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autores - Daniela e Nuno Trindade

Sagrada Família ou Família Sagrada?

Por estes dias o que não falta é a referência à família. Nos anúncios publicitários, diversas são as marcas que retratam, com episódios mais ou menos caricatos e reflexões mais ou menos profundas, várias histórias, tendo como pano de fundo a família. Para além disso, muitos de nós têm por hábito nesta quadra festiva reunir-se com os seus familiares, sejam eles mais ou menos próximos. Seja de que forma for, a família está bastante presente no linguajar e na vivência destes dias.

É também na Oitava do Natal – ou seja, na semana a seguir ao Natal e ainda neste tempo litúrgico – que celebramos a Solenidade da Sagrada Família de Nazaré. Deus entra na História da Humanidade fazendo-se menino, frágil e necessitado de acolhimento, e é recebido numa família humana.

Esta família, a de Maria, José e Jesus, será o “berço” de Cristo e apresenta-se como um exemplo para as nossas famílias. É um exemplo de família que nos ensina mais sobre a qualidade das relações que se estabelecem entre os seus membros do que propriamente sobre os elementos que a compõem.

Não devemos olhar para a Família de Nazaré como um exemplo que nos “esmaga” quando confrontado com a nossa vida e olhando para as nossas fragilidades. Em vez disso, como todos os “modelos” propostos por Deus, este também não tem como objetivo deixar-nos apenas deslumbrados a contemplá-lo como algo inalcançável.

A Sagrada Família convida-nos, antes, a viver, sem peso nem culpa, mas com um olhar misericordioso e de esperança para connosco próprios, por forma a sermos cada vez mais d’Ele e, por isso, mais uns dos outros. O que mais “importa” a Deus – acreditamos nós – é, neste processo de aprendizagem do amor na família, descobri-Lo em tudo o que fazemos e viver, logo aí, a verdadeira felicidade.

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Família em construção. Imagem criada com recurso ao ChatGPT

Mas, afinal, como nos podemos inspirar na Sagrada Família e o que podemos aprender com ela sobre as nossas próprias famílias?

Antes de mais, devemos relembrar que a família não é algo “pré-feito”. Mais do que um mapa, com todos os percursos organizados e claramente definidos, a família deve ser encarada como um caminho, que se vai descobrindo sempre que nos questionamos e à medida que caminhamos. Mais do que um conceito estático, existe na família o dinamismo próprio do Amor. E só assim poderia ser porque a família é o lugar onde circula esse mesmo Amor que envolve todos os seus membros e os incita a serem quem verdadeiramente são, em liberdade!  Não há receitas para criar famílias perfeitas, não há um conjunto de regras que alguém possa escrupulosamente seguir para que uma família seja feliz. A propósito disto, diz-nos José Tolentino Mendonça:

“É um engano dizer: ‘A minha família é uma família tradicional’ – não há famílias tradicionais… Nós olhamos para o Presépio, não há famílias tradicionais, há famílias! Há esse chamamento de amor e de encontro… e isso é vivido numa construção permanente.”

Assim como não é “imóvel”, a família não aprisiona, mas envia. Ela é, simultaneamente, “colo” e “incentivo”. Há, inclusivamente, quem considere que seja uma verdadeira escola de Amor, onde aqueles que dela fazem parte aprendem a amar e como que “ensaiam”, através das relações entre eles, a forma como poderão ser esse Amor no mundo. Mais uma vez, pedimos emprestadas as palavras a José Tolentino Mendonça que, acerca deste aspeto, refere:

“Uma família só se reforça se ela não se torna um projeto fechado, se ela não é uma cápsula, mas é de facto uma escola de amor, uma escola de aprendizagem onde se aprende a amar, onde se aprende a abraçar, onde se aprende a respeitar, onde se aprende a ouvir, onde se aprende a cuidar dos outros…”

Por fim, é importante tomar consciência de que a família não é sagrada por decreto.  Antes, é sagrada na medida em que cada um dos seus elementos a torna sagrada, através da forma como se relaciona e como se encontra com os restantes.  Mais uma vez, pedimos ajuda a José Tolentino de Mendonça para percebermos como. Diz-nos ele que:

“A perceção de que a família é sagrada não é uma coisa da origem. É alguma coisa que nós vamos percecionando ao longo da vida, percebendo o significado daqueles laços onde o amor incondicional circula – é a forma de expressão onde a gratuitidade é a linguagem, a generosidade e a capacidade de dom é o estado permanente. (…) Por isso o ‘sagrada’ não é um adjetivo para ficar ‘lá atrás’, mas é um horizonte de descoberta permanente, de perceção daquilo que é esse tesouro, que é esse património que é a família.”

Para a vivência desta solenidade, convidamos-vos a trocar a posição do adjetivo (“sagrada”)! Foquemo-nos menos em olhar para a Sagrada Família como uma família “perfeitinha”. Atrevamo-nos a fazer a nossa parte e transformemos a nossa comunidade familiar, seja ela como for, numa Família Sagrada.

 

 

A Daniela tem 37 anos e é corretora de resseguro. O Nuno tem a mesma idade e trabalha na área da Comunicação de Ciência. Têm em comum o facto de se terem conhecido em atividades da Comunidade Juvenil da paróquia da Amadora, de serem casados e pais do Guilherme, de 4 anos. De momento, estão ligados à pastoral familiar da paróquia onde se conheceram. Acreditam que o acolhimento é o mais importante e que o Amor, nas várias formas através das quais se manifesta, salva vidas!

 

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