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A painting of St. Oscar Romero and Fr. Rutilio Grande, SJ, in the rectory of San Jose Church in Aguilares, El Salvador. (CNS photoOctavio Duran) (1200 × 612 px)

Beatificação em El Salvador

Rutílio: Grande no nome e grande no testemunho

| 21/01/2022

A painting of St. Oscar Romero and Fr. Rutilio Grande, SJ, in the rectory of San Jose Church in Aguilares, El Salvador. (CNS photoOctavio Duran)

Pintura de São Óscar Romero e do padre jesuíta Rutílio Grande, na Igreja de São José de Aguilares, El Salvador. Foto: Direitos reservados.

 

Completaria neste próximo 5 de julho 94 anos, mas morreu em 1977, assassinado, por causa da sua solidariedade e presença junto dos mais pobres de El Salvador. É beatificado, com outros companheiros, neste sábado, 22 de janeiro. Seu nome: Rutílio Grande, padre da Companhia de Jesus. Grande no nome, grande no testemunho do Evangelho.

O relativo desconhecimento acerca da vida e martírio de Rutílio Grande talvez possa atenuar-se com a beatificação, cujo anúncio, há cerca de dois anos, despertou entusiasmo em muitos salvadorenhos.

No dia 12 de março de 1977, a meio da tarde, o padre Rutílio Grande, juntamente com dois companheiros de viagem, Nelson Rutílio Lemus, de 15 anos, e Manuel Solórzano, de 72, seguiam de carro na direção da pequena cidade de El Paisnal, arredores de San Salvador, a capital do país. Iam celebrar a novena de S. José, cuja festa é a 19. A dado ponto do percurso, na localidade de Aguilares, atiradores emboscados dispararam sobre o veículo e mataram os três ocupantes. Os três passam a ser reconhecidos pela Igreja Católica como mártires, a partir deste sábado.

Aguilares, o palco em que foi abatido Rutílio Grande, foi por sinal a terra da sua infância e juventude e a paróquia que lhe foi atribuída como pároco, em 1972, depois de ter sido ordenado. Nela ajudou a criar várias comunidades eclesiais de base (CEB), de onde surgiram também os chamados “delegados da palavra”.

Vários testemunhos confirmam que começa aqui a sua “condenação”, já que os proprietários da região e até mesmo colegas do clero tomaram essa linha de pastoral, que passava por processos de tomada de consciência e de denúncia das condições de vida dos mais pobres, como ameaça aos interesses dos poderes instalados.

Foi nessa altura que Rutílio e Óscar Romero, outro padre da mesma diocese, se conheceram e tornaram amigos. O último viria a ser nomeado bispo auxiliar de San Salvador em 1970. No dia em que soube do assassinato do padre Rutílio, foi a Aguilares celebrar uma missa de corpo presente e sentiu-se de tal modo afetado pelo ocorrido que decidiu deixar de estar presente em atos com as autoridades públicas, até que fosse decidido investigar as circunstâncias e autores do atentado.

Uma semana depois da morte de Rutílio, Romero convidou toda a arquidiocese a celebrar uma única missa na catedral de San Salvador. Calcula-se que aí se reuniu uma multidão de mais de cem mil pessoas.

“Muitas vezes ignorado é o facto de que no início da guerra civil em El Salvador, o padre [Rutílio] Grande foi o primeiro padre a ser morto. De facto, ele foi o primogénito dos mártires desta nova era”, escreve sobre ele a revista America, editada pelos jesuítas nos Estados Unidos. “A sua postura profética e a sua solidariedade para com os pobres do seu país natal levou diretamente à sua morte”, observa ainda aquela publicação que destaca também a influência que ele teve sobre a igreja de El Salvador.

Rodolfo Cardenal, que é autor de uma biografia deste mártir latino-americano, lembrou que Rutílio Grande costumava dizer: “a sociedade tem de ser como uma grande mesa, com toalhas compridas para todos, onde todos tenham que comer e lugar para sentarem”. “Esta é uma metáfora para o Reino dos Céus; nesse sentido tem muito a dizer numa sociedade atingida pela desigualdade”, faz notar o biógrafo, em declarações ao Vatican News.

Fr. Rutilio Grande (right) served as master of ceremonies for the installation of St. Oscar Romero (center), as archbishop of San Salvador in 1977. (Creative Commons)

O padre Rutílio Grande (à direita) foi o mestre de cerimónias na tomada de posse de Óscar Romero como arcebispo de São Salvador, em 1977. Foto © Creative Commons.

 

O texto citado da revista America sistematiza em quatro pontos a atualidade do testemunho de Rutílio Grande, quanto ao que se pode aprender do modo como viveu a sua vida e como isso pode inspirar cada pessoa. São os seguintes:

  1. O valor de uma pessoa não é determinado pelos recursos que tem

Tendo nascido num meio camponês pobre e numa família em que os pais se separaram e a mãe morreu quando ele tinha cinco anos, Rutilio nunca esqueceu os laços que estabeleceu na sua infância, bem como as raízes e referências socioculturais da sua formação. Esses laços influenciaram o modo como viveu o seu ministério de padre.

  1. A santidade pode ser encontrada no dia a dia

Rutílio Grande, apesar das oportunidades que teve na sua formação na Companhia de Jesus, procurou desenvolver as suas atividades com humildade e proximidade. E, nas tarefas formativas que realizou, quer entre os jesuítas quer no seminário diocesano, procurou inovar, no sentido de trabalhar em equipa e de abrir as instituições e colocar os seminaristas em contacto com a vida das comunidades.

  1. Todos são chamados a ser missionários

Quando colocado como pároco, procurou gerar dinâmicas que levassem os membros das comunidades a serem eles os missionários. “Não é necessário que venham missionários de fora, temos de ser missionários de nós mesmos”, chegou a dizer. Num só ano, chegou a ter mais de 300 “delegados da Palavra”, que participavam no esforço missionário da paróquia.

  1. Deus transforma as nossas feridas

Poucas pessoas sabiam quão frágil era a sua saúde enquanto adulto, quando lidou com os contínuos surtos de depressão e dúvidas acerca de si próprio. Um episódio de catatonia quando era novo, apesar de superado, deixou-lhe marcas. Os superiores temiam pela sua saúde mental. Ele tinha consciência disso, aceitou as condições e procurou um caminho pessoal nessa fragilidade. Foi com ela – e através dela – que viveu e testemunhou a sua fé. “A sua fragilidade pode ter sido uma cruz difícil de suportar, mas realça a beleza da sua santidade”, conclui o texto de America.

 

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