Pré-publicação

Sagrado é o amor – uma arqueologia da poesia de Sebastião da Gama

| 7 Abr 2024

A capa da antologia de Sebastião da Gama

A capa da antologia de Sebastião da Gama

Cem anos depois do nascimento do poeta Sebastião da Gama (1924-1952), fica agora disponível a primeira antologia abrangente do muito que escreveu, organizada por Ruy Ventura e que será editada pela Officium Lectionis (para já em pré-venda, até ao próximo dia 10).

“Falecido com 27 anos, o autor de Campo Aberto deixou uma obra forte, espraiada por mais de oitocentos poemas, éditos e inéditos”, escreve o organizador desta antologia. “Deu à imprensa três livros, preparou um quarto que a morte roubaria aos seus olhos, ofereceu à posteridade muitos outros textos memoráveis que, década após década, foram sendo editados com desvelo pela viúva, pelos amigos e pelos seus mais atentos leitores.”

“Desse livro contínuo” Ruy Ventura escolheu os textos que mais o marcaram, em mais de trinta e cinco anos de leitura. “É, portanto, uma antologia pessoal, da qual a intimidade silenciosa e comovida não pode ser de todo eliminada. Deve ainda considerar-se o fruto possível de uma aprendizagem transpoética e teoliterária, para utilizar um termo cunhado por José Rui Teixeira”, o editor da Officium.  

O livro tem duas partes. Na primeira, são editados poemas dos quatro livros que Sebastião da Gama organizou: Serra-Mãe (1945), Cabo da Boa Esperança (1951), Campo Aberto (1951) e Pelo sonho é que vamos (1953). Na segunda, publicam-se textos nunca publicados em livro, incluindo alguns inéditos. A obra conclui-se com uma cronologia organizada por João Reis Ribeiro, e um ensaio em forma de posfácio. Este texto é uma versão revista e reeditada de um outro anteriormente publicado por Ruy Ventura no livro A Chave de Sebastião da Gama. São excertos desse posfácio, seguidos de quatro poemas, que aqui reproduzimos em pré-publicação. Os subtítulos são da responsabilidade do 7MARGENS. 

 

A serra, um sistema simbólico

Agostinho da Cruz: a serra, em Sebastião da Gama, era um “símbolo pensado”, desvelado ou mesmo revelado, como já acontecera com frei Agostinho. Aguarela de João Salvador Martins, 2013 (col. de Ruy Ventura).

 

[…] É temerário escrever sobre uma obra que todos pretendem conhecer. Gama faz parte do grupo desditoso de poetas cuja notoriedade tem toldado a leitura da sua poesia. Serão raros os leitores de poemas escritos em português que não se tenham deparado com versos do escritor de Vila Nogueira de Azeitão. Não creio, todavia, que seja abundante o número daqueles que os tenham abordado sem preconceitos, sem paixão ou com frieza analítica. 

Vários obstáculos vêm impedindo ou dificultando o acesso ao cerne da poesia de Sebastião Artur. Entre eles, permito-me sublinhar: 

a) a simpatia gerada pela sua figura junto dos seus contemporâneos, que levou a uma inaudita mitificação do autor empírico e, em consequência, à sobrevalorização da sua biografia em detrimento da obra produzida; 

b) o mito da sua espontaneidade na construção poética, que conduziu ao menosprezo ou desprezo da trama inter e intratextual que matiza e enriquece o conjunto dos seus poemas; 

c) uma leitura desatenta do seu idiolecto (da sua linguagem, por vezes chã), com base em preconceitos ou exegeses apressadas e superficiais; 

d) o confinamento tópico dos seus referentes textuais, retirando-lhes toda a carga simbólica e arquetípica; 

e) e a recepção “adolescente” da sua poesia (vd. David Mourão-Ferreira), que nos últimos setenta anos não pára de gerar uma miríade de epígonos, por vezes serôdios, em formas para-literárias, atidas à aparência e pouco à essência de quanto escreveu. 

