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Ruy Cinatti nas montanhas, pormenor de uma das ilustrações de Bosco Alves para o livro Ruy Cinatti (1915-1986) Senhor da Chuva.

Livro ilustrado

Ruy Cinatti, o senhor da chuva em Timor

| 24/09/2022

Ruy Cinatti (1915-1986) Senhor da Chuva é o título do livro que evoca a figura do poeta e antropólogo que dedicou vários anos da sua vida a Timor. Da autoria de Mara Bernardes de Sá e com ilustrações de Bosco Alves, o livro foi agora lançado pela Plural Editores e conta com prefácio do padre Peter Stilwell que foi amigo pessoal e organizador de inéditos da poesia de Cinatti.

Mara Bernardes de Sá (Chaves, 1976) é desde 2005 agente cultural em Timor-Leste e publicou já vários textos sobre a cultura timorense, bem como poemas e livros infantis. Bosco Alves (Díli, 1965) tem exposto o seu trabalho em Timor-Leste, além de ter tido já exposições em S. Tomé e Príncipe e Austrália e continua a expor em Timor-Leste. Participou como ilustrador no livro Contos Tradicionais da CPLP.

Este livro-homenagem permite conhecer o percurso de Ruy Cinatti, motivo pelo qual o 7MARGENS decidiu, com autorização dos autores e da editora, reproduzir o prefácio e excertos da obra, bem como duas das ilustrações.

Prefácio

(Peter Stilwell)

A ligação de Ruy Cinatti a Timor, a sua paixão pela ilha e pelo seu povo, são partilhadas pela autora e organizadora deste belo livro que lhe é dedicado, com testemunho de Cornélio Ximenes e gravuras de Bosco Alves.

Um aspeto que muito me impressionou, ao percorrer os diários, cartas e poemas de Cinatti sobre Timor, foi ver como o encanto da Natureza e a aproximação das pessoas mobilizaram não só os seus afetos, mas também a sua inteligência e formação de cientista. Nos dezoito meses que esteve em Timor no final dos anos 40, percorreu a ilha de lés a lés, a pé, a cavalo e de avião, e fez o que até hoje penso ser o levantamento fitogeográfico mais exaustivo do território. Mas não ficou por aí, nos anos 50 vemo-lo a evoluir para uma perceção fina da relação equilibrada dos timorenses com a Natureza e a entender que ela se transmite como sabedoria acumulada em culturas milenares. Os rituais, os bosques e montanhas sagradas, o espírito dos lugares, encarados como superstição ou animismo pelos europeus, eram afinal mais sábios que a exploração industrial da terra por quem vinha do Ocidente. Para aumentar as áreas de cultivo, derrubavam-se árvores sem atenção ao declive do terreno e com as primeiras chuvas o solo era arrastado montanha abaixo. Ainda nos anos 50, propõe já um desenvolvimento sustentável da agricultura em Timor, e logo evolui para o estudo universitário da antropologia cultural, com trabalhos de campo junto das populações do território. Sonhava uma síntese criativa entre a melhor ciência ocidental e a experiência multisecular dos timorenses, destilada nos mitos e ritos das suas culturas. Pena é que se tenha perdido a tese de doutoramento que trabalhou durante dez anos, mas nunca chegou a apresentar na Universidade de Oxford.

Quero felicitar Mara Bernardes de Sá, amiga de longa data na “ilha do sol nascente”, por esta excelente homenagem a Cinatti. Que o livro desperte a curiosidade de muitos para conhecerem um notável pensador e poeta que se dedicou de alma e coração a Timor.

Senhor da Chuva

(…) 

Timor 1951-1955

Regressa a Timor mais três vezes.

A segunda, de 1951 a 1955, como secretário dos Serviços de Agricultura do Governo de Timor. Criara já uma relação de confiança e cumplicidade com os timorenses, que o baptizaram como “engenheiro das flores”, porque o viam empenhado na recolha de espécies botânicas. Também carinhosamente lhe chamavam “senhor da chuva”, pois nos campos que sofriam falta de água, chovia quando Cinatti chegava.

O fascínio pela natureza, o respeito pela cultura de Timor, e a percepção de que uma e outra se tinham articulado harmoniosamente ao longo do tempo, leva-o a estudar Antropologia Social e Cultural em Oxford (1957-1961), com o objectivo de contribuir para um desenvolvimento integrado do território.

