São Sebastião nas Beiras: da alegoria histórica à devoção e aos bodos

| 22 Jan 20

Anjo retira seta a S. Sebastião. Impressão de Paulus Pontius de gravura de Gerard Seghers/Col. do Rijksmuseum Amesterdam/Wikimedia Commons (Há uma reprodução idêntica na col. da Biblioteca Nacional)

 

Segundo relatos antigos, São Sebastião terá nascido cerca de 256 e sido martirizado em 286, na perseguição ordenada pelo imperador Diocleciano (284-311). Sendo um cidadão de Milão, apesar de ter nascido em França, Sebastião integrou-se no exército imperial romano.

Os mesmos relatos dizem-nos que ele terá chegado a Roma através de uma caravana de emigrantes, pelas costas do mar Mediterrâneo.

Segundo um documento tardio, atribuído a Santo Ambrósio (340), mestre de Santo Agostinho, ambos doutores da Igreja, Sebastião era um soldado que se alistou no exército romano por volta de 283, com a intenção de apoiar os cristãos torturados e desanimados pelas perseguições imperiais.

Devido às suas qualidades, o imperador deu-lhe o cargo de capitão da sua guarda pretoriana.

Por volta de 286, Diocleciano começou a notar a sua conduta muito branda na perseguição aos cristãos, não lhes impondo os severos castigos decretados. Julgado por esta sua conduta, foi considerado traidor às leis do imperador. Depois de denunciado e julgado, o imperador romano mandou-o martirizar com um feixe de flechas. Tendo sido dado como morto pelos seus assassinos, foi lançado às águas de um rio. Porém, conta a tradição, aconteceu que Sebastião, já moribundo, não se encontrava totalmente morto.

Nessa situação de grande sofrimento, à beira da morte, seria encontrado num rio, por uma bondosa senhora, de nome Irene, que conseguiu ainda reabilitá-lo e salvar-lhe a vida. Porém, ao ter conhecimento deste facto, o imperador, muito irritado com o sucedido, mandou-o novamente assassinar com violência tal, que Sebastião, desta vez, acabaria por não resistir às torturas impostas pelos seus algozes.

Depois de morto e por ter sido desobediente às leis imperiais, em vez de ser sepultado com dignidade teria sido lançado dentro dos enormes e profundos esgotos de Roma.

Porém, uma senhora romana de nome Luciana, encontrando ali o cadáver de Sebastião, limpou-lhe as feridas e decidiu sepultá-lo nas catacumbas de Roma, que serviam de cemitérios e onde os cristãos por vezes se reuniam.

Toda esta história é hoje, por muitos historiadores, considerada mais como uma piedosa alegoria do que uma realidade histórica comprovada. Apesar disso, ela foi atravessando muitos séculos, chegando até nós.

Coube à arte da Idade Média representar este jovem soldado mártir, amarrado a uma estaca e perfurado por flechas. Apresentado nu e amarrado a uma estaca, pode representar uma semelhança com Cristo crucificado, com os mortíferos pregos.

O que temos como certo é que a devoção ao mártir Sebastião, através das grandes manifestações da religiosidade popular, nasceu bem cedo, logo no séc. IV, depois da paz de Constantino (313). Porém, o seu expoente máximo foi atingido ao longo da Idade Média, tempo de guerras, fomes e pestes.

Ao longo dos tempos, esta devoção secular tem dado origem à construção de igrejas, capelas e ermidas, em quase todas as aldeias da região da Beira Baixa e estende-se também ao norte e centro do país, bem como às regiões da Madeira e Açores. Podemos encontrá-la ainda em vastas regiões brasileiras e em Espanha, nomeadamente no célebre Festival do Pão, na Andaluzia. Não esquecendo ainda o conjunto da América Latina e a Califórnia (Estados Unidos), onde S. Sebastião é patrono dos veteranos de guerra.

