Médica, música, mística

Santa Hildegarda, mulher de Deus em tempos medievais

| 8 Jan 2022

Hildegarda de Bingen (1098-1179) é uma doutora alemã em teologia que a Igreja ainda praticamente desconhece. Foi monja beneditina. Mas é sobretudo conhecida como mística, teóloga, compositora, pregadora, poetisa, dramaturga e escritora. Foi ainda médica e naturalista, deixando inúmeros escritos sobre estas matérias.

Santa Hildegarda de Bingen nasceu em Bermersheim vor der Höhe. Foi a décima filha de Hildebert e Mechtild. Desde a infância, já tinha visões místicas que, aliadas à sua frágil saúde, terão sido motivos para ser enviada para o mosteiro de Rupertsberg. Tal entrega de uma criança a um mosteiro era uma prática comum no século XII. Pelos três anos de idade Hildegarda teve sua primeira experiência espiritual, quando “viu uma luz de brilho deslumbrante que fez a sua alma tremer”.

Essas visões continuaram a repetir-se com frequência e a família preocupava-se com a sua extrema sensibilidade. Em Rupertsberg viveu até ao fim dos seus dias, tendo-se tornado abadessa do mesmo convento, pelos seus quarenta anos (Algumas informações deste texto foram extraídas do artigo “Hildegarda de Bigen” na Wikipédia.)

Hildegarda era determinada e teimosa, por vezes irreverente, recusando-se frequentemente a obedecer. A vida não lhe foi fácil: chegou a ser ameaçada de excomunhão.

 

Antecipar o “Renascimento”
Hildegarda de Bingen,

  Hildegarda de Bingen, A criação do mundo em seis dias, iluminura do Liber Scivias Domini

 

Aos oito anos de idade Hildegarda foi confiada aos cuidados de Jutta, filha do conde de Sponheim. Jutta era, ela própria, uma mística, responsável por um pequeno grupo de monjas de clausura que orientava e introduziu Hildegarda no modo de vida dos beneditinos, ensinando-lhe as primeiras letras e o latim através da leitura das Escrituras. Com Jutta, Hildegarda também aprendeu elementos de música. À medida que crescia, as visões de Hildegarda continuavam, mas ela própria não entendia a sua origem. Dizia que via e ouvia as coisas “em sua alma”.

Chegava a ter sensações tácteis e olfativas, e ao mesmo tempo “continuava alerta ao que se passava no mundo exterior e em plena posse das suas faculdades mentais e físicas”.

Na sua época os mosteiros beneditinos eram uma das melhores opções para os membros da aristocracia germânica que desejavam dedicar-se à religião; estavam entre os mais importantes centros de cultura da Europa medieval.

Santa Hildegarda desenvolveu uma atividade religiosa impressionante e múltipla. Ouso afirmar que foi uma mulher do Renascimento antes do tempo do Renascimento. Clarifico: ao jeito de Leonardo da Vinci, isto é, mulher de muitos ofícios.

 

“Chamada” por Deus a escrever
Hildegarda

Hildegarda escrevendo sob inspiração divina

 

Hildegarda descreve o momento em que entendeu que devia escrever:

E sucedeu no 1141º ano da encarnação de Jesus Cristo, Filho de Deus, quando eu tinha quarenta e dois anos e sete meses, que os céus se abriram e uma luz ofuscante de excepcional fulgor fluiu para dentro de meu cérebro. E então ela incendiou todo o meu coração e peito como uma chama, não queimando, mas aquecendo… e subitamente entendi o significado das exposições dos livros, ou seja, dos Salmos, dos Evangelhos e dos outros livros católicos do Velho e Novo Testamento. (Liber scivias domini)

Ao mesmo tempo uma voz lhe ordenou: “Oh mulher frágil, cinza de cinza e corrupção de corrupção, proclama e escreve o que vês e ouves.” (ibid.) Para que não restassem dúvidas, a ordem foi-lhe repetida por três vezes. Hildegarda imaginava-se indigna e isso atormentava-a. Temendo o que os outros iriam dizer dela se aparecesse como profeta, entrou numa crise interior e adoeceu. Foi nessa altura que escreveu os primeiros esboços do seu Liber scivias Domini (Livro do Conhecimento dos Caminhos do Senhor), com relatos das suas visões, mas somente cerca de 1147 procurou Bernardo de Claraval, já famoso, em busca de uma orientação para entender as visões que a atormentavam. A pedido de S. Bernardo, o Papa enviou um grupo de experimentados sacerdotes analisar as capacidades físicas e mentais de Hildegarda.

