AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Jardim Místico, Carmelitas, Veneza,
O Jardim Místico das Carmelitas Descalças em Veneza, 2025. Foto © Ermanno Barucco, cortesia da Província do Véneto da Ordem das Carmelitas Descalças.

24 artistas inspiram-se em Hildegarda

Santa Sé convida Brian Eno, Patti Smith, Carminho e Ilda David’ para uma oração sonora na Bienal de Veneza

| 16/04/2026

Brian Eno, Patti Smith, Jim Jarmusch, Meredith Monk e as portuguesas Carminho e Ilda David’ serão alguns dos 24 músicos, compositores, poetas e artistas visuais que irão criar obras para o Pavilhão da Santa Sé na 61.ª Exposição Internacional de Arte – Bienal de Veneza, que decorre entre 9 de Maio e 22 de Novembro.

A participação do Vaticano terá como tema “O Ouvido é o Olho da Alma”, correspondendo desse modo à proposta do curador da Bienal, Koyo Kouoh, no sentido de a Exposição “abrandar o ritmo e sintonizar-se com um registo mais silencioso”. Por isso, o Pavilhão da Santa Sé, que tem Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers como curadores, em colaboração com o Soundwalk Collective, e que estará em dois espaços da cidade-laguna, “assume a forma de uma oração sonora, um apelo ao acto contemplativo de ouvir, inspirados na vida e no legado de Santa Hildegarda de Bingen (1098-1179), abadessa medieval, poetisa, curandeira e compositora”, proclamada doutora da Igreja em Outubro de 2012 pelo Papa Bento XVI.

Ilda David’ ficou “maravilhada” com o convite. Desde 1992, quando viu em Odivelas um concerto do Sequentia – Ensemble de Música Medieval que a pintora se apaixonou pela figura da monja e mística alemã, que foi também médica, teóloga, escritora e poetisa, entre as suas múltiplas capacidades (ver outro texto no 7MARGENS).

“Comecei a fazer uns cadernos, uns livros, sobre a Hildegarda, e dois dos livros vão estar expostos na Bienal em edição fac-símile”, diz a artista ao 7MARGENS. “Ela foi sempre uma fonte de inspiração”, acrescenta, sobre as suas obras, objecto quase “secreto”, conhecido pelo amigo e cardeal José Tolentino Mendonça, autor do convite e actual prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação (DCE), da Santa Sé, responsável pelo Pavilhão.

“Todos os dias é importante lembrar que existem estas pessoas. Hildegarda é uma personagem da alegria de viver, do atenuar dos sofrimentos, e precisamos de a tomar como amparo”, diz ainda Ilda David’.

As obras da artista portuguesa estarão no Complexo de Santa Maria Ausiliatrice, situado no sestieri Castello, um dos seis bairros da cidade. O espaço onde estarão os livros foi concebido pela arquitecta Tatiana Bilbao como um scriptorium medieval. A par dos trabalhos de Ilda David’, nesse mesmo espaço estará em exibição a última obra do cineasta e autor Alexander Kluge, que morreu no passado dia 25 de Março, aos 94 anos. Foi também Kluge que deu ao Pavilhão da Santa Sé o título “O ouvido é o olho da alma”.

 

Um scriptorium com um arquivo vivo

Património, Veneza, Santa Maria Auxiliadora

Complexo de Santa Maria Auxiliadora, Veneza, 2025. Foto © Dicastério para a Cultura e a Educação.

Este scriptorium não será já o lugar dos mosteiros medievais onde se copiavam e iluminavam os livros, mas acolherá “um arquivo vivo: a obra final de Alexander Kluge e a liturgia sonora em paralelo das freiras da Abadia de Eibingen”, cujo arquivo foi comissariado em estreita colaboração com a irmã Maura Zátonyi e a Academia Santa Hildegarda.

No interior do arquivo, explica ainda o DCE, os visitantes encontrarão uma biblioteca multilingue de textos hildegardianos, os livros de Ilda David’ e a nova arquitetura monástica do estúdio de Tatiana Bilbao Estudio. No caso da obra de Kluge, ela consta de “uma imponente instalação de filme e imagem em doze estações que se desenrola por três salas, dentro da lógica industrial da restauração em curso do edifício”. De facto, o Complexo de Santa Maria Ausiliatrice é uma evolução do Pavilhão da Santa Sé na 19.ª Exposição Internacional de Arquitetura da Bienal, e pretende dar “continuidade ao compromisso sustentado com o local” e com o projecto arquitectónico de Tatina Bilbao e da Maio Architects, Opera Aperta.

