Talvez por influência dos textos bíblicos do antigo testamento, e pela ideia de um Deus temeroso e castigador, ainda há quem pense que Deus fala através de trovões, relâmpagos e outras manifestações que fazem tremer a terra e todos os que nela habitam. Porém, Deus decidiu revelar-se e dar-nos a conhecer o Seu sonho para a Humanidade escolhendo o contrário: um silêncio quente, um corpo pequenino e frágil, um Menino, recém‑nascido, que cabia inteiro no espaço de duas mãos abertas. Não houve espetáculo, houve apenas vida a começar.
É um Menino que nasce numa noite sem luzes, sem música, sem conforto, num estábulo onde o frio mordia a pele de dois rostos cansados, uma mulher e um homem, ainda a tentarem compreender o mistério que lhes estava a acontecer. É ali, naquele lugar, onde ninguém esperaria encontrar Deus, que o Sonho começa a revelar-se. Este sonho simples, mas tão exigente: ensinar o Homem a ser Humano; a aceitar a sua condição de fragilidade, encontrando nela a sua força; a descobrir-se amado e, por isso, com capacidade para amar.

‘O Menino foi alguém que precisou de colo. E, talvez, essa seja a parte mais desconcertante do Sonho de Deus – confiar o futuro da esperança a mãos humanas, como quem diz: “Eu acredito em ti antes de tu acreditares em ti próprio.”’
É um Menino que não veio para ser apresentado com discursos, mas com o choro simples de quem pede aconchego. E é nesse choro que escutamos a primeira palavra do sonho divino: proximidade. Deus não quer distância, quer encontro. Quer que o Homem compreenda que a vida só se cumpre quando se deixa tocar.
O Menino foi alguém que precisou de colo. E, talvez, essa seja a parte mais desconcertante do Sonho de Deus – confiar o futuro da esperança a mãos humanas, como quem diz: “Eu acredito em ti antes de tu acreditares em ti próprio.” E este é o sinal de que a esperança não é uma teoria, mas uma presença. Uma presença que caminha ao ritmo humano para que o humano aprenda a caminhar ao ritmo do divino.
E nós? Por vezes, lembramo‑nos de que o sonho de Deus se cumpre em gestos pequenos: um perdão que dói e custa, uma palavra que cura, uma presença que não abandona. Outras vezes esquecemo‑nos e voltamos ao velho caos que carregamos cá dentro. E Deus, paciente, espera. Espera sempre.
E é isto, o Natal: a certeza de que Deus não desiste do Homem. E mesmo quando o Homem desiste de si, o sonho continua ali, enrolado em panos, à espera de ser acolhido, à espera que alguém diga, com a humildade de quem recomeça: “Vamos tentar outra vez!”
O Natal não é uma festa de aniversário – não digam isto “à bruta” às crianças, mas não é – O Menino não acumula anos de idade, não envelhece, é sempre um Menino a nascer. Nasce, Natal após Natal, para celebrar a fidelidade de um Deus que permanece, que não se cansa de esperar. É um Menino que nasce para lembrar que Deus continua, e o Natal é a prova silenciosa dessa persistência.
É Natal, o Menino Deus vai nascer!… Que sejamos capazes de o amar, a cada dia, como quem respira.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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