Rua dos Anjos, ou: coisas do divino

| 14 Nov 2022

Rua dos Anjos

“Um filme que nos faz pensar”. Como aconteceu a um amigo meu que, ao fim de um longo jantar em que não conseguia parar de falar do filme a pessoas que não o tinham visto, comentou comigo que o Rua dos Anjos é “uma obra de arte, como uma canção de Bob Dylan” Imagem do Trailer do filme “Rua dos Anjos”

 

“Ele há coisas do diabo!” é a expressão popular que me ocorre ao pensar no modo como o documentário Rua dos Anjos encontrou o seu caminho para o programa do Portuguese Cinema Days in Berlin 2022.

E imediatamente me corrijo: ele há coisas do divino.

Estávamos na véspera da última reunião para fechar o programa. Já tínhamos visto dezenas e dezenas de filmes portugueses que um dos membros da equipa juntara numa lista aparentemente interminável, há muito tinha passado aquele ponto de inflexão em que, sucumbindo ao cansaço de tantas semanas a ver filmes nas horas livres, decidíramos focar-nos apenas nos filmes muito falados, muito premiados. Por um descargo de consciência, quis verificar ainda a lista toda, e bem lá no fundo encontrei este nome: “Rua dos Anjos”. Por um descargo de consciência fui espreitá-lo – e o resto é (a nossa) história: os outros elementos da equipa confiaram no meu entusiasmo e concordaram em fazer mais uma sessão do que as que estavam previstas. A qual teve lugar há dias, no cinema Moviemento, perante um público completamente rendido a Rua dos Anjos. “É, de longe, o melhor filme sobre a questão das trabalhadoras sexuais”, afirmou no final o jornalista Flávio Lenz, que há muito se ocupa com temas ligados ao estigma, às representações sociais e aos preconceitos ligados à prostituição. A conversa com a realizadora Renata Ferraz teria continuado longamente na sala se não tivéssemos sido expulsos por estarmos a atrasar a sessão seguinte. De modo que fomos para a Lounge do cinema continuar a conversa e brindar com vinho do Porto à vida da Maria Roxo, a co-realizadora de Rua dos Anjos. À saída, muitos comentaram que tinham de ver este filme de novo.

Também eu quero saborear de novo este filme de rara sensibilidade, que recusa a postura habitual dos documentários sobre, aceita o risco de criar um documentário com, e acaba por se transformar num trabalho para: recomeçado e concluído para oferecer à Maria Roxo, que perto do fim das filmagens adoeceu ainda mais gravemente, e acabou por morrer. Um filme feito a quatro mãos, modelo híbrido algures entre o documentário e a criação ficcional, atravessado por metalinguagem, em que a realizadora Renata Ferraz e a trabalhadora sexual Maria Roxo (a pessoa que, nas mãos de outro realizador de documentários, seria provavelmente apenas o “objecto” do filme), se ensinam mutuamente o respectivo ofício, trocando de papéis e confundindo-se: ambas realizadoras, ambas actrizes, ambas pessoas concretas e autênticas que aceitam o desafio de nos abrir janelas para a sua humanidade. Um filme que nos inscreve o trabalho sexual na área da representação teatral. O filme que Renata Ferraz, quando lhe pediram para o sintetizar numa palavra, definiu como “exchange”; eu escolheria “respeito” (se me deixassem usar duas palavras, acrescentaria: profundo).

Dias antes de o passarmos no Portuguese Cinema Days in Berlin, o documentário Rua dos Anjos tinha sido exibido no Porn Film Festival, e recebera uma crítica muito elogiosa de Manuel Schubert num blog do TAZ (aqui, em alemão), que o autor sintetizou assim no twitter: “”Em todos os festivais de cinema há aquele filme que nos desinstala, que faz tudo certo como nenhum outro, que nos toca, que nos faz pensar. No #Pornfilmfestival Berlin 2022, esse filme é o documentário „Rua dos Anjos“ de Maria Roxo & Renata Ferraz …”

“Um filme que nos faz pensar”. Como aconteceu a um amigo meu que, ao fim de um longo jantar em que não conseguia parar de falar do filme a pessoas que não o tinham visto, comentou comigo que o Rua dos Anjos é “uma obra de arte, como uma canção de Bob Dylan”. Explicou: “Pode não ser perfeita, mas cada pessoa encontra nela uma frase que a toca de maneira especial”. Também ele encontrou uma frase que o atingiu com toda a força, e agora quer regressar ao Rua dos Anjos com um grupo de amigos, um grupo de casais católicos que se reunem regularmente para debater temas diversos, para depois, em conversa com eles, tentar libertar-se da rede de impressões que o invadiu e da qual não está a conseguir sair sozinho. “Um filme que nos toca”. Como a outro amigo, que agora repete, com um sorriso nos olhos brilhantes: “A Maria Roxo! Aquela mulher é um fenómeno!”

“Um filme que nos desinstala”. Como a mim própria, que tenho passado a vida a conseguir não ver as prostitutas, e as mantenho confortavelmente arrumadas na minha gaveta de vítimas. Vítimas de homens de afectividade malsã – esses que, em vez de entrarem no jogo dos desejos em diálogo entre iguais, compram corpos que usam para os seus monólogos.

Curiosamente, Rua dos Anjos levou-me até Maria Madalena, que os evangelhos nos apresentam como uma prostituta muito próxima de Jesus Cristo. Sempre pensei que essa proximidade seria sinal da compaixão de Jesus Cristo, para desarrumar as nossas gavetas comodistas e ao mesmo tempo oferecer a Maria Madalena a redenção divina. Mas, desde que conheci a Maria Roxo da Rua dos Anjos, dou comigo a imaginar que Jesus Cristo não andaria com aquela mulher para a redimir a ela, mas para se acrescentar na sua própria humanidade. Talvez tenha encontrado em Maria Madalena a inteireza, a autenticidade, a força, a alegria e a tristeza desta Maria Roxo que nos ensina e enriquece.

A Maria Roxo quis fazer o Rua dos Anjos porque estava certa de que a vida dela dava um filme. O resultado é bem mais do que esse famoso título de uma secção na Crónica Feminina: o filme da Maria Roxo dá-nos vida a nós.

 

O documentário Rua dos Anjos vai ser exibido em Lisboa, na Cinemateca, no dia 22 de Novembro, às 19:00 e no Porto no Teatro Rivoli, no dia 4 de Dezembro, às 16:30.
Para os interessados em ler mais sobre este assunto, recomendo estes dois artigos: – Entrevista a Renata Ferraz, por Graham Douglas, em The Prisma. – Crítica na revista online de cinema Desistfilm. O filme fez parte do programa IndieLisboa 2022, que teve lugar em Maio.

Realização: Maria Roxo, Renata Ferraz. Documentário, 2022, 84′

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blog Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado.

 

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