Timor 1962

Pactos de sangue

Na terceira estada em Timor (1962), celebra pactos de sangue com dois liurais. Um pacto de sangue consiste nas partes picarem um dedo com um pequeno furador de ferro, mergulharem o dedo no “tua-sabu” (aguardente de palmeira) e de seguida beberem o conteúdo. Primeiro, bebe o mais velho e depois o mais novo, as mãos unidas e enrolados num lenço. Dizem depois um poema e no final ficam irmãos. Neste caso, os descendentes das famílias dos dois liurais sentem viva ainda hoje a memória do poeta irmão e antepassado.

Nas palavras da poeta sua amiga, Sophia de Mello Breyner

“Contou-me como celebrara o pacto de sangue (…) como por isso, segundo a lei ancestral de Timor, se tornara ele próprio um timorense. De facto, para ele Timor era uma verdadeira pátria – o lugar onde encontrara o seu destino.”1

Viaja muito pela ilha e encantam-no as paisagens, as tradições, a cultura, os costumes e sobretudo os timorenses, transformados em sua família de alma e sangue depois do pacto. Este encantamento por Timor-Leste é inspiração para a poesia que escreve.

Hei-de chorar
As praias mansas de Tíbar e Díli,
As manhãs, mesas de bruma, de Lautém,
Os horizontes transmarinhos de Dáre,
As planícies agrícolas
De Same e de Suai.2

Regista o quotidiano, as paisagens, as danças e os rituais de Timor em fotografia e em 6.000 metros de filme – recolhidos hoje no Museu de Etnologia, na Cinemateca Nacional e na Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica Portuguesa.

Na alma permanecem a luz, os sonhos, o silêncio dos vivos e dos mortos, a que Cinatti dará voz ao longo do tempo em poesia e prosa.

Pacto de Sangue, uma das ilustrações de Bosco Alves para o livro Ruy Cinatti (1915-1986) Senhor da Chuva.

Pacto de Sangue, uma das ilustrações de Bosco Alves para o livro Ruy Cinatti (1915-1986) Senhor da Chuva.

Timor 1966

(…)

A presença de Ruy Cinatti marca quem o conhece, pessoalmente ou através das suas palavras. É exemplo de um ser humano tecido por sonhos, respeito e bondade.

Pode constatar-se no livro único A Condição Humana em Ruy Cinatti, em que Peter Stilwell, cruzando vida familiar, espiritual, profissional e poética, nos torna íntimos de Ruy Cinatti.

A fé católica acompanha o poeta. No final da vida, em vários momentos reza o terço em público, muitas vezes por Timor-Leste. No centenário de Cinatti, em 2015, Luís Cardoso conta:

“Um acaso leva-me a encontrá-lo numa biblioteca do Instituto de Investigação Científica Tropical. Acerco-me dele. Peço-lhe que me aconselhe onde pesquisar sobre a floresta de Timor. Indica-me algumas das suas obras e o livro de Lains e Silva, Timor e a Cultura do Café. De repente, começa uma forte chuvada, como só acontece nos trópicos. Tomado por um frenesim espiritual arrasta-me pelos braços para o meio da rua. Debaixo da chuva intensa pergunta-me se sei rezar. Afirmo que sei o suficiente e o necessário para me livrar nas aflições. Como é o caso. Ajoelhados, rezamos em conjunto um Padre Nosso por Timor.”3

Poema de Ruy Cinatti:

Católico Poeta

Sou católico militante.
Sou um homem de comunhão.
Sou muito heterodoxo.
Sou um católico poeta.
Não sou um poeta católico.4


Notas
1 Sophia de Mello Breyner (Prefácio), in Aparício, João – À Janela de Timor. Editorial Caminho, 1999.

2 Ruy Cinatti – Timor-Amor, Gyphus Editora, 2013.

3 Luís Cardoso, in Revista África, 2015.

4 Ruy Cinatti – Obra Poética, Volume I, Edição Assírio & Alvim, 2016.

Ruy Cinatti (1915-1986) Senhor da Chuva
Texto de Mara Bernardes de Sá e ilustrações de Bosco Alves
Plural Editores, Díli, 2022, 32 páginas, 9,90€

 

 

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