeppelin. Foto © James J. Kriegsmann, Wikimedia Commons, Domínio Público.
Era Dourada Holandesa
“O efeito calvinista e iconoclasta nos Países Baixos fez surgir uma escola de pintura na qual primavam os retratos de nobres e burgueses, as paisagens naturais, as naturezas mortas, os interiores e os temas bíblicos e históricos. Proibidas no interior das igrejas, as pinturas religiosas deixaram também de decorar o interior das residências. Valorizava-se a pintura de paisagens e cenas campestres enquanto retratos naturais da criação divina e representações da vida comunitária com as tarefas do quotidiano. Os temas tornaram-se progressivamente realistas, individualistas e seculares.”(…)
Gospel
“Os hinos e os coros evangélicos alimentavam o conforto espiritual dos escravos negros norte-americanos enquanto labutavam nos campos de algodão. Inspiradas em histórias bíblicas como o êxodo de Moisés e a saída do povo judeu do cativeiro babilónico para a nova terra prometida, Israel, as letras refletiam o desejo de libertação da opressão e violência da escravatura.”(…)
Lazer
“Na Inglaterra vitoriana, passar o tempo por mero entretenimento era fortemente questionável nas comunidades protestantes de linha puritana, criticando-se o consumo de álcool, os jogos de cartas, as lutas de animais e demais comportamentos ociosos. Entre os mais jovens, eram mais regulares os períodos escolares desocupados – vacations – e uma menor participação militar. As igrejas criavam programas ocupacionais que procuravam evangelizar os não-crentes e edificar espiritualmente os crentes, convidando-os à participação em acampamentos, excursões e jogos mais regrados com um sentido comunitário. Em 1841, o pregador leigo batista Thomas Cook (1808-1892) universaliza o acesso ao produto turístico com a realização daquela que terá sido uma das primeiras excursões turísticas.”(…)
Escócia
“Na Escócia, predomina a tradição religiosa presbiteriana. A cidade de Edimburgo foi um símbolo da luta política e religiosa do reformador João Knox. A Catedral de Saint Giles, do séc. XII, é considerada a igreja-mãe do presbiterianismo. Após a adoção da Reforma, João Knox foi o primeiro pastor da congregação. Na mesma rua, encontra se o Salão da Assembleia Geral da Igreja da Escócia, edifício iniciado em 1846, pela Igreja Livre da Escócia, e atualmente a Casa-Museu de João Knox. Trata-se de uma antiga casa seiscentista, mas não existem provas de que tenha sido habitada pelo reformador. Em 1851, a Igreja Livre da Escócia transformou o espaço para preservar a memória de Knox e da Reforma escocesa. No centro histórico, encontramos também a Igreja e Cemitério de Greyfriars (1620), onde existe um memorial dedicado a George Buchanan, professor no Colégio das Artes em Coimbra, sentenciado pela Inquisição portuguesa e também um dos pioneiros da Igreja da Escócia. Estes sítios fazem parte do centro histórico da cidade-velha de Edimburgo, distinguida como Património da Humanidade. Um pouco a oeste do centro, no cemitério de Dean, é possível identificar o túmulo do missionário Robert Kalley, pioneiro protestante em Portugal e no Brasil.”(…)

Túmulo de Robert Kalley (1809-1888), Cemitério de Dean, Edimburgo, Escócia. Foto © Roteiro Protestante Português
“1910 – Realização da Conferência Missionária Mundial em Edimburgo, vista como um marco pioneiro para o surgir do ecumenismo moderno.”
“1972 – Realização da Explo 72, em Dallas, Texas, de 12 a 17 de junho, com a presença diária de 80.000 pessoas e as pregações do pastor baptista Billy Graham. É considerado o evento mais emblemático do chamado Jesus Movement.”