Estes cinco obstáculos têm originado tanto uma adesão entusiasta, mas acrítica e parcial, com notável falta de entendimento dos meandros de uma tessitura complexa, quanto um olhar desconfiado, preconceituoso e até hostil. A leitura tem sido desfocada. Em vez de iluminar o texto, descobrindo-lhe os meandros, tem dado realce ao ser que lhes ofereceu paternidade autoral e aos passos e peripécias da sua curta vida de vinte e sete anos. Devendo auxiliar a interpretação da estrutura simbólica e arquetípica que dá solidez aos poemas, tem-se demorado a encontrar neles uma representação da natureza enquanto paisagem e pouco mais. A existência sobrepôs-se à escrita, mesmo contra a vontade do poeta, com o avultar de uma personalidade cativante cuja sublimação da dor transformou o ser humano em exemplo e herói aureolado, próximo da santidade. 

Tudo se agravou num mal-entendido gerado pelo confronto com uma linguagem e com um estilo aparentemente desajustados e imperfeitos. Como se isso não bastasse, a dificuldade de muitos leitores na ultrapassagem do sentido literal dos poemas tem originado uma insistente centração da sua poesia num espaço restrito (a Arrábida), a qual vem esquecendo que a serra, em Sebastião (e, já agora, em frei Agostinho da Cruz, seu guia espiritual), pouco tem do seu estatuto natural, orográfico e paisagístico, sendo sobretudo um sistema simbólico “visto” que se transformou, nos versos, em “símbolo pensado” (vd. Maria de Lurdes Belchior), desvelado ou mesmo revelado.

Nasce de tudo isto o dever de demonstrar o quanto os seus poemas são o resultado de uma construção consciente e alicerçada e não secreções de um ser pouco culto. Neles, a linguagem e o estilo correspondem a uma tradição longa, aí transfigurada e melhorada a partir da leitura do meio físico e cultural, não enquanto referente e cenário, mas enquanto instância simbólica cujo cerne se atinge, se compreende e se expõe na sequência de uma desmaterialização universalizante. […]

 

“Ao princípio era ela”

Sebastião da Gama: o poeta autofigura-se como instrumento musical tocado pelas mãos de Deus. Foto © Espólio de Sebastião da Gama/Arquivo da Associação Cultural Sebastião da Gama. 

Sebastião da Gama: o poeta autofigura-se como instrumento musical tocado pelas mãos de Deus. Foto © Espólio de Sebastião da Gama/Arquivo da Associação Cultural Sebastião da Gama.

É difícil compreender com suficiência grande parte da obra de Sebastião da Gama sem perspectivar, ponderar e apresentar o quanto a poesia – vocábulo, conceito e centro irradiante – significa nos seus textos. Os seus livros entretecem declarações sobre esse núcleo significativo, mas nem sempre se vislumbra o seu alcance. Não sendo possível transcrever e analisar todas as ocorrências dessa palavra, é ainda assim necessário abordar alguns trechos, paradigmáticos de quanto pensava ou intuía. Para que o quadro seja mais completo, terei ainda de ler com igual cuidado um punhado de asserções sobre o poeta enquanto figura e ser escrevente e sobre o poema enquanto lugar textual e artefacto.

O poeta, na obra do autor de Cabo da Boa Esperança, autofigura-se como instrumento musical tocado pelas mãos de Deus e, simultaneamente, como cantor e instrumentista que recebe o sopro divino, ainda que precise de purificação para executar a melodia. Convocado pelas suas capacidades transmissoras, expressivas e executantes, julga-se indigno e preferiria renunciar. Ainda assim, relutante, cumpre o seu dever, mas percebe que deve desprezar e rejeitar a notoriedade pública e procurar ser indistinto dos seus semelhantes, tornando-se anónimo para juntar a sua voz à deles. Responsável pelo desencanto da realidade, ao realçar apenas a sua imanência, desprezando o seu cerne misterioso, é – como outros autores de poemas – um ente angustiado e absorto perante a morte da poesia, inerente ao mundo tangível. 

