Sankt Andreas Kirke, Copenhaga – Uma igreja nómada

| 21 Fev 20

Sankt Andreas Kirke, Copenhaga. Foto Mahlum/Wikimedia Commons

Gothersgade 148, 1123 København K, Igreja de Skt. Andreas. Era este o sítio a que nos devíamos dirigir quando nos interessámos por um concerto de música clássica, de entrada gratuita, por altura do Natal de 2009. Estávamos em fase de descoberta daquela que seria a nossa casa por 10 anos – Copenhaga, Dinamarca. Nessa altura, sabíamos tão pouco daquilo que nos estava reservado para aquele que agora chamo o “período escandinavo” das nossas vidas… Mas não será sempre assim?

Lá fomos, gostei muito do concerto, mas sobretudo gostei da atmosfera de acolhimento e simplicidade que se vivia naquele local, proporcionada por um grupo de pessoas que falava inúmeras línguas. Era impossível sentir-me uma outsider. Este era um concerto organizado pela comunidade da ICC (International Church of Copenhagen) uma congregação cristã inclusiva, multicultural, que se propõe aprender a conviver com Deus e com o Outro. “You are welcome, whoever you are, just as you are”, assim se lê em cada brochura, em cada gesto de acolhimento. Uma igreja centrada em Cristo, ecuménica na sua génese e na sua identidade.

Fomos atraídos pela música e ficámos 10 anos ligados a esta comunidade cristã. Para mim, a música foi sem dúvida um factor decisivo! Em cada domingo, participávamos numa celebração cuja qualidade musical era incrível: o pianista Alex, vindo da Arménia, sempre nos ofereceu momentos de inesquecível beleza musical, ao passo que a própria congregação na sua maioria falava fluentemente a linguagem musical, decifrando o livro de cânticos luteranos como quem lê o jornal.

A presença de vozes fortes e pujantes na comunidade encorajava-me a cantar sem medo de desafinar, sem preconceitos, por vezes arriscando a linha do baixo, sempre sentindo aconchego na harmonia do piano e nas vozes que se reforçavam mutuamente. Invariavelmente, o ritual da Comunhão era acompanhado por melodias simples, suavemente repetitivas, que convidavam à reflexão, ao recolhimento, e ainda hoje acompanham os meus momentos de silêncio quando converso com Deus.

Não apenas a música, mas também e talvez essencialmente, a identidade de igreja nómada tenha sido a revelação que mais intensamente me ligou e ironicamente me prendeu a esta comunidade. Foi revelador para mim perceber que não é importante por quanto tempo ficamos, mas sim que estamos presentes no momento, simplesmente.

Desculpem, não é fácil explicar… Por exemplo, o ritual de acolher os visitantes de fim-de-semana, pelo simples convite a apresentarem-se no final da celebração, “de onde vens, qual o teu nome”, a mim pareceu-me inicialmente invasivo, mas depois tornou-se gradualmente parte integrante da celebração, como quem festeja a chegada tão naturalmente como a partida, tudo fazendo parte das histórias humanas.

Assim como o bonito gesto de, em certo Domingo, termos celebrado os membros mais idosos da congregação que, pela natureza dispersa desta comunidade, se encontram longe dos seus filhos, netos, familiares mais próximos. Pensei na minha avó, nos meus pais a ficarem velhotes e como de certa forma o sorriso da Inge, da Helen, do John naquele dia, representassem todos os sorrisos do mundo, como se um ciclo de vida se cumprisse.

A música, o nomadismo e também o pragmatismo desta experiência de igreja, evocam para mim aspectos essenciais do período escandinavo da minha vida. Quando falo de pragmatismo, refiro-me por exemplo ao dia em que o meu terceiro filho nasceu e recebi das mãos da Aileen, que conhecera dias antes, um saquinho de brócolos cozidos e uma quiche de legumes pronta a aquecer para o jantar. Refiro-me às sessões de jardinagem no início da Primavera, em que toda a congregação se junta para cuidar do jardim da Church House: cada um traz as ferramentas de que dispõe e preparamos o terreno para a explosão de verde e cores que se cumpre sempre na Primavera escandinava.

Refiro-me também a uma cultura de participação real nunca antes experimentada noutro lugar, onde uma comunidade de leigos, homens e mulheres, decide lado a lado os destinos e “pragmatismos” da congregação, onde o pastor é apenas e tão somente conselheiro sábio. Estes “pragmatismos” vão desde decidir quando é necessário fazer obras ao telhado da casa, como reunir recomendações para nos tornarmos uma “igreja mais verde”, assim como delinear o processo de selecção de um novo sistema de som.

Volvidos 10 anos, chegámos agora a outro país, outro continente, e fomos calorosamente acolhidos por duas famílias que conhecemos durante o nosso período em Copenhaga. Nómadas como nós, para quem a chegada é celebrada tão naturalmente como a partida. Porque nunca sabemos por quanto tempo permanecemos num lugar, o essencial é darmo-nos generosamente enquanto lá estamos.

 

Ana Luísa Pimentel vive em Washington DC, Estados Unidos da América, é psicóloga, natural de Lisboa e viveu 10 anos na Dinamarca na sua primeira experiência de expatriada. É mãe de três filhos e casada com o Luís. Considera “casa” o lugar onde se sente bem acolhida.

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