S. João de Rei — Autenticidade

| 24 Ago 2022

Este restaurante, o do Senhor Victor, num sítio, que não sei se é aldeia ou simplesmente lugar, só se serve bacalhau ou costeleta de vitela. São doses para duas pessoas. Fica bem perto de Póvoa de Lanhoso, claramente mais conhecida do que São João de Rei. Foto © Margarida Cordo.

Neste restaurante, o do Senhor Victor, num sítio, que não sei se é aldeia ou simplesmente lugar, só se serve bacalhau ou costeleta de vitela. São doses para duas pessoas. Fica bem perto de Póvoa de Lanhoso, claramente mais conhecida do que São João de Rei. Foto © Margarida Cordo.

O mês de Agosto, pelas mais variadas razões, sejam descanso obrigatório ou país oficialmente fechado para férias, é um tempo de pequenas descobertas. Vamos por aí fora, para algum canto recôndito ou lugar particularmente invisível, e encontramos experiências improváveis que nos marcam, tantas vezes mais do que as enormes aventuras que nos conduzem a lugares aos quais, tipicamente, só iremos uma vez em toda a nossa existência humana e, mesmo assim, com grande privilégio.

Desta feita comento um restaurante, o do Senhor Victor, num sítio, que não sei se é aldeia ou simplesmente lugar, onde só se serve bacalhau ou costeleta de vitela. São doses para duas pessoas. Fica bem perto de Póvoa de Lanhoso, claramente mais conhecida do que São João de Rei.

Numa destas terças-feiras, porque já tínhamos ouvido falar, tentei ligar para marcar uma mesa. A pessoa que me atendeu (o Senhor Victor, sei-o hoje) disse-me que tinham tudo cheio. Perguntei se poderia ser para o dia seguinte e também já não havia mesas. Passei mais 24 horas adiante e respondeu-me – Na quinta-feira sim. Tenho imenso gosto em receber-vos.

Lá fomos. Tudo cheio, de facto, mas uma mesa à nossa espera.

Escolhemos o bacalhau por ser mais consensual e eu pensei que gostaria de ouvir contar a experiência do Senhor Victor. Um homem de alguma idade (soube depois que tem 85 anos, embora tenha uma agilidade improvável para essa antiga data de nascimento), mas de um caráter delicado, sorriso discreto e presença acolhedora. 

Passava pelas mesas, dava apenas dois dedos de conversa com o cuidado de não maçar e, porque o incitei, contou um pouco da sua história.

Aquele restaurante era, no tempo de seus pais, a loja da aldeia. Vendia tudo, desde mercearia até drogaria, mas nunca se misturavam géneros. Uma coisa é a alimentação, mas outra são os sabões, os detergentes e demais produtos de lavagem e limpeza.

Parecia que o pai era alguém que tratava de quase tudo na aldeia. Ali se centralizavam as necessidades dos habitantes e os meios para as satisfazer.

O Senhor Victor comentou que as filhas têm, aproximadamente, 55 anos e que até por volta dos seus 11 anos, naquele local, não tinham eletricidade. «Colocávamos aqui um petromax e já era iluminação que chegasse antes de irmos dormir.»

Parece mentira, mas há pouco mais de 40 anos, nem luz existia por aquelas paragens.

Este homem de bom ar, que vive num lugar recôndito, conversou sempre que incitado, mas com um inegável bom senso face à “conta, peso e medida” com que deveria estar e interagir – Não estou a maçar, não?

Não maçou nada. Acolheu-nos com a sua hospitalidade, o seu saber fazer discreto e moderado, a sua presença sorridente, mas sem exageros. 

Mostrou-nos com autenticidade um dia-a-dia passível de ser vivido sem grande stresse, mas com gosto por existir de forma proporcionada à idade e ao estado da arte da civilização atual. 

Tem orgulho na sua história; não derruba quem quer que seja; conversa com encanto e simpatia com quem tem curiosidade de o escutar e de, com ele, aprender; serve boa comida e ajuda-nos a lembrar que o tempo antigo, afinal, foi já ali num passado tão recente, embora pareça tão distante.

Julgo que precisamos de pessoas como o Senhor Victor para aprender sobre o essencial que é desfrutar o mundo – não tem pressa de viver; não tem medo que lhe passem adiante; não passa adiante de ninguém; não quer ser quem não é; não quer parecer ter outra origem ou vir de outro lugar que não é o seu.

O mundo precisa de pessoas e de recantos assim. Como alguém disse – não existe felicidade, mas felicidades – momentos de bem-estar e de prazer que são curtos, mas, justamente por isso, vivenciados ao minuto, como todos deveriam ser, já que o tempo, quando é presente, é uma dádiva única que nos traz paz, caminho imperdível para atravessar de forma boa todas as autoestradas, veredas ou percursos sinuosos desta etapa da nossa existência a que se convenciona chamar vida humana.


Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt.

 

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