Santuário de Fátima diz que há uma “campanha organizada” na diocese de Leiria contra a instituição

| 9 Set 20

Santuário de Fátima. 12 de Maio 2020, covid-19

O Santuário de Fátima vazio, a 12 de Maio: foi a ausência quase total de grupos de peregrinos que levou a uma quebra de 77% nas receitas, diz o santuário. Foto Joaquim Franco, cedida pelo autor

 

O Santuário de Fátima considera que está a ser “alvo de uma reiterada campanha difamatória”, que resulta “em grande parte de uma campanha organizada dentro da Igreja diocesana”. Garantindo que “não está previsto um plano de despedimentos” e que não dispensa “a preciosa ajuda dos 326 voluntários” com que conta, acrescenta que as acusações dizem respeito também “aos vencimentos da direcção”, pondo em “causa o bom nome e a idoneidade moral da equipa que governa” e atingindo “a credibilidade da instituição e a integridade moral dos seus corpos dirigentes”.

Estas afirmações constam de um comunicado divulgado na tarde desta terça-feira, e que surge como resposta às notícias que têm vindo a ser divulgadas essencialmente pela TVI. A estação televisiva diz que o Santuário se preparar para despedir “uma centena” de pessoas, que as contas estão deficitárias e há erros graves de gestão, e que a equipa dirigente recebe salários que algum clero da diocese considerará demasiado altos – na ordem dos três mil euros, diz a TVI, para serem superiores aos salários dos directores de serviços.

“Além de falsas, caluniosas e difamatórias, não traduzem a realidade dos factos, gerando ruído num tempo particularmente difícil, onde o medo impera, dada a incerteza da conjuntura nacional e internacional.”, diz o comunicado do Santuário, divulgado nesta terça, dia 8.

O assunto surgiu no dia 1 de Setembro, quando abriu o principal jornal da TVI a dizer que que a instituição se preparava para despedir uma centena de pessoas. Em declarações a vários média, entre os quais o 7MARGENS, a porta-voz do Santuário desmentia, no dia 2: o número não chegaria à “meia centena” e a hipótese de despedimentos seria avaliada depois do dia 15 deste mês, se não houvesse trabalhadores que, voluntariamente, quisessem sair.

A razão para este “processo de reestruturação”, justifica o santuário, é a queda a pique dos grupos inscritos para peregrinações (superior a 99%), traduzida numa quebra de 77% nas receitas, que provêm apenas das dádivas de peregrinos.

A TVI insistia entretanto que já tinham saído, durante este ano, 44 pessoas. Num primeiro comunicado divulgado dia 3, o Santuário dizia que tinham saído 24, e nenhuma delas por extinção de posto de trabalho, antes por “motivos de reforma, por não renovações de contrato de trabalho a termo e 1/3 das mesmas por iniciativa do trabalhador”.

Ao mesmo tempo, a estação de Queluz de Baixo dizia que as contas do Santuário estavam deficitárias desde 2017. Segundo a TVI, haverá padres que contestam a gestão empresarial ou profissionalizada em que o Santuário teria entrado nos últimos anos. A estação acrescentava que os mesmos clérigos contestariam também os salários da equipa dirigente, “três vezes e meia superiores” ao dos restantes membros do clero diocesano – que está na casa dos 900 euros.

 

Santuário “não está nem esteve em insolvência”
Santuário de Fátima

Os responsáveis dizem que o Santuário aumentou em 60% as ajudas a famílais carenciadas, apesar da pandemia. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

No comunicado, o Santuário diz que, “graças ao generoso contributo dos peregrinos, não está, como nunca esteve, em falência nem numa situação de insolvência” e que “todas as medidas definidas e tomadas visam manter uma gestão rigorosa, equilibrada e profissional para garantir preventivamente a sustentabilidade” no futuro.

Foram “as quebras graduais e sem precedentes no número de peregrinações organizadas” que levaram a instituição a “rever responsavelmente as suas opções orçamentais”, argumenta o comunicado. Que apresenta, a seguir, vários exemplos relativos ao primeiro semestre deste ano, de como os custos fixos se mantiveram inalterados e outros até cresceram: “foram honrados todos os encargos com trabalhadores sem recorrer a qualquer medida de apoio externo; garantiu-se o pagamento integral e pontual a fornecedores, no prazo máximo de 30 dias; concederam-se apoios financeiros a instituições de solidariedade social, a famílias carenciadas e à Igreja em Portugal, nomeadamente à diocese de Leiria-Fátima, num total de 780.871 euros.”

Neste mesmo período de pandemia, acrescenta o documento, o Santuário “aumentou em 60% os apoios a famílias e pessoas carenciadas”. Ao contrário, foram suspensas actividades e investimentos que não tivessem carácter de urgência, nomeadamente no âmbito de simpósios, jornadas e programa cultural.

Do que se trata, argumenta ainda o Santuário, é pôr em marcha mais um conjunto de medidas de redução de gastos, para prevenir “um cenário de prolongamento da crise económica que se antevê. Mas, “além dos trabalhadores que pretendam aderir aos incentivos em curso para desvinculação voluntaria, não está previsto um plano de despedimentos”.

Apesar de as contas do Santuário não serem divulgadas desde 2005, elas passaram a ser auditadas por uma entidade externa, advoga o comunicado. E foi com “uma gestão rigorosa, profissional e competente” que foi assinalado o centenário dos acontecimentos de Fátima, “data que permitiu uma maior internacionalização” do santuário. “A profissionalização da instituição, quer do ponto de vista da organização quer da produção de conteúdos ou ainda do acolhimento, representa um salto qualitativo que queremos manter, para dar resposta aos diversos aspectos que constituem a missão do Santuário de Fátima”, argumenta ainda o comunicado.

 

Bispos “solidários” com Santuário e em “sintonia” com orientações

Pouco antes da divulgação do comunicado do Santuário, o conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que esteve reunido em Fátima, manifestou a sua “solidariedade” aos responsáveis da instituição, mostrando “sintonia” com as orientações assumidas face à crise provocada pela pandemia.

Em resposta aos jornalistas no final da reunião, o secretário da CEP, padre Manuel Barbosa, insistiu na ideia de que “não se trata aqui de despedimentos, como tem sido dito nalguns sectores”, afirmou, sem se referir à TVI. Trata-se, antes, de “gestão e racionalização dos meios e estruturas”, mais “urgente neste tempo de pandemia”, acrescentou, citado pela agência Ecclesia.

O padre Manuel Barbosa sublinhou ainda, citado pela mesma fonte, que o Conselho Nacional do Santuário de Fátima (CNSF) “acompanha” a gestão e a reorganização do Santuário e que este tem “sustentabilidade económica”, sem que se tenha recorrido ao lay-off para qualquer trabalhador.

O CNSF integra o presidente da Conferência Episcopal, actualmente o bispo de Setúbal, bem como os bispos das arquidioceses portuguesas (Braga, Évora e Lisboa), além do bispo de Leiria-Fátima e do reitor do Santuário.

Manuel Barbosa acrescentou que a “reestruturação” pretende antecipar um eventual impacto da crise nos próximos anos, que já atinge várias instituições católicas. Em Novembro, disse, a CEP deverá ter um “quadro geral” das consequências da crise nas várias dioceses.

 

Novo Pacto para as Migrações: Igrejas reconhecem “boas intenções”, mas continuam “muito preocupadas”

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