A partir de 1158 iniciou a sua segunda obra, o Liber vitae meritorum (Livro dos méritos da vida), onde examinou os vícios e as virtudes da vida humana, mas esteve doente ao longo de quase todo o período em que o escreveu.

Hildegarda era estudiosa, mas também dotada de muitos talentos. Embora a sua contribuição como música, teóloga e escritora tenha sido esquecida pouco depois da sua morte, posteriormente esta santa veio a ter grande influência na ordem beneditina. Foi considerada uma autoridade em assuntos religiosos pela Universidade de Paris e as suas ideias foram bastante divulgadas em Inglaterra até ao século XIV.

 

Mulher entre mulheres
Hildegarda de Bingen

Hildegarda de Bingen, A fonte da vida, iluminura do Liber Divinorum Operum

 

Outro aspecto da sua vida e obra que tem muito interesse para os dias de hoje é, em primeiro lugar, o facto de ela ter sido uma mulher respeitada numa sociedade patriarcal misógina que via as mulheres com olhos cheios de preconceito. Nessa época, como ainda nos tempos presentes, essa é a postura da Igreja tradicional relativamente às mulheres. Mas Hildegarda, graças à sua força moral e imensa cultura veio a corresponder-se em pé de igualdade com papas, altos prelados e autoridades da sociedade do seu tempo, sendo escutada atentamente por eles. Em segundo lugar, e não menos importante, estava o papel crucial que atribuía ao feminino na ordem do universo. Esta dimensão perpassa os seus escritos e desenhos/iluminuras. Usava nos seus textos imagens femininas alegóricas investidas de grande poder. Cria iluminuras para figurar a Fé, a Igreja e a Caridade. Detém-se em especial a figura da Sabedoria. É significativo que Hildegarda – estamos no século XII! – se recusasse atribuir a culpa do pecado original a Eva. Esta “visão” sobre a figura de Eva infelizmente não se tornou consistente nas concepções da igreja dos tempos ulteriores.

O próprio Deus, no seu tempo invariavelmente considerado uma entidade masculina, é descrito por ela muitas vezes como uma mãe amamentando a Criação e velando pela sua descendência. Mas é preciso assinalar que essa ênfase no feminino não a levou a uma negação do masculino, nem a um confronto direto com as definições da ortodoxia dogmática do Cristianismo. Ela terá procurado uma harmonização entre os opostos, o que também fez parte de uma tendência do seu tempo, se nos lembramos do crescimento do culto mariano, do qual ela mesma foi grande devota.

Chamaram-na “A Sibila do Reno”, a “Profetisa dos Teutões” e outros epítetos metafóricos, mas é importante lembrar sobretudo que ela se tornou um dos ícones do movimento feminista do século XX. Não me repugna que a apelidassem de profeta: foi uma mulher à frente do seu tempo. São de assinalar algumas das conquistas de Hildegarda. Foi a primeira mulher a ser considerada uma autoridade em assuntos teológicos. Foi a única mulher medieval a quem se concedeu o direito de pregar a doutrina cristã em público – talvez em virtude das suas “visões” intensas e apocalípticas. Concebeu o primeiro auto sagrado jamais escrito e a única dramaturga do século XII que não permaneceu anónima. Foi a única mulher medieval a ser lembrada como compositora de um extenso e qualificado corpo de obras musicais. E, interessante sobretudo para as mulheres: foi a primeira autora a escrever sobre sexualidade e ginecologia a partir de um ponto de vista feminino e, ainda, a primeira santa a ter uma biografia oficial que inclui textos autobiográficos.

Hildegarda foi a primeira de uma longa série de mulheres influentes tanto na religião como na política. Tornou-se uma representante típica da “aristocracia cultural beneditina”.