II
Reforma Protestante em Portugal
(…) “Em 1521, D. Manuel I recebe do embaixador português em Roma e do próprio papa as notícias da excomunhão de Lutero e do perigo de divulgação dos seus escritos em Portugal e Espanha. O monarca português escreveu igualmente a Carlos V, apelando-lhe para que controlasse o alastramento da heresia. Pelos registos diplomáticos da época, a situação preocupou e deixou alerta o reino português.”(…)
“1555-57 – Formação temporária no Brasil da colónia da França Antártica, na Baía de Guanabara, com a presença de pastores reformados e a intenção de atrair huguenotes franceses. São celebrados pela primeira vez cultos protestantes em território americano e brasileiro.”
“1695 – Inauguração do templo da Gereja Sion, também para a comunidade de língua portuguesa em Batávia. Este subsiste ainda em Jacarta, Indonésia. É o mais antigo templo protestante erguido de origem para o culto em língua portuguesa.”
Terramoto de Lisboa
(…) “No dia 1 de novembro de 1755, no Dia de Todos-os-Santos, dá-se o Terramoto de Lisboa. Esta terrível catástrofe natural suscitou diferentes interpretações filosóficas e teológicas por toda a Europa. Em muitos dos escritos da época, a razão da catástrofe era, por um lado, o resultado da ira de Deus pela presença dos hereges protestantes em Lisboa ou, por outro, a consequência da idolatria católica, expressa no culto aos santos e nas procissões populares. Neste período, destaca-se, em 1756, um conjunto de artigos de Immanuel Kant, filósofo iluminista de formação luterana, que veio a constituir a obra Escritos sobre o Terramoto de Lisboa.”(…)
Comunidade Germânica e Igreja Evangélica Alemã
(…) “Em 1773, a comunidade passou a ser pastoreada por Johann Christian Müller (1752-1814). Escreveu um tratado com o título Memória sobre as Medalhas Portuguezas e, em 1787, era eleito como sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa e da qual viria a ser posteriormente secretário. Era um homem muito culto e durante o pastorado luterano aprofundou as suas relações na sociedade portuguesa e na corte. A coroa portuguesa ofereceu-lhe uma posição de relevo, um salário, e, em 1791, Müller abjurou do protestantismo e converteu-se ao catolicismo.” (…)

Igreja Congregacional: Capa do suplemento ilustrado do jornal O Século, em 1910, sobre Os Protestantes em Portugal, com o pastor Manuel dos Santos Carvalho. Inspiração gráfica para a capa do Roteiro Protestante Português. Jornal O Século, 651, 1910.
Carl Ruders
“O estilo de Carl Israel Ruders (1761-1837) evidenciava um discurso mais imparcial, modesto e de vasto conhecimento. Nascido em Estocolmo, formou-se e foi professor na Universidade de Upsala. Pastor luterano e eleito para a Congregação Luterana Francesa em 1790, exerce, de 1798 a 1802, as funções de Capelão da Legação Sueca em Lisboa. Escreve duas obras em Portugal, Algumas Observações sobre Portugal em Carta e Viagem em Portugal 1798-1802, está traduzida para o português por António Feijó (1907-1909), para publicação no Diário de Notícias. Trata-se de cartas escritas a amigos em tom menos formal e, por vezes, com maior pormenor, quando destinadas a eruditos.”(…)
Restauração e Guerras Peninsulares
(…) “O Tratado de Methuen (1703) e, em particular, as Guerras Peninsulares (1807-1814) reforçariam a presença industrial, comercial e militar britânica e a vontade evangelizadora dos membros das comunidades protestantes junto da população portuguesa. Em 1810, na sequência do Tratado de Comércio e Amizade, assinado entre Portugal e Inglaterra, é concedida permissão aos anglicanos para construírem os seus templos, desde que estes não tivessem forma e fachada para a rua.”
“1868 – Publicação de A Família Inglesa, do escritor portuense Júlio Dinis.”
