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Filme Roubaix, Misericórdia, Arnaud Desplechin

Roubaix: um conto de Natal (em Novembro)

| 05/11/2020

Filme Roubaix, Misericórdia, Arnaud Desplechin

Imagem de Roubaix, Misericórdia, de Arnaud Desplechin.

 

Ao ler uma entrevista (Público/Ípsilon, 11 de setembro) do realizador Arnaud Desplechin, ainda antes de ir ver o filme, houve logo duas coisas que me fizeram pensar no Papa Francisco e no caminho que ele insistentemente propõe aos baptizados. Essa impressão foi agora, no momento em que escrevo, alargada pela leitura da sua nova encíclica Todos Irmãos (Fratelli Tutti).

“Como é que faz com a miséria?”, pergunta Louis a Daoud. “Ela ilumina-se”, responde ele. Daoud é o chefe da esquadra e Louis o seu tenente, acabado de formar e ainda pouco experiente.

Alguém pergunta a Daoud: “Como é que sabes se alguém é culpado ou inocente?” Ele responde que se coloca na posição do outro e nunca se engana.

Estou a falar do filme Roubaix, Misericórdia, mas que, em francês, tem um título “complementar”: Roubaix, uma luz.

Roubaix é a terra natal do realizador, uma das cidades mais pobres de França, marcada por crimes e violência. É aqui que se passa o filme, nascido de um documentário que o realizador viu, por acaso, uma noite ao chegar a casa. O documentário, feito para o canal 3 da televisão francesa, em 2002, retratava o dia-a-dia na esquadra da polícia da cidade, recolhendo sobretudo as confissões dos que eram apanhados. A certa altura, duas mulheres confessam ser as autoras do assassinato da sua vizinha idosa, que tinha sido encontrada asfixiada na cama.

É este caso que vai levar Arnaud a realizar o filme. Mas não lhe interessa o crime como sintoma social ou passional nem fazer um filme policial. O que lhe importa é o crime como testemunha da existência e da opacidade do Mal. O que lhe interessa é a redenção daquelas duas mulheres que cometeram um crime tão abjecto e cruel, por quase nada, a não ser o estarem perdidas. E é esse longo e dilacerante caminho de redenção, que tem o seu momento culminante na repetida e ritualizada reconstituição do crime, até as duas conseguirem chegar à verdade delas mesmas, que faz deste filme uma luz e uma misericórdia. “São duas mulheres que não se sabem amar”, diz o realizador.

E a luz é esse chefe da esquadra. “Daoud escuta os outros e devolve-os a si próprios. Há misericórdia em Daoud, que é um sentimento cristão e não se espera que possa ser o centro de uma personagem muçulmana… Daoud nunca pergunta ‘porquê’, não é um cristão, ele pergunta ‘como’. É assim que restitui as pessoas a si mesmas. Há santidade na vida, acredito nisso.” São palavras do realizador na referida entrevista a quem, diz ele, amigos e críticos telefonaram dizendo, por exemplo: “É magnífico, é a história de um padre que se tornou polícia”; “Não, não, Daoud é um anjo. Viste as Asas do Desejo?”

Daoud é o milagre de Natal que se faz homem (a acção desenrola-se na altura do Natal). Onde ele aparece a luz acende-se.

De facto, o que está em causa para Daoud é a redenção daquelas duas mulheres que não sabem amar-se, é a alma escondida no meio de tanta miséria. Di-lo o realizador de maneira sublime, no filme e nas palavras: “Aquelas duas mulheres não sabem amar-se e no fim, quando são encaminhadas para a prisão, a personagem de Sara adormece, a de Léa olha para a janela. E de repente são elas mesmas e escapam às definições em que as poderíamos enclausurar: por exemplo, a mulher alcoólica, que tem uma criança… Não. Ela é mais do que isso. Ela é Claude. E Marie que adormece é Marie. Elas transcendem as etiquetas que os sociólogos lhes destinam. É isso, afinal, o que faz Daoud: devolve-lhes as coisas.”

Porque “o outro nunca há-de ser circunscrito àquilo que pôde ter dito ou feito, mas deve ser considerado pela promessa que traz em si mesmo” (Todos Irmãos, 228).

Prometi a mim mesmo que iria tentar perguntar sempre “como”, a ver se também consigo ser um pouco anjo, um pouco luz, um pouco misericórdia. Foi por tudo isto que o filme me fez lembrar tanto o Papa Francisco e o Evangelho segundo Jesus.

 

Roubaix, Misericórdia, de Arnaud Desplechin
Título original: Roubaix, une lumière
Drama; M/14; 2019, Cores, 119 min.

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar); o texto foi inicialmente publicado na revista Mensageiro de Santo António, de Novembro de 2020.

 

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