 

Mulher teóloga
Hildegarda de Bingen

Hildegarda de Bingen, O Homem divino

 

Deus é quem vive, é quem trabalha, e é quem conhece. Nele todas as coisas têm o potencial da perfeição. Todas as coisas se tornam distintas e perfeitas através daqueles três poderes… Deus está além da mente e do entendimento de todas as criaturas. Na claridade de seus mistérios e segredos Ele provê para tudo e governa sobre todos, assim como a cabeça governa todo o corpo. (Liber scivias Domini)

Hildegarda rompeu as barreiras dos preconceitos contra as mulheres que existiam no seu tempo, tornando-se respeitada como uma autoridade em assuntos teológicos. Hoje é considerada uma das figuras mais singulares e importantes do século XII europeu, e as suas conquistas têm poucos paralelos mesmo entre os homens mais ilustres e eruditos de sua geração. Os seus vários e extensos escritos mostram que ela possuía uma concepção mística e integrada do universo na sua complexidade. Lembro Karl Rahner que afirma que o cristão de hoje é necessariamente um místico. A solução para os problemas deste mundo, de acordo com as perspetivas de Hildegarda, deveria surgir da harmonia entre corpo e espírito, bem como entre natureza e vontade humana, e graça divina.

Muito tempo antes das teorias evolucionistas Hildegarda discorreu sobre assuntos complexos, como a criação do ser humano, a concepção, a estrutura e o destino do cosmos, entre outros. Tudo harmonizando caos e complexidade.

Em 1163, iniciou sua obra teológica mais notável, o Liber divinorum operum (Livro das obras divinas), com um comentário sobre o prólogo do Evangelho de São João – No princípio era o Verbo… – e sobre o livro do Génesis, aprofundando os temas já tratados no Scivias. A escrita dessa obra sofreu várias interrupções – muitas delas coincidentes com as doenças de Hildegarda ou com as suas viagens para fazer pregações. Só foi terminada em 1174, pouco antes de sua morte. Em 1165 as suas tarefas aumentaram com a fundação de um novo mosteiro em Eibingen, para receber o crescente número de monjas sob seus cuidados. Visitava-o duas vezes por semana e, nesse período, dizem os seus biógrafos, fez as suas primeiras curas milagrosas. Uma mulher consciente dos seus poderes!

 

Hildegarda pregadora
Hildegarda de Bingen

Hildegarda de Bingen, Visão mística da Trindade

 

 A partir de 1160, sempre por força de “comandos divinos” que lhe impunham doenças até que ela anuísse ao chamamento – o que fazia nem sempre de boa vontade ou imediatamente, e com receio da rejeição das pessoas – fez diversas viagens pela Alemanha e França a fim de pregar, um privilégio nunca outorgado a mulheres. Em 1161 visitou Colónia e outras cidades, indo até ao Ruhr.

Permaneceu sempre em atividade, escrevendo, debatendo com outros religiosos e atendendo à crescente multidão de pessoas que vinham em busca de seu conselho e dos remédios que preparava. Nesse período escreveu um comentário sobre a Regra Beneditina, a par de outros textos menos importantes. Além dos seus problemas de saúde e das dificuldades administrativas, em 1173 perdeu o seu colaborador de longa data, o monge Volmar.

Cerca de 1170, já idosa, uma visão ordenou que ela fizesse uma última viagem para outras cidades. De início não aceitou, como costumava acontecer. Quando finalmente acedeu, foi recompensada com a visão de um homem de aparência extraordinariamente formosa e de bondade amantíssima:

Ao vê-lo senti todo meu ser infuso de um perfume balsâmico. Então exultei com alegria imensa, e desejei permanecer na sua contemplação para sempre. E ele ordenou que os que me afligiam partissem e me deixassem em paz, dizendo: ‘Vão, não quero que a atormentem mais!’, e eles, partindo, gritaram: ‘Ah, sempre que viemos aqui saímos confundidos!’ Imediatamente, às palavras do homem, a doença que me afligia, como água empurrada pelo vento, se foi, e eu recuperei as forças. (Liber divinorum operum)

A autenticidade de seus escritos foi posta em dúvida: houve quem os considerasse da autoria de Volmar ou de algum outro autor escrevendo sob pseudónimo. Como se uma mulher não pudesse ter aquele nível de inteligência… Hildegarda foi ainda acusada de “protestantismo”, porque se atreveu a condenar os abusos de poder do clero.