“1876 – A linguista Carolina Michaëlis, alemã berlinense e luterana, estabelece-se na cidade do Porto e casa-se com o historiador de arte Joaquim de Vasconcelos. Faleceu em 16 de novembro de 1925 e foi sepultada no Cemitério de Agramonte, Porto, com cerimónia evangélica oficiada pelo reverendo metodista Alfredo Henrique da Silva.”
Igreja Congregacional
A génese do movimento congregacional toma forma com a fundação, em 1880, da Igreja Evangélica Portuguesa, sob a liderança de Manuel dos Santos Carvalho (1821-1916), um operário convertido ao metodismo no Porto e posteriormente pregador, leigo e pastor desta denominação, que detinha cerca de três congregações em Lisboa. Em 1890, liga-se à Igreja Fluminense do Rio de Janeiro, onde Robert Kalley havia estabelecido um regime eclesiástico congregacional, e aceita a declaração de fé Breve Exposição das Doutrinas Cristãs.”(…)
Influência Sociocultural
“Entre 1839 e 1926, instalam-se em Portugal as principais igrejas protestantes. O pioneirismo protestante português beneficiará em muito do apoio económico dos cidadãos estrangeiros que viviam e trabalhavam no nosso país em atividades comerciais e industriais. A consolidação desta presença faz-se com a distribuição de Escrituras, jornais e panfletos, a realização de reuniões domésticas, cultos regulares e escolas dominicais e a organização de escolas de instrução escolar para crianças e adultos e associações de solidariedade social. Algumas destas organizações ganharam, ao longo da sua história, uma motivação humanitária e universalista e introduziram elementos culturais notáveis, como a prática de desportos como o basquetebol, o voleibol e o ténis de mesa.”

Aula de Comércio da então União Cristã da Mocidade do Porto, no início do séc. XX. Foto © Roteiro Protestante Português
“1918 – Inauguração, em 20 de junho, do edifício da Associação Cristã de Estudantes em Coimbra, com projeto do arquiteto Raúl Lino. O organismo evoluirá para a Associação Cristã da Mocidade de Coimbra, integrada na YMCA internacional.”
“1958 – Publicação de Vidas Convergentes – História Breve dos Movimentos de Reforma Cristã em Portugal a partir do Século XVIII, pelo pastor Eduardo Moreira. A obra tornou-se a principal referência historiográfica do protestantismo em Portugal até ao início do séc. XXI.”
José Pedro
(…) “A religião, primeiro a católica e depois a evangélica, foi o principal motor da produção criativa de José Pedro. O espólio artístico relaciona-se com a arte sacra popular e devocional, o quotidiano rural, imaginários góticos e grotescos, história militar, atualidades sociais e reproduções de obras e estilos artísticos. Grande parte da sua obra revela uma evolução a partir do cultivo do belo e dos gostos naturalistas e tradicionais para, numa fase posterior e mais adulta, os trabalhos abstratos, geométricos e modernistas. Entre outros certames, expôs nas exposições do Secretariado Nacional e Informação (SNI) , nos anos de 1940 e 1950, e na II Exposição de Arte dos Trabalhadores do INATEL, em 1980. Cultivou amizade e colaboração com colegas artistas da sua época, como o pintor Sousa Lopes, a família Keil Amaral, Jorge Barradas, Jorge Colaço, João Duarte e Eduardo Gageiro, entre muitos outros.” (…)
“1967-1969 – Ponte aérea da Joint Church Aid e da Jesus Airlines, projeto ecuménico, protestante e católico, que leva apoio humanitário ao Biafra através dos aeroportos portugueses e com apoio logístico em S. Tomé e Guiné-Bissau. O Estado Novo permite a iniciativa sem conhecimento público.”
“1983 – Criação junto à Ria do Alvor, em Portimão, d’A ROCHA, organização de proteção ambiental cristã, pelo pastor anglicano e ornitólogo, Peter Harris, e a esposa, Miranda. Em 1993, a ROCHA Trust converte-se na ROCHA Internacional, contando hoje com mais de 20 organizações nacionais.”
