O nosso querido e ilustre teólogo frei Bento Domingues refere-se a Nossa Senhora como a «grande Mãe» do divino e do humano, realçando ainda a estrutura e cultura maternal do povo português [1]. Na sua liturgia dominical, os católicos maronitas comparam Maria à “boa Terra”. Tal como, na minha comunidade natal, eles têm raízes rurais, sendo agricultores ou pastores, com uma profunda ligação à Natureza e à Terra, da qual dependem para o seu sustento.

Nossa Senhora de Fátima (Portugal, 1917), Nossa Senhora Aparecida (Brasil, 1717) e Nossa Senhora da Paz são invocadas em Fátima, unidas pela mensagem de conversão, oração e intercessão pela Paz mundial.
No livro A Caixa de Correio de Nossa Senhora (edição Temas e Debates), referido em 6/4/25 no 7MARGENS, escreve-se que “os devotos falam de guerra e paz, fé e descrença, amores proibidos, saúde e dinheiro… Fazem-no como quem conversa com a amiga mais íntima”. Eu, pessoalmente, sempre conversei com essa amiga íntima que é Mãe e é Terra. Ademais, nas minhas idas do Monte Abraão para Lisboa, continuamente tinha de rezar a Salvé-Rainha. Foi relativamente a esta oração a última questão que me puseram num encontro catequético em 1964, no Santuário de Fátima, onde me foi atribuído um pequeno prémio, e que ainda hoje considero ter sido um enorme estímulo positivo, para além da devoção mariana previamente proveniente do meu interior.
Esta devoção não é um produto “meramente psicológico ou cultural”, mas “uma obra do Espírito Santo nos fiéis”. E tem ainda uma natureza pan-religiosa e universal.
Durante as tempestades que ocorreram recentemente, alguém me surpreendeu com a dádiva de um pequeno álbum fotográfico Kirishitan. A palavra quer dizer cristão, mas, especificamente, no referido álbum, refere-se aos missionários e suas obras durante o período de proibição do cristianismo no Japão. Fui vendo, até que alcancei uma página, em que estava escrito que num altar que parecia um oratório budista ou xintoísta, os cristãos ocultos colocavam uma imagem de Nossa Senhora com o Menino, e ali rezavam escondidos.
(Maria Kannon é o nome usado para imagens de Nossa Senhora com aparência budista.)
Mesmo em movimentos não cristãos, Maria surge como aquela que meditou profundamente e deu à luz um Ser superior. Para os devotos hindus, Maria pertence ao mundo superior das divindades. De modo idêntico, tal como Siddhartha Gautama (o Buda) e o taoísta Laozi (Lao-Tsé), Maria revelou o potencial espiritual da Humanidade e ilustra como o cristianismo não contradiz o ensinamento da Origem do Eu.

Uma pequena capela construída por pescadores pobres numa praia da costa de Chennai, na Índia, homenageia Nossa Senhora de Velankanni
Não podemos dissociar esta presença pan-religiosa de Maria da riqueza da piedade popular, se bem que Rizzuto (1981) dá importância à conjunção da psicologia e da religião para o desenvolvimento e progresso altamente personalizados da Transcendência, derivada de suas relações próximas e passadas com os outros e com o ambiente [2]. Achei mesmo muito interessante ler que Figlio (2006), considera importantes as implicações das questões da separação, da perda e da relação com a maternidade no fundamentalismo, apontando que os sistemas de crenças fundamentalistas tendem à identificação narcisista e idealização do ego.
A percepção da Trancendência ocorre dentro e através do eixo do relacionamento com os pais, iniciado através do relacionamento com a mãe.
Na perspectiva da arte sacra, Maria passaria a ser retratada, a partir do século XVII, como algo mais do que uma serva humilde e obediente, que aceitava passivamente a vontade de Deus. Ela participaria ativamente do triunfo de seu Filho sobre o pecado e a morte; por exemplo, no México, o pintor Miguel Cabrera e sua escola difundiram uma iconografia de Maria que se tornou tão popular, a ponto de Ela começar a ser representada a atacar o dragão de sete cabeças do Apocalipse; no Museu da Basílica de Guadalupe, encontra-se uma pintura, Alegoria de Nossa Senhora no Monte Carmelo, golpeando o dragão de sete cabeças com a ajuda de seu Filho, Jesus.
[1] Bento Domingues, A Religião dos Portugueses, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2018.[3] M Chambon. National Catholic Reporter 2023.
[2] A M Rizzuto: The Birth of the Living God. Edition of University of Chicago Press, 1981.
Maria Aldina Brás, trabalhadora rural na infância e adolescência. Geneticista médica e Professora aposentada da UNL. Autora de dois curtos E-books/PODs editados pela Sociedade Portuguesa de Autores: VIDA e PHILIA. Autora/co-autora de múltiplos artigos científicos cf. Researchgate e novaresearch.unl.pt. Católica.
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