Santo António de Lisboa, de Pádua, do mundo

| 11 Jun 21

Morazone (?), Santo António e o Menino Jesus, óleo sobre tela, ca. 1615, Staaliche Kunstsammlungen Dresda

 

Com base nos tradicionais elementos da iconografia antoniana e nas recentes palavras do Papa Francisco (em carta redigida para assinalar os 800 anos da vocação franciscana de Santo António), tentamos pintar um retrato realmente atual do Santo de Lisboa.

O Papa Francisco, dirigindo-se explicitamente aos jovens, lembra assim a atualidade de Santo António: “Penso sobretudo nos jovens: que este santo antigo, mas tão moderno e genial nas suas intuições, possa ser para as novas gerações um modelo a seguir, para tornar fecundo o caminho de cada um.”

Tentemos ver, a partir da tradicional iconografia antoniana, em que consiste esse “modelo a seguir”.

 

Símbolos de santidade para os nossos dias

A iconografia tradicional apresenta Santo António com uma auréola irradiante na cabeça (=santidade); com o hábito franciscano (=mesma vocação e ideal de S. Francisco de Assis); com o Evangelho na mão (= amor da sabedoria e pregação da Palavra); com um facho de luz e fogo que lhe brota das mãos (= amor de Deus traduzido no amor ao próximo); com uma cruz (= mistério da Salvação operada pela doação total de Cristo); com o lírio (= juventude e pureza de coração); e o Menino Jesus (= ternura e devoção franciscana pelo mistério da Encarnação e pelo Divino Menino de Belém).

Auréola: simboliza a santidade, vocação de todo o cristão e o grande ideal que Santo António abraçou e perseguiu desde tenra idade. Segundo Santo António, “a justiça dos santos é uma espécie de fio de prumo estendido sobre qualquer alma fiel, para que informe e meça a sua vida pelo exemplo dos santos” (Sermões). Como precisamos desta verticalidade dos Santos! Quanto carecemos de vozes que preguem a justiça dos santos que, antes de serem santos no céu, o foram na terra!

Tocado e inspirado por Francisco de Assis, António trocou o hábito de monge dos cónegos regrantes pelo hábito de S. Francisco de Assis. Pintura atribuída ao círculo de Fr. Carlos, séc XVI. Museu Nacional de Arte Antiga.

Hábito franciscano: tocado e inspirado por Francisco de Assis, Santo António trocou o hábito de monge canónico pelo hábito de S. Francisco de Assis. O próprio confessa, num dos seus sermões, o impacto que nele teve o primeiro encontro com o S. Francisco: “Vendo o Pobrezinho paciente, grande penitente, pobremente vestido e tão devoto… fiquei impressionado e admirado. Esta impressão transformou-se imediatamente em desejo de imitá-lo” (Sermões). Não é o hábito que faz o santo, mas o hábito de imitar os santos continuará a fazer santos, também hoje. E quanto precisamos deles!

Evangelho: é a grande fonte da vida e da pregação de Santo António. A palavra de Deus é o seu pão que partilha com os pobres. Diz Tomás de Celano, primeiro biógrafo de S. Francisco, que “Frei António foi um homem a quem Deus concedeu a inteligência da Sagrada Escritura e o dom de pregar Cristo ao mundo inteiro com palavras mais doces que o mel” [1 Cel 48]. O Papa Gregório IX, apelidou-o de arca do Testamento e cofre das Sagradas Escrituras. Nos seus Sermões, Santo António falou muitas vezes do “semeador que é Cristo, ou quem O anuncia; a semente é a palavra de Deus… Vê quão divinamente a palavra de Deus se diz semente deitada na terra para germinar e crescer(Sermões). Como o Papa Francisco não se cansa de lembrar, o mundo de hoje continua especialmente carente desta “alegria do Evangelho”.

Menino Jesus: é a prova do seu amor a Cristo, centro e alimento da vida de S. António. Na sua vida não fez mais do que partilhar com os outros este “Pão da Vida”: “Correi, portanto, famintos, avarentos e usurários, para quem o dinheiro vale mais do que Deus, e comprai o grão de trigo que a Virgem tirou hoje do armário do seu ventre. Deu à luz um Filho.” (Sermões). O Papa Francisco exorta e deseja que todos “possam repetir com Santo António: ‘Eu vejo meu Senhor’”, acrescentando que “é necessário ver o Senhor no rosto de cada irmão e irmã, oferecendo a todos consolação, esperança e a possibilidade de encontrar a Palavra de Deus sobre a qual ancorar a própria vida”.

santo antonio azulejo cruz

“Santo António a pregar aos peixes, em azulejo: o santo “ensina-nos que também da cruz das nossas vidas podem brotar frutos de vida eterna.” 