“1998 – Em 10 de janeiro, Encontro Nacional da Comunidade Evangélica, na Aula Magna, em Lisboa, com a primeira presença oficial num evento protestante de uma comitiva de altos representantes do Estado português: o presidente Jorge Sampaio, o ministro da Justiça, Vera Jardim, e o procurador-geral da República, Cunha Rodrigues.”
Património Hinológico, Litúrgico e Contemporâneo
(…)”Num mundo sem fronteiras culturais, deparamo-nos com as influências chegadas através da indústria musical e do entretenimento. No entanto, alguns crentes protestantes queixam-se de se haver perdido muita da tradição do hino da sua poética elaborada e, por oposição, do entusiamo atual nos cânticos. Por outro lado, atribui-se a alguma liturgia mais clássica a falta de inovação e a incapacidade para atrair os mais jovens para as comunidades eclesiásticas. A diversidade dos géneros musicais e dos meios tecnológicos, promovem o desafio entre tradição e modernidade no seio do protestantismo português e também a sua inovação e reforma doutrinária.”(…)

Interior da Igreja Presbiteriana da Madeira (1895) com vitrais de Ricardo Leone. Foto: Direitos reservados.
III
Igreja Presbiteriana da Madeira
“Em 1895, é inaugurado o atual templo da Igreja Escocesa, que, segundo testemunho local, foi projetado pelo arquiteto escocês Gordon Brown (1852-1936). A designação estrangeira Scott’s Kirk, ainda hoje patente no portão de entrada, serviu também para possibilitar a presença de uma comunidade portuguesa. Mais tarde, já no séc. XX, chegou a existir um plano e um projeto de arquitetura para um templo com capacidade para mil pessoas, da autoria do arquiteto madeirense Edmundo Tavares, que não chegou a ser executado.” (…)
Açores, Outros Pontos de Interesse
“Na visita à ilha de São Miguel, sugere-se uma visita ao Parque Terra Nostra, na Vila das Furnas, fundado em 1775 por Thomas Hickling. É um belo parque e hotel com jardim botânico de inspiração romântica, piscina, fontes termais e o palacete familiar. Ainda no nordeste de São Miguel, na Lomba de S. Pedro, encontra-se uma capela rural evangélica, inaugurada em 1941 e que esteve ao serviço da Igreja Evangélica de Portugal e da Igreja Presbiteriana. Nos anos de 1950 e 1960, teve bastante afluência, chegando as pessoas a ficar nas escadas da porta principal para assistir aos cultos. Segundo testemunho local, existiu um pastor de nome Sequeira que fora proibido de pregar na rua pelas autoridades. Este, para cumprir o requerido, subia para cima de um carro e pregava assim ao ar livre.” (…)
Porto e Norte, Igreja Metodista do Mirante
(…) “A congregação metodista no Porto reunia inicialmente na travessa da Fábrica. O espaço foi alugado em 1870 por James Fletcher, cônsul norte-americano, e casado com Frederica Smith, uma pioneira da instrução escolar e religiosa para crianças e senhoras. Na inauguração deste primeiro espaço, pregou António de Matos, primeiro pastor protestante e presbiteriano português. Diz Eduardo Moreira que estas primeiras pregações atraíam grande assistência e eram tumultuosas, com pedradas e tiros para o ar, tendo o Governo Civil e o município do Porto sido forçados a colocar ali guarda a cavalo para garantir a realização dos cultos.” (…)
Igreja Lusitana de S. João Evangelista, Diogo Cassels
(…) “O trabalho pedagógico de Diogo Cassels seria primeiramente reconhecido em 1908, pela Liga Nacional de Instrução, com a atribuição do título de benemérito de instrução e da designação toponímica da rua de Diogo Cassels pela Câmara Municipal. Em 1922, o próprio Governo da República agracia-o com a comenda da Ordem de Cristo. Diogo Cassels faleceria em 1923. Em 10 de abril de 1938, no Jardim do Morro, em Gaia, ser-lhe-ia dedicado um busto da autoria do escultor Sousa Caldas.” (…)

Antiga Capela-Escola do Torne (1868), primeiro templo protestante português construído de raiz, hoje Igreja Lusitana de S. João Evangelista. Foto: Direitos reservados.