Entendendo que a poesia não pertence à terra nem aos homens, esse ser escrevente usa, todavia, os seus ardis (as suas manhas) para enlaçá-la, chamando-a ou invocando-a, fazendo-a descer pela prática de uma acção ritual, litúrgica ou mesmo teúrgica. É verdade que o poema e os versos daí resultantes são meios imperfeitos, insuficientes, falsificados até. Referindo que a obra de arte deve ser orientada por um desejo de comunicação (só se realizando plenamente na recepção) e chegando a criticar os textos que abrem portas apenas a um curto número de leitores, não deixa de asseverar que nos poemas pouco interessa o tema, a sua obscuridade ou clareza, sequer a sua vinculação à sociedade, às suas convenções expressivas e aos seus problemas (o que não significa isolamento ou menor preocupação com os dramas existenciais). Interessa sobretudo que abram “portas verdadeiras” (Cabo da Boa Esperança).

A poesia é assim vista como uma emanação que desce e se alarga na descida. Talvez hipóstase manifestada no som ou na música (cf. Serra-Mãe), permite um encontro com a certeza, com a alegria e, sobretudo, o regresso à beatitude do início, porque “ao princípio era ela” (O Segredo é Amar), enquanto cerne criativo anterior ao surgimento do homem sobre a Terra e enquanto núcleo/nódulo essencial e indestrutível, à espera de uma leitura infinita, pois o seu conhecimento integral é impossível. 

Essa poesia geradora confronta o poeta (e o leitor?) com a sua ignorância, com o não-saber, sendo inalcançável a definição da sua “presença misteriosa” (O Segredo é Amar) e, também, da sua existência e revelação. Tendo por atributo principal a Vida, não tem um carácter enigmático, tornando antes presente um mistério (o mistério) – ao qual Sebastião recusa a sua compreensão plena, sabendo-o irredutível, inapreensível e incognoscível. […]

 

Poesia, sinónimo de Verbo

Sebastião da Gama. Foto © Espólio de Sebastião da Gama/Arquivo da Associação Cultural Sebastião da Gama. 

Sebastião da Gama. Foto © Espólio de Sebastião da Gama/Arquivo da Associação Cultural Sebastião da Gama.

[…] Na sua tese de licenciatura, o nosso poeta escreveu que “ao princípio era ela”, a Poesia, acrescentando que os homens poderiam nem ter sido criados “que nem por isso ela seria menos viva”, qualificando-a páginas antes como “presença misteriosa”, inapreensível pelos cinco sentidos, não sabendo dizer “como existe” ou “como se revela” (O Segredo é Amar). 

Ao princípio era a Poesia… Parece-me claro que Poesia é, nas palavras de Sebastião Artur Cardoso da Gama, um sinónimo do Verbo, na acepção que lhe foi concedida pelo apóstolo João […] (Jo 1, 1 – 4). 

Verbum é a tradução latina de lógos que, por sua vez, corresponde a um dos termos aramaicos (memrá) usados para não se pronunciar o sagrado tetragrama YHWH […]. Na versão do autor de Itinerário Paralelo, tal pode ser dito usando o grego poiésis, enriquecendo a semântica joanina e elevando a teologia de frei Agostinho [da Cruz], ao identificar a criação com o Criador. Se para o frade a criatura espelha ainda o Criador, dele sendo distinta, para o professor não se podem distinguir, sobretudo se estivermos a falar de um poema ou de uma melodia. Dizer Poesia é uma maneira de pronunciar o Santo Nome de Deus e de afirmar Cristo e o Espírito Santo. Daí que não seja possível defini-la, embora se saiba que desce (como as línguas de fogo do Pentecostes), expandindo-se ao levar às palavras o poder suficiente para se organizarem enquanto poema e, sobretudo, enquanto música (talvez silenciosa), sombras ou imagens especulares de uma entidade superna (na tradição neo-platónica) e presença amorosa do divino entre os seres humanos. […]

Os poemas de Sebastião são [um] canto de louvor, mas também (e complementarmente) um diálogo com o imanente e com o transcendente, percebendo o quanto não se podem separar, sendo o dualismo ultrapassado por um terceiro vértice na tríade: a palavra. E quem diz imanente e transcendente, diz corpo e alma, diz éros e philia, sublimados e elevados pelo espírito e pelo amor divino (agápê). A hierarquia é mais ou menos clara: no lugar inferior, o poeta; como intermediário ou dádiva, o poema; no vértice, a poesia, ou seja, Deus. […]

 

Serra, cabo e campo

Sebastião da Gama olhando a Arrábida: a serra (como já com frei Agostinho da Cruz é um sistema simbólico “visto” que se transformou, nos versos, em “símbolo pensado”. Foto © Espólio de Sebastião da Gama/Arquivo da Associação Cultural Sebastião da Gama. 

Sebastião da Gama olhando a Arrábida: a serra (como já com frei Agostinho da Cruz) é um sistema simbólico “visto” que se transformou, nos versos, em “símbolo pensado”. Foto © Espólio de Sebastião da Gama/Arquivo da Associação Cultural Sebastião da Gama.

Dito isto, ninguém se surpreenderá se eu concordar com Ruy Belo quando afirma que é “desorientador chamar a Sebastião da Gama o poeta da Arrábida e, não contente com isso, esfregar as mãos de alegria, como quem já disse tudo”. Também eu discordo do epíteto, pois é um facto que o espaço, nos seus poemas, “aparece transmutado, plasmado na obra”, constituindo “matéria, emoção subjectiva” e ingressando no texto “enquanto emoção criadora, […] veículo desse conhecimento obtido por união ou inclinação em que parece analisar-se o conhecimento poético” […]. 

Subscrevendo esta leitura tão justa, vou até um pouco mais longe. Nos poemas que venho considerando, a serra é sobretudo um arquétipo simbólico, o tal “símbolo visto”, criatura/pintura que torna presente, por meios misteriosos e ainda assim imperfeitos, o supremo Criador ou Pintor. […] 

Com todas a excelências e limitações de um ser que faleceu com vinte e sete anos, o escritor azeitonense encontrou na Arrábida, entendida enquanto território além da serra propriamente dita, a sua melhor semente numinosa. Interpretando os vértices fundamentais da poesia de frei Agostinho [da Cruz] (Natureza/Mundo, Palavra/Poesia e Deus/Amor Divino) e lendo a serra, Sebastião da Gama parece ter percebido que esse espaço só se poderia entender em profundidade desmaterizalizando-o e vendo nele uma manifestação sagrada. 

Se lermos com atenção os títulos das suas três primeiras obras, únicas editadas em vida, perceberemos aonde chegou: correspondem às três partes da Arrábida, tal como foi definida por Orlando Ribeiro, serra, cabo e campo […]:

a) Campo Aberto corresponde à Natureza, à criação, mas também ao mundo habitado e social, onde todos existimos e tentamos viver, abrindo-nos e esvaziando-nos das contingências, afastando-nos dos instintos e da corrupção. 

b) Cabo da Boa Esperança exprime a finisterra, a cessação de um mundo natural, por obra da palavra e da poesia, ou seja, pela acção criativa colaborante com Deus na produção de uma “pintura” que traga para junto de nós o Supremo Pintor; por isso o Cabo não é apenas fim da terra, mas início da esperança. 

c) Por fim, a montanha, Serra-Mãe, parece expressar a matriz, o tronco, a matéria gerada e geradora (mater), mas sobretudo o acidente natural que exige um movimento de assunção, incitando os seres humanos a subir a escada do Paraíso e a aproximar-se de Deus […]. 

Uma tríade teologal

Arrábida: a serra ofereceu um espelho onde Sebastião terá visto as três virtudes teologais, como vias de salvação do mundo. Foto © Diego Delso, delso.photo, CC-BY-SA, via Wikimedia Commons.

Arrábida: a serra ofereceu um espelho onde Sebastião terá visto as três virtudes teologais, como vias de salvação do mundo. Foto © Diego Delso, delso.photo, CC-BY-SA, via Wikimedia Commons.

