São Paulo e os Apóstolos

| 28 Jun 21

Algumas referências breves para o estudo da relação de Paulo com os outros Apóstolos, na diversidade ecuménica dos primeiros tempos, no contexto da celebração da sinaxe – encontro – dos Apóstolos Pedro e Paulo, que se celebra a 29 de Junho e na data equivalente do calendário juliano (12 de Julho).

Ícone representando a sinaxe entre Pedro e Paulo

Ícone representando a sinaxe entre Pedro e Paulo

 

Alguma coisa se passou a caminho de Damasco!

Durante três dias Paulo permanece cego, até que Ananias o visita; recupera a visão e cheio do Espírito Santo é batizado (Act 9:3-18; 22:6-16).

Assim tem início a missão de Paulo e o Cristianismo.

Na Bíblia o ser humano é justificado perante o Pai em relação à Sua justiça, como servo[i]; com Paulo o ser humano é justificado como filho de Deus, pela Fé em Jesus Cristo (Gl 3:26, Rm 1:17) e revestido de Cristo pelo Batismo (Gl 3:27).

Para Paulo a qualidade de Filho de Deus resulta de um renascimento espiritual (Tt 3:5), como ele experimentou em Damasco, e não pelas obras, como vinha sendo seguido pelos judeus da época, na estrita observação da Lei[ii].

João talvez seja o que mais se aproxima desta teologia quando diz que o ser humano foi engendrado (infantado) por Deus, tornando-o seu filho (Jo 1:13, 5-8), que é o princípio divino da vida eterna, mas não a filiação e que o Senhor ensinou que é necessário nascer da água e do Espírito para entrar no reino dos céus, nascendo de novo (Jo 3:5,7).

Com Paulo emerge o homem novo (Ef 2:10, 2Cor 5:17), para criar boas obras (Ef 2:10, 2Cor5:17), desviando-se do ideal de Salvação para quem pratica obras boas, como diz a Lei Mosaica. É neste contexto que alguns rabis judeus passaram a considerar Jesus como o judeu perfeito[iii] e Paulo o apóstata.

Paulo propõe-se em missão junto dos pagãos (Rm 9:25-26), proclamando que não há judeu nem grego (Gl 3:28) e que o respeito pela Lei tal como é praticada pelos judeus, é insuficiente (Gl 3:11-12, 24), mas quem se faz circuncisar tem de respeitar a Lei integralmente e quem está com Cristo não se justifica pela Lei, mas pelo Espírito (Gl 5:3-6).

Um dos primeiros contactos de Paulo com os seguidores de Jesus foi dramático: por ter sido escolhido para guardar as capas das testemunhas no apedrejamento de Estevão[iv] depois de este ser condenado pelo Sinédrio (Act 7:52-58).

Após o renascimento espiritual de Paulo, será Barnabé o seu mentor – que conhecia da escola de Gamaliel apresentando-o aos Apóstolos em Jerusalém (Act 9:27); posteriormente estarão juntos em Antioquia durante um ano, regressando ali e fazendo outras viagens missionárias, também acompanhados de Marcos (Act 11:25 a 30; 13:14,16; 14:8,9, 12, 19,20).

Paulo regressa a Jerusalém para o que será o primeiro Concílio, que foi determinante em definir diferenças entre os presentes, relativamente à justificação para a Salvação (Act 15:2).

Em Jerusalém, Paulo e Barnabé fazem um acordo com Tiago, João e Pedro sobre as suas missões, seguindo os primeiros para junto dos gentios e os segundos para junto dos circuncisados (Gl 2:9).

Finda a congregação, voltam para Antioquia, mas Barnabé distanciar-se-á de Paulo que tomará como companheiro na viagem seguinte a Silas (ou Silvano) enquanto Barnabé tomará a Marcos (Act 15:39-40).

Marcos, que não conheceu Jesus, será outro dos Apóstolos (dos 70), com quem Paulo se relacionou e viajou algum tempo até que foi afastado, passando a acompanhar Barnabé.

Nesta altura já é notória a diferenciação teológica entre Tiago e os que estão em Jerusalém, de um lado, e Paulo, do outro.

Mas não será por essa razão que Paulo enfrenta e repreende Pedro em Antioquia (Gl 2:11-15), mas porque ele era hipócrita vivendo com os gentios e, ao saber da presença de companheiros de Tiago, temendo-os, se afastou dissimulando.

Paulo foi mentor de Timóteo (um dos 70 discípulos, venerado como apóstolo), sendo-lhe dirigidas as Epístolas que levam o seu nome; bem como Tito, que também é citado noutras cartas, mas não é mencionado em Actos dos Apóstolos, apesar de ter acompanhado Paulo ao Concílio de Jerusalém (Gl 2:3).

Apolo é citado por Paulo como cooperante (1Cor 3:4-6) mas nas comunidades onde passaram deixaram grupos rivais (1Cor 16:12).

Sóstenes é citado por Paulo na epístola aos Coríntios e parece que se manteve fiel a ele, recusando-se, como líder da Sinagoga em Corinto, a iniciar um procedimento contra o seu mentor (Act 18:12-17).

Parecem-me esquiçadas as referências suficientes para uma viagem maravilhosa com Paulo e os Apóstolos.

 

Alberto Teixeira é cristão ortodoxo

 

[i] Is 42:1-4; 53; Sl 2:11, Talmude, Luigi Chiarini, JAGWeigel, 1831, vol I, pg 335. A justificação em relação à justiça de Deus é um conceito que divide judeus e cristãos entre si.
[ii] Lv 18:5, Dt 4:1; 8:1. Talmude vol I, pag 409, ibiden.
[iii] Mishneh Torah, Sefer Shoftim, Melakhim uMilchamot, 10.4, Chabad.org
[iv] Estevão era um dos 7 homens, escolhidos pelos apóstolos, para resolver um conflito na comunidade (Act 6:5). A tradição diz que Estevão era de origem grega, mas judeu de nascimento e aluno de Gamaliel, ou seja colega de Paulo na escola rabínica. Refere ainda a tradição, que Estevão foi sepultado no túmulo que pertencia a Gamaliel.

 

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