Em Portugal, é venerado como o grande padroeiro dos pescadores, dos militares, arqueiros e ourives. No período em que as guerras da Restauração (1640) e as pestes mortíferas do séc. XVII atacaram as populações raianas, os fiéis recorriam a S. Sebastião, sobretudo contra a cólera e ainda contra as numerosas pragas dos gafanhotos. Desses tempos restam ainda hoje, em algumas terras da Beira Baixa e no norte do país, no final da quadra natalícia, finais de janeiro, os seculares bodos dos pãezinhos, papas, filhós, tremoços e até de fitas ao pescoço das crianças, tidas como protetoras contra as febres, como já foi referido no 7MARGENS.

A Igreja Católica festeja este santo no dia 20 de Janeiro, fim do ciclo natalício, e os cristãos ortodoxos da Grécia no dia 18 de Dezembro.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

Artigos relacionados

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Os donativos entregues por 136 leitores e amigos somaram, até terça, 30 de junho, €12.020,00. Estes números mostram uma grande adesão ao apelo que lançámos a 7 de junho, com o objetivo de reunirmos €15.000 para expandir o 7MARGENS ao longo do segundo semestre de 2020. A campanha decorre até ao final de julho e já só faltam menos de €3.000! Contamos consigo para a divulgar.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

CE volta a ter enviado especial para promover liberdade religiosa no mundo novidade

O cargo de enviado especial para a defesa da liberdade religiosa tinha sido extinto no ano passado pela presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, mas as pressões de inúmeros líderes religiosos e políticos para reverter essa decisão parecem ter surtido efeito. O vice-presidente da CE, Margaritis Schinas, anunciou que a função irá ser recuperada.

Papa assinala sete anos da viagem a Lampedusa com missa especial online

O Papa Francisco celebra esta quarta-feira, 8 de julho, o sétimo aniversário daquela que foi a primeira (e talvez mais icónica) viagem do seu pontificado: a visita à ilha de Lampedusa. A data é assinalada com uma eucaristia presidida por Francisco na Casa Santa Marta, a qual terá início às 10 horas de Lisboa, e será transmitida online através dos meios de comunicação do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo novidade

O hospital pediátrico Bambino Gesú, em Roma, gerido pelo Vaticano, separou com êxito duas irmãs siamesas de 2 anos, que nasceram unidas pelo crâneo na República Centro Africana. A complexa operação, que durou 18 horas e contou com uma equipa de 30 profissionais de saúde, teve lugar no passado dia 5 de junho, mas o hospital só revelou todos os detalhes esta quarta-feira, 8 de julho, numa conferência de imprensa.

É notícia

Entre margens

Do confinamento às Minas novidade

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico novidade

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Memórias do Levante

À ideia da raça superior sucedeu a ideia da cultura superior, quase tão maléfica como aquela. E escravizar os seres humanos “inferiores” deu lugar a desvalorizar ou mesmo destruir as culturas “inferiores”. O resultado é que, se ninguém ganhou com isso, a verdade é que a humanidade perdeu e muito

Cultura e artes

Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos” novidade

Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua. Em “Dom Frei Bertolameu” faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019.

Ennio Morricone: O compositor que nos ensinou a “sonhar, emocionar e reflectir”

Na sequência de uma queda em casa, que lhe provocou a ruptura do fémur, o maestro e compositor italiano Ennio Morricone morreu esta segunda-feira em Roma, na unidade de saúde onde estava hospitalizado. Tinha 91 anos. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, evocou com “infinito reconhecimento” o “génio artístico” do compositor, que fez o público “sonhar, emocionar, refletir, escrevendo acordes memoráveis que permanecerão indeléveis na história da música e do cinema”.

Teologia bela, à escuta do Humano

Pensar a fé, a vivência e o exercício do espírito evangélico nos dias comuns, é a tarefa da teologia, mais do que enunciar e provar fórmulas doutrinárias. Tal exercício pede atenção, humildade e escuta dos rumores divinos na vida humana, no que de mais belo e também de mais dramático acontece na comunidade dos crentes e de toda a humanidade.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco