Canonizados Foucauld e mais nove

Santidade “ao pé da porta” e entre as panelas na cozinha, pede o Papa

e | 15 Mai 2022

Canonização de Charles de Foucauld e mais nove santos. Foto © Tony Neves

Canonização de Charles de Foucauld e mais nove santos. Foto © Tony Neves

 

Muitas vezes se fez da santidade “uma meta inacessível” e separada “da vida de todos os dias, em vez de a procurar e abraçar na existência quotidiana, no pó da estrada, nas aflições da vida concreta e – como dizia Teresa de Ávila às suas irmãs – ‘entre as panelas da cozinha’.” A afirmação é do Papa Francisco, na sua homilia da missa celebrada neste domingo, 15, em plena Praça de São Pedro, durante a qual proclamou dez novos santos católicos – entre os quais Carlos de Foucauld, o eremita do deserto do Sara que acabou por influenciar a família das Fraternidades dos Irmãozinhos e Irmãzinhas de Jesus.

Com esta celebração, a praça voltou a um ambiente naturalmente festivo – pela circunstância de se viver um rito de canonizações, mas também porque a celebração marcava o regresso dos grandes acontecimentos e das multidões à Praça de São Pedro, após mais de dois anos de pandemia em que esta esteve com acesso limitado.

Foi precisamente Carlos de Foucauld que mais entusiasmo levantou, quando foram referidos os nomes dos novos santos: Tito Brandsma, Lázaro dito Devasahayam, César de Bus, Luís Maria Palazzolo, Justino Maria Russolillo, Carlos de Foucauld, Maria Rivier, Maria Francisca de Jesus Rubatto, Maria de Jesus Santocanale e Maria Domingas Mantovani. Seis homens e quatro mulheres; padres, religiosas e um leigo; dois mártires e sete fundadores de institutos religiosos; oriundos de França, Itália, Índia, Países Baixos e Uruguai.

É necessária “uma conversão da ideia de santidade” que muitas vezes se tem. Por vezes, disse o Papa, esse ideal é “demasiado fundado em nós mesmos, no heroísmo pessoal, na capacidade de renúncia, nos sacrifícios feitos para se conquistar um prémio”. Mas o caminho da santidade “é universal” e o apelo é feito a todas as pessoas.

Nas cerca de 70 mil pessoas que terão participado na celebração (entre os quais uns cinco mil concelebrantes, incluindo uma centena de bispos e uns 20 cardeais), sobressaía o elevado número de indianos e outros asiáticos em geral, , africanos, americanos do norte e do sul – além, naturalmente, de muitos italianos (nomeadamente de Nápoles e Sicília, regiões de origem de alguns/umas dos novos santos).

A ideia da santidade como um ideal ao alcance de todos esteve presente mesmo numa das intenções da oração universal rezada na missa: “Rezemos pelos santos da porta ao lado”, que incluiu pais e mães na educação dos filhos, e ainda o pedido de paciência e esperança aos doentes e agonizantes e aos trabalhadores.

Uma outra oração teve como intenção os “violentos e [os] semeadores de ódio”: “Que o Deus do amor suscite caminhos de conversão e reconciliação, elimine a violência das nossas palavras e ações e faça germinar o mandamento do amor, com gestos concretos e autênticos.”

O Papa referiu vários exemplos de santidade: os consagrados “vivendo com alegria” a sua doação, membros do casal “cuidando” um do outro, trabalhadores “cumprindo com honestidade e competência” o seu trabalho e “lutando pela justiça a favor” dos companheiros, pais e avós “ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus”, responsáveis políticos “lutando pelo bem comum e renunciando” a interesses pessoais. “Esta é a estrada da santidade: ver sempre Jesus nos outros”, concluiu.

Entre as delegações e personalidades presentes, destacava-se o Presidente da República italiana, Sergio Matarella, católico praticante e figura prestigiada em Itália.

 

Um imenso esforço

O Papa Francisco chegou de automóvel à zona do altar, por imposição das suas precárias condições de mobilidade. Francisco fez um imenso esforço para se por de pé e dar poucos passos até ao altar bem como, mais tarde, para se manter de pé durante a Oração Eucarística. Correm rumores em Roma de que o Papa poderá ser operado ao joelho e pelo menos a uma das ancas num dos próximos dias (porventura já nesta segunda-feira).

Em contraste, o tom da voz na homilia era o de sempre: cheio de convicção e de vigor, com diversos apartes e uma grande capacidade de comunicação. O mesmo se diga das saudações pessoais, no final da celebração, aos bispos presentes, e o entusiasmo irradiante que suscitou a sua passagem no papamóvel aberto, quando no final percorreu, ao longo de quase 20 minutos, as alas da Praça de S. Pedro.

“Ser discípulo de Jesus e caminhar pela via da santidade é, antes de mais nada, deixar-se transfigurar pela força do amor de Deus”, afirmou ainda o Papa na homilia. “Servir, isto é, não colocar os próprios interesses em primeiro lugar; desintoxicar-se dos venenos da ganância e da preeminência; combater o cancro da indiferença e o caruncho da autorreferencialidade, partilhar os carismas e os dons que Deus nos concedeu.”

Com esta celebração, recorda a agência Ecclesia, o número de santos proclamados por Francisco, desde 2013, ultrapassa os 900, incluindo várias figuras ligadas a Portugal: Francisco e Jacinta Marto, videntes de Fátima, canonizados a 13 de maio de 2017 na Cova da Iria; Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), arcebispo de Braga, por canonização equipolente (dispensando o milagre requerido após a beatificação); o padre português Ambrósio Francisco Ferro, morto no Brasil a 3 de Outubro de 1645 por tropas holandesas; o padre José Vaz, nascido em Goa, então território português, a 21 de Abril de 1651, que foi declarado santo no Sri Lanka; e José de Anchieta (1534-1597), religioso espanhol que passou por Portugal e se empenhou na evangelização do Brasil.

 

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