“É maravilhoso partilhar aquele sítio com estes curadores”, diz a pintora, referindo-se a Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers, que tiveram a colaboração do Soundwalk Collective.

Não é a primeira vez que Ilda David’ tem uma colaboração importante com o actual cardeal Tolentino. Em 2006, a pintora ilustrou os oito volumes da tradução do texto da Bíblia feita por João Ferreira d’Almeida (1628-1691), a primeira tradução praticamente integral da Bíblia para português, feita no século XVII na Indonésia (então colónia holandesa).

Esses oito volumes foram publicados pela Assírio & Alvim e Círculo de Leitores, mas já antes a pintora ilustrara uma edição do livro bíblico Cântico dos Cânticos traduzida por Tolentino Mendonça.

Carminho, por seu lado, colaborou algumas vezes com o então padre Tolentino na Capela do Rato, da qual ele foi responsável, e cantou Estrela, perante o mais de milhão de jovens participantes na Jornada Mundial da Juventude. Essa participação na vigília com o Papa Francisco ficou seguramente como um dos momentos altos da JMJ de Lisboa.

 

Os outros artistas que aceitaram o convite da Santa Sé e do seu Dicastério para a Cultura incluem ainda nomes como a cantora e produtora FKA Twigs, a organista e compositora Kali Malone e o Soundwalk Collective, que faz a ponte entre Berlim e Nova Iorque e colaboram com os curadores na realização do Pavilhão.

Navegando entre a ousadia e o experimentalismo sonoro, integrando linguagens electrónicas de dança e vanguarda, vozes etéreas, órgãos minimalistas e paisagens sonoras imersivas numa profunda meditação sobre o som e a escuta, são outros dos nomes que se enquadram na concepção do Pavilhão e na resposta ao desafio do curador da Bienal.

Além dos já referidos, a lista inclui artistas originários ou com ascendência da Europa, Estados Unidos, África, América Latina e Índia. A participação musical e sonora estará no espaço do Jardim Místico das Carmelitas Descalças, no bairro de Cannaregio e incluirá ainda as freiras beneditinas da Abadia de Santa Hildegarda Eibingen, que mantêm o canto de muitas das composições da sua antecessora. Diga-se que, tal como na pintura, na escrita e noutras áreas, Hildegarda foi prolixa na música: a gravação das suas obras completas pelo Ensemble Sequentia tem nove hora de duração, que podem ser ouvidas na íntegra no canal YouTube:

 

Neste Jardim Místico, o DCE diz que as obras dos 20 músicos, compositores, poetas e artistas irão “responder aos cantos, escritos e imagens visionárias de Hildegarda através da voz, da instrumentação e, por vezes, do silêncio”. Ou seja, “os visitantes são convidados a reflectir e a ouvir através de auscultadores estas novas encomendas”, a par de “um instrumento específico para o local criado pelo Soundwalk Collective, que escuta o jardim em tempo real”.

Composto pelo artista Stephan Crasneanscki e pelo produtor Simone Merli, o Soundwalk Collective “integra som, cinema e multimédia em obras de arte específicas para determinados locais e contextos”, refere a nota do Dicastério do Vaticano. “Evoluindo ao longo de linhas multidisciplinares”, a dupla já teve colaborações criativas com o realizador Jean-Luc Godard (1930-2022), a cantora e escritora Patti Smith, a fotógrafa americana Nan Goldin, a coreógrafa alemã Sasha Waltz, o realizador e músico Jim Jarmusch, e a actriz e cantora Charlotte Gainsbourg, entre outros.

“No centro da sua filosofia artística está a exploração do som como meio para navegar e interpretar as complexidades da experiência humana e do ambiente. Ao fazê-lo, a sua prática explora o potencial narrativo do som em diversos meios, tais como instalações artísticas, dança, música e cinema.”

A propósito, o DCE cita o Papa Leão XIV, no seu encontro de Novembro passado com o mundo do cinema: “A lógica dos algoritmos tende a repetir o que ‘funciona’, mas a arte abre o que é possível. Nem tudo tem de ser imediato ou previsível.”

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Das cantigas de amigo à vinha

[Metáforas vivas]

Das cantigas de amigo à vinha novidade

Este texto corresponde à homilia de domingo, 4 de outubro, [domingo xxvii do tempo comum ― a ― 2026; 1º dia da semana da educação cristã; 800 anos da morte de S. Francisco], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This