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Rosa Pedroso Lima. Foto © António Pedro Ferreira

[Debate 7M: A Igreja e os média–4]

Saber falar com os média

| 24/05/2022

Rosa Pedroso Lima. Foto © António Pedro Ferreira

Rosa Pedroso Lima: “Mudar é mesmo uma necessidade urgente, que nos dará ganhos a todos. Dentro e fora da Igreja.” Foto © António Pedro Ferreira

Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta a proximidade do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinala no próximo dia 29, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de Rosa Pedroso Lima, jornalista do Expresso.

Há muitos, muitos anos, quando comecei a ser jornalista, não havia on-line, nem computadores, nem telemóveis, nem redes sociais. Não havia nada disso. Mas havia, em cada redacção dos grandes meios de comunicação social, um especialista em Igreja. Funcionavam, na maioria dos casos, na secção do Nacional. Eram normalmente homens e sempre jornalistas seniores, com uma enorme carteira de contactos que lhes permitia chegar a fontes dos vários sectores da Igreja. Era o caso do Mário Robalo, no Expresso. Do António Marujo, no Público, do padre António Rego, na TVI, do Manuel Vilas Boas na TSF, do António Cadavez no DN e tantos outros que, de memória, não consigo recordar.

Eram muitos. E, com eles, a Igreja fazia parte integrante do noticiário do país, precisamente porque esses jornalistas alimentavam a cadeia noticiosa das redacções, traziam ideias, reportagens, investigações e entrevistas sobre o dia-a-dia da Igreja. Hoje, não é assim. O mundo das redacções mudou radicalmente. Temos, agora, todos os meios tecnológicos do mundo e, através deles, as redacções passaram todas a trabalhar em direto, aceleraram na transmissão de informação e o público habituou-se a pensar que o mundo está aqui ao lado e que todo o planeta está à distância de um clic. 

Mas não é bem assim. Ontem, como agora, são precisos jornalistas para informar, essa tarefa feita de uma mistura de recolha, confirmação e confrontação de dados através de várias fontes. Fazer jornalismo não é apenas reproduzir de imediato o que se viu, ouviu ou leu em qualquer lado. São precisas fontes credíveis de informação e tempo para digerir os dados, muitas vezes contraditórios, que se recolhem em cada história. Uma prática que está a cair em desuso, numa época em que as redacções estão a encolher a olhos vistos e onde a figura do jornalista especializado – seja no que for – é uma raridade. Jornalistas a falar de religião? Não existem em nenhuma redacção de órgãos de informação generalista. A única excepção é a RR ou a agência Ecclesia, mas esses são órgãos de comunicação social da Igreja Católica que, ao longo dos anos, tem feito um esforço enorme por marcar presença nos media. E, claro, há este projecto do 7MARGENS, fruto do empenho de uma equipa que inclui o António Marujo com o imenso “capital” acumulado na sua longa carreira de jornalista, precisamente especializado na cobertura informativa da religião.

A Igreja, diga-se de passagem, comunica bem nos meios de Comunicação Social. Nos seus órgãos de comunicação social, desde logo, mas também nos espaços que foi conquistando ao longo dos anos. Prova disso é a existência de cardeais, bispos, padres e teólogos com uma presença regular nos órgãos de Comunicação Social generalista portugueses. Frei Bento Domingues tem uma coluna semanal há 30 anos, no Público. O cardeal Tolentino é um dos colunistas actualmente mais antigos do Expresso. Do Correio da Manhã ao Jornal de Notícias, há sempre um espaço garantido para um colunista da Igreja, o que mostra como esta – e as suas diversas vozes – tem acolhimento nos media e audiência garantida (pois, caso contrário, as colunas de opinião desapareciam…)

O problema não está, então, nesta capacidade de a Igreja comunicar nos media. Nesse ponto, está tudo bem e recomenda-se. O problema está na dificuldade em comunicar com os media, com os atuais media, cada vez mais descapitalizados de jornalistas, cada vez mais acelerados na produção de informação e cada vez mais a “reboque’ do que, a cada minuto, está a “bombar” através das redes sociais.

E esta dificuldade de comunicação está para durar. E pode até agravar-se, porque não está à vista um milagre da multiplicação de jornalistas nas redacções, nem tão pouco os tempos correm a favor da especialização, pelo que é de esquecer a possibilidade da Igreja – nos tempos que se avizinham – poder encontrar um interlocutor privilegiado em qualquer jornal, rádio ou televisão, capaz de se interessar por aprofundar um tema, investigar um assunto ou investir numa reportagem. Muito menos haverá espaço para que os próprios media interpelem a Igreja em outros assuntos que não os previstos no calendário de eventos oficiais (visitas do Papa, cerimónias de Fátima ou Jornadas Mundiais da Juventude, só para mencionar alguns). A não ser, claro, que a agenda mediática e as redes sociais assim o determinem. E, nesses picos de atenção – sejam eles por bons motivos, ou para enfrentar denúncias e críticas de situações desagradáveis – a Igreja tem de saber dar uma resposta clara, rápida e transparente. E não o tem conseguido fazer. Há falhas, lacunas, silêncios incompreensíveis para o público, penosas para a Igreja.

 Por outras palavras: a Igreja tem de ser profissional no contacto com a Comunicação Social, tem de ter interlocutores disponíveis para atender qualquer jornalista, de qualquer piquete noticioso. Deixar a comunicação da Igreja a cargo de voluntários, em regime de part-time ou em regime de acumulação de funções não funciona, perante as exigências crescentes e permanentes do mundo atual da informação. Os media têm de saber a quem recorrer, os contactos com a Igreja têm de ser acessíveis a todos, tem de existir um assessor (ou vários) permanentes, que receba os pedidos de informação e lhes saiba dar seguimento. Sem medos, sem burocracias, sem rodeios. Há quem saiba fazer bem isto. E, não são, necessariamente, os membros do clero. Mudar é mesmo uma necessidade urgente, que nos dará ganhos a todos. Dentro e fora da Igreja. 

Rosa Pedroso Lima é jornalista do Expresso; tem acompanhado a informação religiosa e acontecimentos como as visitas de papas a Portugal.

 

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