Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém.
A Rússia ficará sem Putin, a América sem Trump e a China sem Xi Jinping (e a FIFA sem Infantino). Só não sabemos as datas. São verdades de La Palisse. Em lógica rigorosa, não são tautologias, mas verdades contingentes fundadas na finitude humana e na sucessão institucional: os dirigentes passam; os países e as organizações sobrevivem-lhes.
Somos pela independência da Ucrânia, pela população heroica da nação de Kyiv, pela sua adesão à Europa e pelo direito de resistir à invasão. Mas pouco esclarece a comparação ritual de Putin com Hitler. Putin não ressuscitou o nazismo nem governa como um louco isolado: é o chefe de uma oligarquia político-económica, formada nas privatizações dos anos noventa. Fazer dele um monstro sem antecedentes absolve o regime que o produziu.
O regime de Putin consolidou a experiência oligárquica de Ieltsin sob o qual, depois de 1991 ocorreu uma transferência colossal de propriedade, aconselhada pelos neoliberais americanos. Jeffrey Sachs foi o arquiteto da terapia de choque económica na Rússia pós-União Soviética, que envolveu privatizações massivas e rápidas. Fez-se em 50 dias, o que os economistas russos aconselhavam fazer em 500 dias. Por exemplo, a Gazprom foi avaliada em 228 milhões de dólares, mil vezes abaixo das estimativas ocidentais; toda a indústria russa, em doze mil milhões, menos do que valia a Kellogg.
Os russos chamaram-lhe прихватизация — prikhvatizatsiya: privatização convertida em apropriação, «agarra enquanto podes». Trabalhadores venderam os cupões; os diretores ficaram com as fábricas; os bancos administraram receitas públicas; petróleo e gás foram distribuídos por decreto. Segundo Piotr Aven, para alguém se tornar milionário bastava autorização governamental. O Estado nomeava os ricos.

“Com Putin mudaram os beneficiários, mas não a união entre dinheiro e poder; em 2003 prendeu Mikhail Khodorkóvski e escolheu novos oligarcas.” Foto: Manifestação em Moscovo, 29 fevereiro 2020. © Gregory Stein | Alamy
Com Putin mudaram os beneficiários, mas não a união entre dinheiro e poder; em 2003 prendeu Mikhail Khodorkóvski e escolheu novos oligarcas. Entretanto, a NATO expandiu-se sobretudo devido à fraqueza russa. George Kennan chamou-lhe um «erro fatal». O funcionário imperial Henry Kissinger resumiu: «Quem ouviu falar de uma aliança militar a suplicar diante de um adversário enfraquecido?» Prometeu-se à Rússia uma Parceria para a Paz enquanto se preparava a entrada na NATO da Polónia, Hungria e República Checa.
Mais fecunda teria sido a «casa comum europeia» de Gorbatchov. A expressão vinha de Gromyko e da Europa «do Atlântico aos Urais» de De Gaulle, mas ganhou tonalidade moral com Gorbachov. Este reconheceu ao patriarca Pimen os crimes soviéticos contra a Igreja e dialogou com João Paulo II. Os sacerdotes ortodoxos liberais Alexandre Men e Gleb Yakunin recuperavam a tradição cristã da dignidade humana, da liberdade de consciência e da reconciliação europeia. Ajudaram a criar o ambiente em que a casa comum europeia deixou de ser uma manobra diplomática e pôde tornar-se uma visão. A Europa seria uma casa porque os seus povos não estavam destinados a viver eternamente em quartéis.
A União Europeia podia ter oferecido integração, circulação, direitos e interdependência. «Россия — это Европа» — «A Rússia é Europa» — insiste Grigori Yavlinsky, um dos maiores políticos russos e fundador do partido Yabloko. Quer uma civilização onde o poder aceita limites — os mesmos que Trump agora pisa.
A pseudociência geopolítica declara que a Rússia «tem de» dominar os vizinhos ou o Ocidente «tem de» cercá-la. Chama necessidade histórica à defesa de interesses concretos. Em 1974, qualquer geopolítico teria jurado que a ditadura portuguesa permaneceria e um império de cinco séculos não terminaria pela decisão de capitães. Em 1975 o funcionário imperial Henry Kissinger declarou que, segundo a geopolítica, Portugal deveria ser comunista. Com a ajuda de outro funcionário, o embaixador Frank Carlucci, os Portugueses decidiram de outro modo.
A Rússia sem Putin reapareceu em 2024 com Boris Nadezhdin, liberal e aliado de Nemtsov. O candidato da esperança — надежда — apresentou-se contra a guerra, pediu reconciliação com a Europa e reuniu cem mil assinaturas. A Comissão Eleitoral validou 95 587, abaixo do mínimo exigido. Em Julho de 2026, foi declarado «agente estrangeiro» e afastado das legislativas. O regime receou que os russos descobrissem que não estavam sozinhos.
«Жить не по лжи» — «Não viver segundo a mentira» — escreveu Soljenítsin. A Rússia sem Putin saberá viver sem a mentira, separar o Estado dos negócios, o patriotismo da obediência e a Europa dos blocos militares, quando os russos desmentirem a geopolítica.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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