Santo António, S. Judas Tadeu, Buda e as causas impossíveis

| 22 Jan 20

Imagens de Santo António e Buda num táxi, em Colombo (Sri Lanka). Foto © André Alves

 

Entrei no táxi. Saltou-me à vista uma imagem de Santo António sobre o tablier e para desbloquear a conversa perguntei:

– Sabe que aquele senhor nasceu na mesma cidade que eu?

Thilak, o motorista, numa tentativa de não me desapontar, respondeu rápido:

– Itália?

– Não…

– Portugal?

– Sim, em Lisboa.

– O Santo António faz muitos milagres no Sri Lanka, sabe?

– O senhor é católico?

– Eu sou católico romano, mas a minha mulher é budista. Por isso tenho a imagem de Buda ao lado da de Santo António.

 

Sabendo eu da predominante presença católica em Negombo, perguntei se era dessa região. Disse que não, que era de Gampaha, mais a leste, onde também há muitos católicos.

Há uns tempos, alguém me perguntava sobre a tolerância religiosa no Sri Lanka a propósito dos alegados milagres de São Judas Tadeu, o patrono das causas impossíveis, ao qual recorrem pessoas de diferentes religiões no santuário de Indigolla, precisamente em Gampaha nos arredores de Colombo.

Nessa altura tive alguma dificuldade em aceder à presunção de que a harmonia religiosa neste país seja algo real como ainda me parece não ser.

A distribuição étnico-religiosa pela população de cerca de 22 milhões de habitantes ajuda a entender a dificuldade de chegar à desejada harmonia. A etnia cingalesa representa cerca de 75% da população. Os budistas cingaleses são cerca de 70%. Os católicos estão distribuídos entre a etnia cingalesa e a tamil e representam somente 6% da população. O hinduísmo é essencialmente tamil (12%), enquanto que o islão se concentra nos moors (9%).

Se, por um lado, a Constituição nacional prevê a igualdade para todos os cidadãos, também define o budismo como a religião nacional. Esta incongruência leva-me a pensar que as razões que mantiveram a guerra civil durante mais de vinte e cinco anos e as feridas que ela provocou não estão completamente saradas.

Aliás, desde o final da guerra que se assiste a um crescimento da influência dos nacionalistas cingaleses budistas que divide o país e dá cobertura a novos episódios de violência. Depois de um período pós-guerra relativamente calmo, em março de 2018, o governo viu-se obrigado a declarar o estado de emergência após uma série de episódios de violência contra pequenos estabelecimentos detidos por muçulmanos. Foram incentivados pelo movimento extremista budista cingalês Bodhu Bala Sena e pelo seu líder, o monge Gnanasara Thero, que foi detido, condenado e logo indultado pelo Presidente da República Maithripala Sirisena e, posteriormente, por este recebido na sua residência oficial.

Sinal dos receios da população com o crescimento da violência será a recente eleição de Gotabaya Rajapaksa para a presidência da República com uma representativa maioria de 52%. Gotabaya pertence ao SLFP, o partido que estava no poder em 2009 aquando da eliminação da ameaça terrorista dos Tigres Tamil e o final da guerra, era Ministro da Defesa e é irmão do então presidente Mahinda Rajapaksa. A sua eleição representa uma viragem à direita a que não será alheia a incerteza causada pelos violentos acontecimentos do início de 2018, da crise constitucional de finais do mesmo ano e os ataques do dia de Páscoa do ano passado a várias igrejas, que mataram mais de 200 pessoas.

Sem a coragem de implementar medidas políticas práticas e concretas para efetivar e incentivar a constitucional igualdade, dificilmente se verá uma alteração da atual incerteza. Esperemos que o novo Presidente o deseje e esteja à altura do desafio tão necessário ao desenvolvimento social e económico deste país.

 

Perguntei então:

– A sua mulher vai à igreja consigo?

– Vai. E eu também vou ao templo com ela. Quando se acredita em Deus, a religião não é importante.

 

Colombo, 20 de janeiro de 2020

 

André Vasconcelos Alves é arquiteto, expatriado no Sri Lanka

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Igreja Católica no Brasil critica decisões de Bolsonaro e diz que “sensato” é ficar em casa novidade

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro incluiu as atividades religiosas na lista das atividades consideradas essenciais e autorizadas a funcionar no país durante o estado de emergência provocado pela pandemia de covid-19. Mas a Igreja Católica reagiu contra o decreto publicado quarta-feira, 26, reiterando os apelos para que todos permaneçam em casa e mantendo a suspensão das celebrações religiosas com presença de fiéis.

