Há um tipo de silêncio que não conseguimos ouvir, mas que se sente. É um silêncio que não é ausência de som, é presença cheia de significado.
Vivemos os dias rodeados por ruído – as buzinas dos carros, as notificações, os áudios no seu despejar de conversas e as palavras que não se dizem – mas é no silêncio que encontramos a verdade.
O silêncio pode ser abrigo. É nele que descansamos quando o mundo pesa demais. Ele não julga, não exige resposta, apenas permite estar. Há silêncios que curam mais do que as palavras que se dizem. São pausas necessárias, é a respiração da alma, são os momentos em que ouvimos o coração com maior nitidez.
Mas o silêncio também pode ser incómodo, pode esconder emoções, travar confrontos, adiar decisões. Quando não dizemos o que devia ser dito, o silêncio transforma-se em parede. Torna-se distância disfarçada entre pessoas: há silêncios que gritam mais alto do que qualquer discussão.
O silêncio é um espaço seguro, onde a rotina gosta de se embalar e a memória de morar. Mas o silêncio também pode ser um quarto vazio, a ausência de uma voz — é o silêncio que pesa, que arrasta consigo a saudade.
Saudade, aquela palavra que escapa às traduções e resiste às definições. Saudade é sentimento, mas também é lugar. Lugar onde o tempo não segue uma linha reta, faz curvas, enrola-se e esconde-se nos cantos da memória.
É difícil explicar a saudade porque não é ausência simples, é presença diluída, é sombra de momentos que deixaram marca, é o eco das vozes que já não se ouvem, mas que continuam a habitar-nos. É um cheiro, uma música, uma frase — e de repente é para lá que vamos outra vez.
A saudade instala-se sem pedir licença. Senta-se connosco à mesa do pequeno-almoço, acompanha-nos pela rua, aparece nas pausas silenciosas do dia. Tem tato, tem cheiro, tem cor, tem gosto. É o calor da manta usada por quem já partiu, é o sabor daquele prato que nos leva à infância, é o som do riso que se foi perdendo no tempo.
Saudade é encontro, mesmo que só na lembrança, mas há lembranças que nos salvam em dias cinzentos.
Só sentimos saudade do que nos tocou verdadeiramente, o que é banal não deixa saudade, não tatua, nem deixa cicatriz. A saudade é um fio invisível que nos liga ao que é importante, e até pode ser ferida que não fecha totalmente, porque guardar a dor também é guardar o amor. E mesmo quando aperta, quando dói e nos tira o sono, a saudade é nobre, é a forma bonita que o tempo encontrou para nos lembrar daquilo que foi, que é, essencial.
Há silêncios que não são vazios, são cheios de tudo o que já foi. E a saudade vive neles.
Entre o silêncio e a saudade há vida. Há histórias que continuam a viver dentro de nós. Há o eterno escondido no instante. E, por vezes, é nesse espaço, discreto e profundo, que tomamos consciência da verdadeira dimensão do amor.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