Escreve ela:

Eu sou a suprema e incandescente força que acendeu todas as centelhas vivas, e eu não criei coisa alguma morta… e eu sou a vida ígnea da essência de Deus: Eu ardo acima da beleza dos campos, eu brilho nas águas, eu queimo no sol, na lua e nas estrelas… Sou também a Razão. É meu o trovão da sonora Palavra pela qual toda criação veio à existência, e eu animei todas as coisas com meu alento de modo que nenhuma é mortal em seu género, pois eu sou a Vida. (Liber divinorum operum )

 

Hildegarda ecologista
Hildegarda de Bingen

Hildegarda de Bingen, As estações e o cultivo da terra, iluminura do Liber divinorum operum

 

Para Hildegarda a colaboração entre Deus e a humanidade era indispensável, para que o universo chegasse à sua plena floração (opus per hominem floreat). Ao referir a Criação Hildegarda usa intuitivamente a palavra “floração”, pois em todos os seus escritos natureza e ser humano são sempre correlacionados e compartilham também de uma simbologia comum.

Hildegarda afirma:

Todos os elementos e todas as criaturas choram em alta voz diante da profanação da natureza e da devoção maligna da humanidade ao seu modo de vida de rebelião contra Deus, enquanto que a natureza irracional cumpre submissa as leis divinas. Eis o motivo pelo qual a natureza protesta tão amargamente contra a humanidade, ao que Deus respondia dizendo: ‘Eu os purgarei com minhas varas e os atormentarei até que voltem para mim…. os ventos terão fedor de putrefação e o ar vomitará tanta sujeira que as pessoas não ousarão sequer abrir as suas bocas’ . (Liber divinorum operum )

Que premonição teve Hildegarda e quão atuais as suas preocupações!

O dado mais original no seu pensamento foi ter analisado tudo numa perspectiva holística. Nisso o seu pensamento e visão são claramente modernos. Desse facto deriva a sua grande influência nos movimentos ecológico, pacifista e naturista dos tempos de hoje. Para Hildegarda não fazia sentido analisar um fenómeno específico isoladamente; antes era essencial ter uma visão do todo e dos múltiplos relacionamentos estabelecidos entre as suas partes. Hoje falaríamos na teoria sistémica.

Durante o Renascimento, a sua figura foi em parte redescoberta com a publicação de um relato um tanto fantasioso sobre sua vida, pelo abade de Sponheim, e as primeiras edições impressas do Scivias e do Physica foram publicadas na França em 1513 e em 1533, respectivamente.

Liber scivias Domini (Livro do Conhecimento dos Caminhos do Senhor) teve o esboço lido e aprovado pelo papa Eugénio III, e trouxe-lhe fama imediata. O público pretendido foi o dos clérigos e monges, com o intuito de corrigir sua indolência, como lhe ordenou Deus:

Mostrai-lhes a inutilidade dos mistérios que eles, tímidos como são, escondem em um campo oculto e estéril. Jorrai como uma fonte de abundância, e inundai-os com o conhecimento místico, até que eles, que agora te julgam desprezível por causa do erro de Eva, renasçam com as grandes águas de tua irrigação. (Scivias)

Representa a Igreja com uma imagem de mulher:

Então eu vi como se fosse uma imensa torre circular inteiramente construída de pedra branca, com três janelas no topo, de onde saía uma luz tão clara que até mesmo o teto cônico da torre parecia translúcido. As janelas eram decoradas com as mais belas esmeraldas. E esta torre estava colocada como que no dorso da imagem da mulher (a Igreja) que já citei, como uma torre que é construída na muralha de uma cidade, de forma que a imagem não poderia de forma alguma ser abalada por causa de sua solidez e força…

(…) Pois a razão pela qual viste uma grande torre redonda toda feita de pedra branca é porque a suavidade do Espírito Santo é imensa e engloba totalmente todas as criaturas em sua graça, de modo que nenhuma corrupção na integridade da plenitude da sua justiça a pode destruir; e, brilhando, indica o caminho e emana todos os rios de santidade na claridade de sua força, onde não se pode encontrar mácula alguma de insensatez. Portanto o Espírito Santo é um fogo cuja ardente serenidade, acendendo as virtudes ígneas, jamais será destruída e assim afugenta toda a escuridão” (Scivias)

 

Hildegarda cientista e médica
Hildegarda de Bingen

Hildegarda de Bingen, A tenda dourada, iluminura no Scivias

 

Nesta área, Hildegarda escreveu o Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum, (Livro das propriedades – ou sutilezas – das várias criaturas da natureza), dividido em Physica (Liber simplices medicinae) (Física – Livro da medicina simples) e Causae et curae-(Liber compositae medicinae (Causas e curas – Livro da medicina complexa).