Arrisco a ir mais longe. A Arrábida ofereceu um espelho onde Sebastião terá visto as três virtudes teologais, como emanações divinas, vias de salvação pessoal e do mundo: 

a) na serra, nesse lugar onde se oferece a liberdade, conforme a definiu frei Agostinho, o encontro com a ; 

b) no cabo, o encontro com a Esperança, a boa Esperança, aquela que nos faz olhar o futuro enquanto teofania; 

c) no campo, ou seja, na natureza e na sociedade, o exercício da Caridade, do Amor Divino transformado em Amor à criação, humana e natural (cf. Ventura, 2014a: 4). 

Essa tríade teologal, que ele terá visto nos símbolos toponímicos que estruturam verbalmente a Arrábida, está espelhada no poema que se pode considerar o centro e a síntese da sua obra. Publicado postumamente, intitula-se “O Sonho”. […]

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia. 

Chegamos? Não chegamos? 

– Partimos. Vamos. Somos. 

Fé, esperança e, subentendida, a caridade. Esta tríade será melhor compreendida se a associarmos à afirmação de que “O segredo é amar”, título de um poema de Cabo da Boa Esperança, utilizado por Matilde Rosa Araújo quando tratou de nomear a reunião dos ensaios e crónicas de Sebastião [cf. CBE, 49]. 

A etimologia explica que segredo, secreto e sagrado são palavras da mesma família, quase homónimas na raiz. Se trocarmos o verbo “amar” pelo nome correspondente, poderemos interpretar a frase num sentido mais elevado, talvez anagógico: “o segredo é amar” pode ser lido, assim, como “sagrado é o amor”.

[…]

Quatro Poemas

José Carlos Cantante na gravação do programa na Antena 1, dia 26 de Março: músicas entre a Bíblia e a vida. Foto © António Marujo/7MARGENS

A corda tensa que eu sou,
o Senhor Deus é quem
a faz vibrar…

Ai linda longa melodia imensa!…
– Por mim os dedos passa Deus   e então
já sou apenas Som   e não
se sabe mais da corda tensa…

Arrábida, 8.Jun.1944

(Serra-Mãe, 1945)

 

Quem me quiser amar,
que me leve
fechado no meu mistério…

Me leve
como um presente imerecido,
vindo não sabe de aonde
— sempre com medo que lhe fuja
da caixinha cor da bruma
em que se esconde.

Quem me quiser amar,
me leve, sem se importar
de perguntar o que eu valho.
— Já lhe basta essa alegria
de saber que me possui
de saber que eu valho mais
que quanto puder pensar.

Arrábida, 23.Abr.1944

(Serra-Mãe, 1945)

 

Alegoria 

Junto do Mar canta a Cigarra.
Canta, p’ra iludir
a fome e a solidão;
p’ra fingir que tem pão
e p’ra fingir que está acompanhada.

Tremeluzem os Astros no céu nítido:
Dona Cigarra faz serão.
Como há-de ela dormir, se a vida é curta?
—: Cigarra que se preza, quando morre
não deve estar a meio da canção.

Ninguém pára a saber por que é que canta.
Ninguém lhe dá ouvidos nem conforto.
Melhor, assim: assim, não perde tempo
quem não pode cantar depois de morto.

A parte que lhe coube por destino,
tem de morrer deixando-a já cantada.
Que faz que a não escutem nem lhe acudam?
É preciso é sentir que se está vivo.
É preciso é que as asas que sosseguem
o tenham merecido.

Canta a Cigarra à sombra da montanha
e à sua voz a solidão alastra,
deixa-a mais longe, sempre, dos que dormem.
Só a noite a entende e agasalha.
Mas a voz não acusa nem se cansa
nem laiva de azedume ou amargura.

Ei-la crucificada de indiferença.
Serve-lhe a Noite de mortalha.
Morno ainda do Canto,
seu coração evola-se em ternura
que vai poisar no sonho dos que dormem…

Arrábida, 24.Jul.1949

(Campo Aberto, 1951)

 

Foi necessário ter perdido tudo
para chegar à perfeição enorme
de não poder perder a confiança.
Já com riquezas vãs me não iludo.
Sei por fim que sou rico simplesmente
das coisas que deixaram de ser minhas.

12.Ago.1947

(Itinerário Paralelo, 1967)

Foto © António Marujo/7MARGENS

 

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