
A imagem de Santa Eufémia, um dos santos da Lavandeira. Foto © Rúben Castanheiro
A romaria em honra de Santa Eufémia, na aldeia de Lavandeira, em Carrazeda de Ansiães, carrega consigo inúmeros segredos. A festa só tem lugar em meados de setembro, mas foi agora objeto de um estudo publicado na Revista Memória Rural, do Museu da Memória Rural, que recorda a tradição da carne de porco grelhada (a marrã), das promessas e dos certificados da missa celebrada pelo familiar defunto.
“É através do culto a Santa Eufémia que o nome de Carrazeda de Ansiães chega mais longe”, diz ao 7MONTES o autor do estudo, Cristiano Sousa, 35 anos, funcionário do município de Carrazeda e formado em turismo, com graduação em história de arte. Para ele, a romaria não é apenas um objeto de observação e análise, porque desde muito novo sempre participava, juntamente com a sua família, nesta romagem anual.
Apesar de não se saber ao certo como começou este culto, existem documentos históricos que remetem a sua origem para o século XV. A capela foi reestruturada e aumentada durante o século XVIII, ganhando a dignidade de igreja, tal como se apresenta nos dias de hoje. A romaria celebra-se sempre a 15 e 16 de setembro, embora o culto de Santa Eufémia ocorra a 16, dia que o calendário litúrgico católico dedica à santa, virgem e mártir. Mas, na Lavandeira, a festa profana começa no dia anterior.
“Antigamente, as pessoas, numa altura em que havia poucos carros, chegavam de véspera e espalhavam-se pela aldeia. Como as romarias juntam, habitualmente, as pessoas na noite anterior, começou-se a fazer, no dia 15 de setembro, o culto da marrã”, explica Cristiano Sousa, referindo-se ao assar da carne de porco nas brasas.
O culto da marrã nasce, assim, da necessidade de alimentar as gentes que iam chegando. Como o frio, em Trás-os-Montes, começa a chegar em setembro, os habitantes da Lavandeira matavam os porcos de véspera para dar de comer aos “peregrinos”, vendendo a carne assada em fogueiras e braseiras improvisadas nas ruas. E com o andar dos anos, juntou-se à festa profana a atuação das bandas filarmónicas.

A tradição da marrã, nos dias atuais. Foto: Direitos reservados
Já o culto religioso, iniciava-se às 8h da manhã, com as confissões. Depois, era sempre realizada uma missa por alma de todos os irmãos defuntos em várias localidades, desde Valpaços, a Alfândega da Fé e São João da Pesqueira. Era a conhecida “missa da irmandade”. Da parte da tarde, nova celebração da missa, agora em honra de Santa Eufémia, seguida da procissão. Entre umas e outra, os “peregrinos” tratavam de pagar as suas promessas, nomeadamente em azeite e em cereal.
Das promessas pagas não se passavam certificados. Mas das missas rezadas pelos familiares defuntos, sim. Segundo Cristiano Sousa, a coisa passava-se mais ou menos assim: “A família comunicava ao zelador da paróquia e depois entrava em contacto com a irmandade da Santa Eufémia para que fosse rezada uma missa em honra do familiar falecido. O padre da paróquia rezava a missa e emitia um certificado à família em que enviava as suas condolências e mencionava que tinha sido realizada a missa.”
No entanto, nenhum destes hábitos justifica a importância que a romaria da Lavandeira teve e continua a ter na região. “Acredito que a relíquia de Santa Eufémia tenha sido o principal fator de atração das pessoas”, diz Cristiano.

O relicário de Santa Eufémia. Foto © DR
O relicário contém um osso e uma peça de roupa que a tradição diz serem de Santa Eufémia de Calcedónia, uma virgem mártir que viveu naquela cidade (atual Turquia), por volta de 288 e foi morta por volta de 307. Estudos revelam que as relíquias podem ter chegado a Carrazeda através dos nobres da Vila de Ansiães.
Os relicários antigamente mais significativos encontravam-se nas catedrais e nas ermidas de peregrinação e eram muito venerados porque as pessoas acreditavam que através daquela peça pertencente ao santo, ou à santa, o pedido formulado por cada um a Deus pudesse ser por Ele atendido mais rapidamente por intercessão daquele santo, ou santa.
Apesar de ter lugar numa pequena aldeia, a romaria a Santa Eufémia de Calcedónia mantém-se viva até aos dias hoje e gera forte movimentação de “peregrinos”.

Um dos exemplos de milagres, atualmente disponível no Museu Abade de Baçal, em Bragança. Foto © Rúben Castanheiro