Fez muitas observações da natureza com uma objetividade científica até então desconhecida, especialmente sobre as planrtas medicinais, compilando-as em tratados onde abordou ainda vários temas ligados à medicina,  concebendo métodos de tratamento para várias doenças.

Hildegarda “envolveu a sua produção científica e mesmo o seu trabalho teológico, dentro de uma moldura especificamente mística e simbólica, pois o interesse pela natureza, a instrução ética e a teologia não são necessariamente parte do universo místico e poderiam ter florescido numa perspectiva académica e/ou pastoral”.

Uma das explicações mais comuns entre os estudiosos desta santa é a de que ela se viu obrigada a tanto pela pressão do seu contexto sociocultural, numa época em que as mulheres eram objeto de desprezo generalizado.

Hildegarda também deu instruções de saúde a mulheres grávidas e a mães, com uma franqueza inédita em sua época. Abordou a sexualidade e suas disfunções, provendo remédios para elas. Fez também uma detalhada análise do desejo e do prazer, embora visse o ato sexual e o prazer positivamente, comparando-os à música, e o corpo humano a um instrumento musical.

Não se sabe como ela veio a adquirir o seu conhecimento; a sua atividade como médica foi toda informal e a sua formação nesse campo aconteceu provavelmente de forma autodidata, mas afirma-se que ela pode ter recebido uma base terapêutica prática com Jutta e os monges de Disibodenberg durante seu noviciado. Fazia parte das obrigações das superioras conventuais velar pela saúde de suas monjas, mas a prática profissional do ofício exigia formação universitária, o que era vedado às mulheres.

As pesquisas, observações e ideias de Hildegarda têm sido apontadas como uma referência para os adeptos modernos da medicina holística.

 

Hildegarda artista de muitas artes
Hildegarda de Bingen

Hildegarda de Bingen, O universo do ovo cósmico

 

Hildegarda é amplamente reconhecida pelas suas obras musicais. Ordo Virtutum (A Ordem das Virtudes) e Symphonia armonie celestium revelationum são exemplos das suas composições, muitas das quais eram cânticos com letras de sua autoria:

 

A técnica da música de Hildegarda insere-se em linhas gerais, mas com diferenças importantes, no contexto do canto gregoriano:

…a música de júbilo suaviza os corações endurecidos, e lhes extrai as lágrimas de compunção, invocando o Espírito Santo… e as canções atravessam (os corações) de modo que eles possam compreender a Palavra perfeitamente; pois a graça divina assim age, banindo toda escuridão, e tornando luminosas todas as coisas que são obscuras para os sentidos corpóreos por causa da fraqueza da carne. (Scivias)

Hildegarda via a música como parte essencial do ser humano – ele não poderia viver sem ela, pois reunia de forma única alma e corpo e também de certa forma colocava as pessoas numa dimensão paradisíaca:

Na música pode ouvir-se o som da paixão que arde no peito de uma virgem. Podemos ouvir o botão tornando-se flor. Podemos ouvir o fulgor da luz espiritual brilhando do céu. Podemos ouvir a profundidade do pensamento dos profetas. Podemos ouvir a sabedoria dos apóstolos espalhando-se pelo mundo inteiro. Podemos ouvir o sangue a pingar das chagas dos mártires. Podemos ouvir os mais íntimos movimentos do coração que caminha para a santidade. Podemos ouvir a alegria de uma menina diante da beleza da terra de Deus. Na música a criação devolve ao seu Criador o seu júbilo e a sua exultação; e dá graças pela sua própria existência. Também podemos ouvir na música a harmonia entre pessoas que antes eram inimigos e agora são amigos. A música expressa a unidade do mundo como ela era no princípio, a unidade que é restaurada através da penitência e da reconciliação.” (Scivias)

 As suas composições foram criadas para serem cantadas por mulheres e a temática do feminino é recorrente no texto: referências ao corpo na prática musical e à própria musicalidade do corpo. Ela disse que o cantor é como um instrumento musical de Deus, e que as palavras simbolizam o corpo, e a música jubilosa revela as atividades do espírito; a harmonia celestial nos mostra Deus, e as palavras, a humanidade do Filho de Deus. (Scivias)

Até pouco tempo, a sua música permaneceu ignorada pelos historiadores em virtude do seu estilo muito distinto das correntes principais da música medieval. No entanto, estudos recentes têm enfatizado a originalidade de sua criação, ao contrário dos seus contemporâneos.