Semana Santa sem povo é para evitar o contágio e não a fé, diz responsável do Vaticano novidade

A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos publicou um decreto com as normas a seguir nas celebrações da Semana Santa (que se inicia no Domingo de Ramos e termina no Domingo de Páscoa), dirigido aos países afetados pela pandemia de covid-19 onde estão em vigor medidas de isolamento social. Os bispos e sacerdotes deverão celebrar os ritos sem a participação dos fiéis, evitar as concelebrações, e omitir alguns momentos específicos, nomeadamente o abraço da paz e a procissão do Domingo de Ramos.

Coronavírus nos campos de refugiados Rohingya será “um novo massacre”

Com a chegada da pandemia de covid-19 ao Bangladesh, o líder da comunidade Rohyngia, Mohammad Jubayer, teme que esta alastre no campo de refugiados do sul do país, o maior do mundo, onde vive quase um milhão de pessoas. Será como “um novo massacre, muito maior do que o que aconteceu em 2017”, quando esta minoria muçulmana fugiu da perseguição na Birmânia, alertaram grupos de ativistas, em declarações à AFP.

PAR alerta para tragédia nos campos de refugiados e pede intervenção junto da Grécia

Mais de 40 organizações humanitárias, entre as quais a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) e o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), pediram já ao Governo grego que, em coordenação com as instituições europeias, “tome as medidas de saúde públicas necessárias” para proteger “todos os residentes” nos campos de refugiados nas ilhas gregas.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

Uma experiência de sinodalidade – a Igreja Católica no Terceiro Milénio novidade

Há dias, chamou-me à atenção, no 7MARGENS, um artigo intitulado Um sínodo sobre a sinodalidade para dar eficácia à ideia de participação. Li o artigo com entusiasmo, sobretudo, porque revivi a minha experiência de paroquiana numa igreja da cidade de Lisboa. Foram tempos de Alegria e Graça, os anos de 2000 a 2019, sob a “batuta” do padre e cónego Carlos Paes.

“Jesus chorou” novidade

Esta frase do capítulo 11 do Evangelho de São João (Jo.11,35), faz parte do episódio da ressurreição de Lázaro e remete para o momento em que Jesus se encontra com Maria, irmã de Lázaro.

Oração, cidadania e solidariedade contra a pandemia

Esta sexta-feira, às 17h (hora de Lisboa), o Papa volta a estar em oração a partir do adro da basílica de São Pedro, perante uma praça vazia, naquela que será seguramente uma das imagens mediáticas que registarão este período difícil da humanidade.

Cultura e artes

Júlio Martín, actor e encenador: O Teatro permite “calçar os sapatos do outro”

O actor e encenador Júlio Martín diz que o teatro permite fazer a experiência de “calçar os sapatos do outro”, mantém uma conversa em aberto e, tal como a religião, “faz religar e reler”. E permite ainda fazer a “experiência de calçar os sapatos do outro, como os americanos dizem; sair de mim e estar no lugar do outro, na vida do outro, como ele pensa ou sente”, afirma, em entrevista à agência Ecclesia.

Uma tragédia americana

No dia 27 de Julho de 1996, quando decorriam os Jogos Olímpicos, em Atlanta, durante um concerto musical, um segurança de serviço – Richard Jewel – tem a intuição de que uma mochila abandonada debaixo de um banco é uma bomba. Não é fácil convencer os polícias da sua intuição, mas ele é tão insistente que acaba por conseguir.

“Louvor da Terra”, um jardim para cuidar

O filósofo sul-coreano (radicado na Alemanha) Byung-Chul Han é já conhecido do público português através da publicação de numerosos dos seus diretos e incisivos ensaios, onde a presença da pessoa numa sociedade híper-digitalizada é refletida e colocada em questão. Agora, em “Louvor da Terra”, possibilita-nos uma abordagem diferente e original, fruto da experiência do autor com o trabalho de jardinagem.

A esperança é uma coisa perigosa

O título deste breve comentário ao filme 1917, de Sam Mendes, é uma frase dita, já quase no final, pelo general Mackenzie quando recebe – desiludido? – a informação para cancelar o ataque programado às linhas alemãs que, aparentemente, se tinham retirado. Afinal, tratava-se de uma cilada…

Sete Partidas

Um refúgio na partida novidade

De um lado vem aquela voz que nos fala da partida como descoberta. Um convite ao enamoramento pelo que não conhecemos. Pelo diferente. Um apelo aos sentidos. Alerta constante. Um banquete abundante em novidade. O nervoso miudinho por detrás do sorriso feliz. Genuinamente feliz. O prazer simples de não saber, de não conhecer…

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco