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Dina Pinto

Sabemos (con)viver com a (fr)agilidade?

| 21/03/2020

Sabemos (con)viver com a (fr)agilidade?

by | 21 Mar 20

Vivemos um tempo singular. Somos, mais do que nunca, chamados a fazer sobressair, em nós próprios, aquilo que nos faz verdadeiramente pessoas: o cuidado que devemos uns aos outros, como a atitude de quem olha para os outros como espelho de si mesmo, a visão do próximo como aquele que é genuinamente diferente, numa diferença que se completa e nos torna verdadeiramente semelhantes na alteridade, unidos no essencial: a nossa dignidade de seres humanos, ao mesmo tempo únicos e (inter)dependentes uns dos outros.

A pergunta que serve de título a este texto remete-nos para a responsabilidade individual e de como essa responsabilidade pode, como as peças de um puzzle, resultar no quadro que todos nós queremos realizado: o bem coletivo, traduzido no bem de todos e do todo.

Estando dependentes uns dos outros é preciso, antes de mais, que confiemos. E a confiança anda de mão dada com o testemunho. Cada um terá de ser confiável nos atos, mas também nas palavras. Ser verdadeiro, ser justo, ser compassivo, ser íntegro, é um sinal, para os outros, de que somos pessoas, não como personagens, mas como seres morais, capazes de nos transcendermos e de transcendermos as nossas próprias circunstâncias.

Em alturas de crise como a que estamos a viver, faz sentido a noção cristã de que somos todos irmãos, não de laços de sangue, mas como uma comunidade unida pelos ideais da compaixão, do cuidado, da fraternidade, do amor. Como afirmava o poeta e pastor anglicano inglês John Donne, “nenhum homem é uma ilha” no sentido, tão contemporâneo, de que não somos minimamente autossuficientes; mas, ao contrário, somos criaturas frágeis que se fortalecem, paradoxalmente, na sucessão de fragilidades. Numa atitude tão humana, das fraquezas fazemos forças.

Então como encarar estes nossos dias? Que papel nos está reservado?

Estes dias turbulentos devem ser encarados, em primeiro lugar, com Esperança. Esperança em dias melhores e mais risonhos. Esperança na nossa autodeterminação face ao adverso. As adversidades fazem emergir o que de melhor o ser humano tem. Segue-se a Fé de quem sabe que nunca está sozinho e que, por mais forte que seja a tormenta, sempre estará Alguém ao leme do nosso barco. É a Fé que nos anima, que nos dá alma para nos transcendermos e alcançarmos o que mais almejamos.

E, finalmente, com a determinação de quem sabe que o seu esforço, por pequeno que seja, é essencial para o bem de todos. Ao assumirmos o nosso papel, a parte que nos está reservada, sempre havemos de procurar ser parte da solução. À nossa medida, segundo as nossas forças. Não nos sobrestimemos, mas também não nos subestimemos. Cada um vale por aquilo que é e pela perseverança e resiliência que põe nos seus atos. Somos sempre a reserva estratégica de alguém. A começar pelos que nos estão confiados, em casa, na família, no trabalho, nos amigos e na vizinhança, até atingirmos os que estão mais longínquos. Mas também naqueles que mais precisam. Ou principalmente nesses!

Os tempos que vivemos são paradoxais: a par de um feroz individualismo e um egoísta utilitarismo, que se manifesta na forma como parecemos descartar aqueles que não nos são úteis, permanece o ímpeto de criar redes e de proporcionar o encontro. A rede é uma bela metáfora daquilo que temos de ser hoje: mais importante do que o tamanho ou o material de que é feita, são as ligações (os nós) que dão consistência ou densidade e robustez à rede. Mais do que exibirmos os nossos saberes e habilidades, importa pô-los ao serviço dos outros, formando assim uma gigantesca rede que a todos abarca, acolhe e sustenta.

O encontro, esse, cria proximidade, tornando-se a raiz e a essência do ser em relação. Através deste ímpeto de proximidade tornamo-nos pessoas mais completas, abrimo-nos à contemplação e à gratidão, adquirimos sabedoria e inspiração. Fomos constituídos pela e para a relação com outros e, só nesse encontro, descobrimos verdadeiramente a felicidade.

 

Dina Pinto é professora de Educação Moral e Religiosa Católica em Bragança

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