O auto musicado Ordo Virtutum foi a primeira peça dramática do género a ser escrita. Deve ter sido composta cerca de 1151, quando ela estava finalizando o Scivias, e de facto uma primeira versão da peça aparece incluída no final do livro. É em linhas gerais uma dramatização musicada da luta de uma alma que caiu em pecado em busca de redenção. As personagens principais são a Alma, o Demónio e as personificações das várias Virtudes que ajudam ao resgate da alma caída. Por conseguinte o texto tem uma clara função moralizante. Cada Virtude tem pelo menos uma secção solo onde descreve as suas características. No final a Alma redimida é levada para o céu, enquanto que as Virtudes, lideradas pela Humildade, acorrentam o Demónio.

As iluminuras e desenhos de Hildegarda ilustram os seus livros e são consideradas verdadeiras obras de arte, expressando o seu misticismo e a forma como via o universo.

 

Hildegarda e a correspondência
Hildegarda

Hildegarda recebendo uma visão e ditando ao escriba, iluminura do Scivias

 

Conhecem-se cerca de 400 cartas de Hildegarda[1], dirigidas a pessoas de todas as classes sociais e tratando de uma variedade de temas, desde simples bilhetes com instruções práticas ou meros cumprimentos para alguém até discorrer longamente, como numa homilia ou sermão. Tais cartas são de enorme valor para que se possa formar uma ideia mais completa sobre a pessoa de Hildegarda e o seu percurso. Delas é possível extrair os seus escritos visionários. Mas em muitos casos os seus textos foram submetidos a revisões e censuras posteriores por mãos desconhecidas. De qualquer maneira, nas cartas encontra-se relatada uma ampla gama de aspectos do seu quotidiano – como lidava com os problemas administrativos da sua comunidade, como se relacionava com outras figuras históricas destacadas, como se posicionava e reagia às repercussões das suas obras, como percecionava o contexto social da sua época. Delas emerge a figura de uma mulher apaixonada, de convicções firmes, eloquente e destemida, audaz no trato com os poderosos mas possuidora de grande tato diplomático quando necessário, cuidadosa e atenta às necessidades das suas monjas e daqueles que a ela recorriam em busca de conselho. Não hesitou em usar a sua aura de profetisa para fazer valer as suas ideias e conquistar os seus objetivos, por vezes ameaçando os seus destinatários em nome de Deus. Hildegarda também aparece nas cartas como uma pessoa de grande erudição geral, o que contrasta fortemente com as negações públicas do seu mérito intelectual. Ela mesma se denominava como “uma pobre e humilde mulher sem estudos” (lembro Vitae de Teresa de Ávila), o que para os seus contemporâneos confirmava a procedência divina do seu conhecimento.

 

Hildegarda santa e doutora
Hildegarda de Bingen

Hildegarda de Bingen, Hierarquias angélicas

 

Em 1584 o Papa Gregório XIII autorizou a inclusão do nome de Hildegarda no Martirológio Romano como santa. João Paulo II descreveu-a como “uma santa extraordinária, uma luz para o seu povo e a sua época que nos dias de hoje brilha ainda mais intensamente.” Para desfazer quaisquer dúvidas que ainda pairassem sobre o seu estatuto de santa, em 10 de maio de 2012 o Papa Bento XVI proclamou publicamente a sua santidade e determinou que o seu culto fosse alargado a toda a Igreja Católica. Em 7 de outubro do mesmo ano, através de uma carta apostólica, proclamou-a como Doutora da Igreja, considerando “a ortodoxia da sua doutrina, a sua reconhecida santidade, a importância dos seus tratados, a sua influência sobre outros teólogos e também a atualidade do seu exemplo”.

Depois de um longo período de obscuridade, a vida e obra de Hildegarda de Bingen vem recebendo atenção crescente desde a segunda metade do século XX; os seus escritos começaram a ser traduzidos em várias línguas, muitos livros e ensaios já lhe foram dedicados e foram feitas inúmeras gravações com a sua música e coros.