“1872 – Compra em hasta pública do antigo Convento de Nossa Senhora dos Remédios, em Santos, Lisboa, pela Free Presbyterian Church of Scotland. O lugar de culto seria adaptado para a instalação da Igreja Presbiteriana e, a partir de 1898, da Igreja Lusitana, tendo hoje a designação de Catedral de S. Paulo.”
Alentejo, Assembleia de Deus de Portalegre
“Trata-se de uma igreja evangélica emblemática do pioneirismo protestante. Nela foi relevante a família inglesa Robinson, que teve um papel notável no desenvolvimento industrial e social da cidade de Portalegre na segunda metade do séc. XIX e início do séc. XX. Assim, a emergência desta igreja deve-se ao industrial inglês George Wheelhouse Robinson (1813-1895) e aos seus herdeiros, que para ela contribuíram até 1968, ano da morte de Jorge Robinson Silveira (1899-1968). George Wheelhouse Robinson chegou a Portalegre em 1848 e aí instalou uma fábrica de transformação de cortiça que dava trabalho a mais de 250 pessoas.” (…)
Tipologia e Estilos Arquitectónicos
(…) “O neogótico é o estilo arquitetónico predominante nas igrejas protestantes portuguesas históricas e os panos de paredes são regularmente decorados e abertos com janelas ogivais. Este gosto artístico é sobretudo reflexo da influência romântica anglosaxónica, bastante em uso no séc. XIX.” (…)
Conclusão
“Ser protestante, na sua abrangência, é ser-se também português, e não apenas uma excepção. Se se entendem os inúmeros e valiosos contributos que as culturas religiosas islâmica, católica e judaica deram ao nosso país, espera-se que este roteiro também realce a participação histórica das comunidades protestantes e dos seus membros na sociedade portuguesa.” (…)
(…) “Este roteiro não é per si um produto económico, mas, por ora, é principalmente um recurso turístico e cultural. É sobretudo uma tentativa de valorização de património, identidade e memória que parece digna da melhor atenção pelas principais igrejas, organismos associativos, privados e públicos, e pelos indivíduos, cristãos, protestantes, religiosos ou cidadãos comuns.”
Glossário
“Irmão – Expressão corrente no trato social formal e informal entre membros da mesma congregação e das diferentes confissões protestantes em consequência de um sentimento comum, fraterno e universal na fé cristã. Ganhou dimensão institucional na denominação de grupos protestantes comunitários como os Irmãos Morávios ou os Irmãos de Plymouth.”

João Paulo Henriques, autor do Roteiro Protestante Português. Foto © António Marujo/7MARGENS
Nota Biográfica
João Paulo Henriques é licenciado em Informação Turística pelo ISLA e Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE), guia-intérprete nacional de turismo, mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação pelo ISCTE-IUL, profissional de marketing e comunicação, diretor de planeamento estratégico em agências de publicidade e copywriter. Foi diretor do Cartão Jovem, na Movijovem, de 2005 a 2009. Desde 1994, quando iniciou a sua formação universitária, que tem pesquisado sobre a história e cultura do protestantismo. O Roteiro Protestante Português é fruto expandido da tese de licenciatura na ESHTE: Os Protestantes e o seu Impacto Sócio-Cultural em Portugal – Contributos para a Elaboração de um Roteiro Turístico em Lisboa e no Porto (2005) e do artigo O Pioneirismo Protestante na Génese de Organizações Universalistas em Portugal (2005) para a Revista de Ciência das Religiões, da Universidade Lusófona. É cofundador, em 2006, da Sociedade Eduardo Moreira.