 

Cruz: a cruz é a sua âncora de esperança e a prova máxima de amor de Deus pela humanidade. A ela se abraçou Santo António, ou melhor: ela é o abraço do Deus que nos ama que tudo e a todos nos abrange, porque é “a árvore da vida que produziu o seu fruto, restituindo a salvação à humanidade” (Sermões). Mas a cruz é também o “bastão de que necessita o peregrino” a caminho da pátria (Sermões). Santo António ensina-nos, assim, que também da cruz das nossas vidas podem brotar frutos de vida eterna.

Coração: o coração é, nas palavras do Santo, a sede do amor: “Onde estiver o nosso tesouro aí está o nosso coração.” O tesouro de Santo António era Cristo que ocupa todas a fibras do seu coração e transborda em palavras e gestos cheios do calor de Deus. Santo António lembra que “o que mais perturba o coração é a perda do objeto amado. Cristo prevenira os Apóstolos da sua paixão. Porque o amavam muito, temiam perdê-lo e, por isso, se perturbavam”. António é o Santo do amor, não por ser “casamenteiro”, mas por saber falar ao coração numa linguagem que todos compreendam.

santo antonio lirios

Santo António com o Menino e lírios: o lírio simboliza os combates que todos têm de travar para perseverarem na retidão e justiça do coração, rejeitando toda a corrupção.

Lírio: o lírio significa a juventude e doação a Deus e aos irmãos, segundo o modelo de Maria. Por isso, muitas vezes, Santo António aparece também ao lado da Virgem Maria. Lembra Santo António que “O lírio significa a Virgem Santíssima, cândida com o esplendor da virgindade… Os lírios do campo mostram, ainda, a perfeição da caridade, enquanto se expõem a todos os que os desejam apanhar”. Por isso, esta flor é também o símbolo dos combates que todos os humanos, como Santo António, têm de travar para perseverarem na retidão e justiça do coração, rejeitando todas as formas de corrupção. Podemos ainda ver, neste símbolo, o Santo que, como e com S. Francisco de Assis, pregou a ecologia integral. Como lembra Agustina Bessa Luís, “Santo António é o único santo que compartilha a santidade com todas as criaturas” (Santo António, 1973, p. 293).

Sandálias: simbolizam os muitos caminhos percorridos por Santo António, o qual, como Francisco de Assis, foi realmente um cristão em saída. Não teve medo de sair do conforto da família (Lisboa), sair da segurança dos muros de Santa Cruz (Coimbra); partir em missão para Marrocos e, depois, por Itália e França, tornando-se cidadão do mundo todo, como já disse o Papa Leão XIII. Podemos ainda ver neste símbolo a esperança pregada por Santo António: “o contrário da esperança é olhar para trás”. Assim se tornou o primeiro missionário português, o primeiro santo europeu e mundial e o grande modelo de todos os amantes da aventura missionária e solidária.

Pão de Santo António (2)

“Quem não dá e fecha o coração ao seu irmão pobre peca mortalmente porque não existe nele a caridade de Deus”, escreveu Santo António nos seus Sermões. 

 

Saco do pão: significa o amor pelos pobres. Porque a caridade é expressão da justiça: “ao justo pertence a humildade e a caridade, diz o Santo. Por isso, apela: “Dai aos pobres… quem não dá e fecha o coração ao seu irmão pobre peca mortalmente porque não existe nele a caridade de Deus… Entesoura no céu aquele que dá a Cristo; dá a Cristo aquele que dá ao pobre(Sermões).

Recordando a viagem de Santo António a Marrocos e, depois, até à Sicília, o Papa Francisco (Carta por ocasião dos 800 anos da Vocação Franciscana de Santo António) vê nesta atribulada “migração” do Santo lisboeta um “Símbolo do itinerário de conversão” proposto a todos. Mas vê também a triste coincidência, que hoje nos deve interpelar, entre o naufrágio do Santo e o drama “de tantos nossos irmãos e irmãs” que arriscam atravessar o Mediterrâneo na esperança de melhores condições de vida. Felizmente, Santo António encontrou irmãos que o acolheram. Para o Papa Francisco, o exemplo da partilha de António “com as dificuldades das famílias, os pobres e desfavorecidos, assim como sua paixão pela verdade e justiça, ainda hoje pode suscitar um generoso compromisso de doação, em sinal de fraternidade”. Frattelli Tutti: eis o repto lançado aos jovens de hoje.

 

Isidro Lamelas é padre da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

 

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