 

Numa época em que não era comum as mulheres participarem das decisões políticas e religiosas, Hildegarda fez-se ouvir. Nas suas pregações, também condenava com muito desassombro coragem e veemência os vícios e abusos do clero.

 

Hoje, Hildegarda
Hildegarda de Bingen

Uma visão de Hildegarda

 

Evidentemente que a maior homenagem prestada a Hildegarda foi, claramente, a de ter sido declarada santa e doutora pela Igreja Católica, mas a sociedade civil moderna, nomeadamente os movimentos de mulheres e os ecologistas, também lhe tem dedicado outras formas de elogio. Recordo que o primeiro livro que li (em francês) sobre Hildegarda me foi oferecido e dedicado por Maria de Lurdes Pintasilgo em 1999.

Hildegarda de Bingen

Cartaz do filme

Hildegarda é a patrona do Prémio Hildegard von Bingen, criado em 1995 na Alemanha para distinguir jornalistas e publicitários (interessante!) que tenham dado uma contribuição humanitária importante no seu campo e promovido a pluralidade e o diálogo entre homens e mulheres. A sua vida foi objeto de um filme de Margarethe von Trotta, intitulado Vision – Aus dem Leben der Hildegard von Bingen, de 2009.

Já existem duas sociedades internacionais dedicadas ao estudo da sua vida e obra, a Internationale Gesellschaft Hildegard von Bingen, fundada na Suíça em 1980, organizando grupos de trabalho, conferências e publicando uma revista, e contando com cerca de 1.800 membros de vários países do mundo. A International Society of Hildegard von Bingen Studies, sediada desde 1983 nos Estados Unidos, também vem desenvolvendo uma atividade intensa.

Hildegarda tornou-se também um ícone dos muitos que querem viver um estilo de vida alternativa, mais simples, numa maior ligação à natureza.

Tendo celebrado a vinda de Jesus Cristo feito logos para dar testemunho de Deus faz sentido saborearmos um dos belos poemas de Santa Hildegarda de Bingen:

Nenhuma criatura tem sentido
sem a Palavra de Deus.

A palavra de Deus está em toda a Criação,
visível e invisível.

A Palavra é tudo o que vive,
todo o ser,
o espírito,
toda a criatividade verdejante.

A palavra irradia de cada criatura.

É assim que o espírito está na carne.

A Palavra é indivisível de Deus.

 

Bibliografia

 Amato , Angelo, Santa Hildegarda de Bingen. Paulus Editora.
Anne Lise Marstrand-Jorgensen, Hildegarda. Editora Lumen: Madrid, 2021.
Flanagan, Sabina. Hildegard of Bingen, 1098-1179: a visionary life. Routledge, 1998.
Helmut Posch, A Medicina de Santa Hildegarda. Paulus Editora.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hildegarda_de_Bingen (consulta feita a 20 de novembro de 2021)
Pernoud, Régine Hildegarde de Bingen: Conscience inspirée du XII siècle. Éditions du Rocher, 1994.
Xavier, M.L.L.O “Hildegarda de Bingen: As suas visões e as suas razões” (pp. 189-205). In: Luísa Ribeiro Ferreira (org), Pensar no Feminino. Lisboa: Editora Colibri, 2001.

Lista de obras
Teológicas e místicas

  • Liber scivias domini;
  • Liber vitae meritorum;
  • Liber divinorum operum.

Ciência natural

  • Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum, dividido em:
    • Physica(Liber simplices medicinae);
    • Causae et curae (Liber compositae medicinae).

Música e poesia

  • Symphonia armonie celestium revelationum(77 peças);
  • Ordo virtutum(auto sacro musicado);
  • Litterae ignotae;
  • Língua ignota

Miscelânea

  • Expositiones Evangeliorum;
  • Explanatio Regulae Sancti Benedictini;
  • Explanatio Symboli Sancti Athanasii;
  • Vita Sancti Ruperti;
  • Vita Sancti Disibodi;
  • Solutiones triginta octo quaestionum;
  • Epistolae.

[1] Cartas de Hildegarda de Bingen: Epistolario completo. Volume I eBook Kindle

Nota
Cartas de Hildegarda de Bingen: Epistolario completo. Volume I eBook Kindle

 

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e integra o Movimento do Graal; t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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