
Alice Kisiya, cristã palestiniana de Al-Makhrour (Belém, Cisjordânia), a contestar a invasão dos colonos israelitas à sua casa e da família. Foto © Mosab Shawer, cedida pelo autor.
A região de Belém tinha, até 1948, mais de 85% de população cristã, principalmente ortodoxos gregos e católicos romanos. No entanto, esta demografia mudou significativamente. Primeiro, com a limpeza étnica da Palestina em 1948, quando muitos refugiados de outras regiões chegaram à cidade de Belém (uma das maiores nos territórios não ocupados na altura). Depois, de forma mais drástica, com a ocupação israelita da Cisjordânia em 1967. E finalmente, a partir de 2002, com a construção e manutenção do muro que circula a cidade e corta o acesso das pessoas palestinianas à maior parte das terras, que foi recentemente confirmado pelo Tribunal Penal Internacional como uma ferramenta de segregação racial que equivale a apartheid.
Em 2016, a população cristã de Belém tinha caído para 12% do total do distrito (cerca de 11 mil pessoas), de acordo com a presidente da câmara à época, Vera Baboun. A região de Al-Makhrour, que inclui a aldeia de Battir, em Beit Jala, é casa para a última comunidade cristã no distrito de Belém. É também considerada património da humanidade da UNESCO, com propriedades agrícolas escalonadas construídas pelas comunidades nativas ao longo de mais de quatro mil anos, conhecida como a terra das vinhas e oliveiras, hoje ameaçada pelos planos de construção de um colonato que, além da destruição da paisagem, ameaça cortar o sistema de irrigação comunitário em funcionamento há milhares de anos.
Desde o início da guerra em Gaza e perante a ausência de consequências internacionais para Israel, a violência dos colonos tem vindo a aumentar em toda a Cisjordânia. Desde 28 de Agosto, foi lançado o maior ataque israelita nos Territórios Ocupados dos últimos 20 anos, que já matou mais de 20 pessoas, particularmente no norte da Cisjordânia. Mas a política de constante roubo de território com o objectivo de tornar a vida insustentável para as populações locais já dura há muitas décadas.
Foi neste contexto que chegou ao 7MARGENS a carta de Alice Kisiya, cristã palestiniana de Al-Makhrour que também tem cidadania israelita, e que viu a sua casa roubada por colonos há um mês. A carta termina com o anúncio de uma ação de solidariedade com os cristãos de Belém para o próximo dia 29 de setembro. Reproduzimos o texto a seguir.

Acampamento de solidariedade (entretanto destruído pelos militares israelitas) em apoio da família de Alice Kisiya. Foto: Direitos reservados.
Caros amigos,
O meu nome é Alice e eu e a minha família somos os orgulhosos proprietários de terras em Al-Makhrour, Beit Jala. A nossa terra não é apenas um pedaço de terra – é o coração da história, das lutas e dos sonhos da nossa família. Mas recentemente, na quarta-feira, 31 de julho de 2024, colonos [israelitas] armados, apoiados pela polícia, tentaram expulsar-nos da nossa terra. Recusámo-nos a sair, mantendo-nos firmes numa resistência não-violenta, juntamente com alguns corajosos activistas de Israel e da Cisjordânia.
Quando os soldados israelitas chegaram, apresentámos a escritura da terra, que tinha sido emitida pela própria Administração Civil israelita. Mas isso não importou. Os soldados tomaram o partido dos colonos e emitiram uma “ordem de zona militar reservada”, permitindo que seis colonos permanecessem no local, enquanto a minha família e todos nós fomos obrigados a abandonar a terra. Quando nos mantivemos firmes, os soldados retiraram-nos violentamente, ignorando os nossos direitos legais e a nossa humanidade.
Desde então, a minha família e muitos voluntários dedicados têm regressado todos os dias, fornecendo proteção civil não armada (UCP). Sempre que nos aproximámos do terreno – a 2 de agosto, a 8 de agosto e em muitos outros dias – o exército respondeu com violência. Foram lançadas granadas de atordoamento para nos afastar, pessoal da comunicação social foi detido e tanto o meu irmão Jihad como eu recebemos ordens de restrição [de movimentos].
No dia 4 de setembro [quarta-feira passada], mais de 50 soldados vieram e demoliram o nosso acampamento de solidariedade, confiscando a nossa tenda e levando até a casa de banho móvel. Apesar destes ataques, recusamo-nos a desistir. Montámos um acampamento para ficar na nossa terra 24 horas por dia, 7 dias por semana, até que a justiça prevaleça.

Casa e restaurante da família de Alice Kisiya, cristã palestiniana de Al-Makhrour (Belém, Cisjordânia), antes (em cima) e depois (em baixo) de uma das demolições. Foto: Direitos reservados.
A nossa família está profundamente ligada a esta terra em todos os sentidos. Em 2012, construímos aqui uma casa e um restaurante, apenas para os vermos serem demolidos pelo exército israelita em 2019. Cada vez que reconstruímos – em 2012, 2013, 2015 e 2019 – contraímos empréstimos, que nos deixaram a braços com dívidas até hoje. Perder o nosso negócio custou-nos muito dinheiro e agora vivemos numa casa alugada. As batalhas legais esgotaram-nos ainda mais, e até sofri um acidente de mota a trabalhar para tentar cobrir as despesas, o que resultou na perda da minha perna, agora substituída por uma prótese metálica.
Mas as consequências emocionais têm sido igualmente pesadas. O meu sobrinho, que nasceu em 2015, assistiu a tudo isto na terra que ele ama e onde foi criado. Estava lá no dia 31 de julho, quando os colonos atacaram e destruíram cruelmente os seus brinquedos, partindo-os em pedaços e atirando-os para fora da terra. Esta terra, onde ele brincava e crescia, tornou-se um lugar de medo e de perda para ele e para a nossa família.
Somos uma família árabe-cristã com cidadania israelita, mas somos também cidadãos franceses. Apesar disso, continuamos a enfrentar a agressão implacável dos colonos e do exército israelita.
Estamos a convocar pessoas de todo o mundo para uma manifestação de solidariedade inter-religiosa em todo o mundo para com a aldeia cristã de Al-Makhrour, a última de Belém, que terá lugar a 29 de setembro, em frente a igrejas por todo o mundo.

Pessoas de diferentes confissões, incluindo judeus e muçulmanos, em apoio da família de Alice Kisiya. Foto: Direitos reservados










