1978-2023

Sara Tavares: um fogo que ainda arde, uma luz que vai perdurar

| 20 Nov 2023

Sara Tavares em palco, Foto Miguel Cardoso (2)

Poder-se-ia pensar que Sara Tavares procurou, desde cedo, as luzes da ribalta… Mas não. A Sara era – foi sempre – muito tímida e recatada. E a luz já a trazia consigo. Foto © Miguel Cardoso

 

Muitos souberam da morte da cantora e compositora Sara Tavares quando, na noite deste domingo, 19 de novembro, Catarina Furtado abriu o programa de talentos The Voice, na RTP1, com a imagem dela como pano de fundo, e os olhos marejados de lágrimas. Quase todos conheceram Sara Tavares quando, há 29 anos, Catarina Furtado a apresentou como participante da primeira edição do concurso Chuva de Estrelas, o qual viria a ganhar. Poucos meses depois dessa vitória – estávamos em 1994 – Sara Tavares representava Portugal na Eurovisão, e conquistava um impressionante oitavo lugar. Poder-se-ia pensar que procurou, desde cedo, as luzes da ribalta… Mas não. A Sara era – foi sempre – muito tímida e recatada. E a luz já a trazia consigo. O que procurava ela então? A origem dessa luz.

A jovem Sara, então com 16 anos, era apaixonada por Whitney Houston – artista que foi imitar ao concurso – mas também por Aretha Franklin ou Stevie Wonder, cujos álbuns ouvia vezes sem conta no seu pequeno leitor de cassetes. O que mais a impressionava era o sentimento com que cantavam e quis perceber “a raiz desse sentimento”. Não foi preciso pesquisar muito para descobrir que “todos eles vinham da Igreja”, contou Sara Tavares em entrevista ao jornal Sol, em 2017.

“Comecei a prestar atenção, a pensar de que igreja viriam, porque a minha avó, como uma típica portuguesa, levava-me sempre à Igreja Católica, mas lá não se passava nada da música que via, até que percebi que vinham de igrejas evangélicas”, explicava Sara. Foi então que, com 13/14 anos, ainda antes de concorrer ao Chuva de Estrelas, se pôs “à procura do gospel” que ouvia nas cassetes e via nos filmes. Como vivia no Pragal, começou por pesquisar em Almada, mas só em Lisboa – mais propriamente em Benfica – descobriu uma comunidade, liderada pelo cantor norte-americano Dale Chappell, que lhe transmitiu esse tal sentimento. Dale – que viria a tornar-se seu professor de canto – reconheceu nela o talento, e a luz, convidou-a para solista de um dos coros que dirigia, e ela aceitou.

Assim, quando, cerca de um ano depois, Sara Tavares ganhou o concurso e um dos prémios era editar um disco com a BMG, a opção pelo gospel surgiu como a mais natural. Foi então que formou os Shout, o primeiro grupo de gospel em Portugal, que ainda hoje existe e que é, de certa forma, um dos seus muitos legados.

Desses tempos em que cantava com os Shout, Sara guardou sempre “a cumplicidade, a harmonia, a entrega e a cooperação” que cantar em coro exige. Disse-o à jornalista Paula Moura Pinheiro, quando foi sua convidada no programa Câmara Clara, em 2009. “Esse poder na congregação nunca me deixou”, assegurou então.

E a fé em Deus – ensinada primeiro pela “avó” (avó entre aspas, porque não era sua avó biológica) e descoberta depois com maior intensidade ao integrar o coro gospel – também não. De resto, nessa mesma conversa com Paula Moura Pinheiro, Sara reconheceu que eram essa fé e essa espiritualidade “a fonte” da esperança e da alegria que perpassavam – perpassam ainda – pelas suas músicas.

Depois de uma infância solitária (a pessoa a quem chamava “avó” era uma vizinha que, tinha Sara apenas quatro anos, ficou a cuidar dela quando a mãe decidiu ir para o Algarve à procura de uma vida melhor, depois de se ter separado do pai, que por sua vez regressou a Cabo Verde), a igreja passou a ser também a sua família, o seu lar, e foi lá que  aprendeu “essa coisa do cantar como um serviço, seja para louvar ou inspirar as pessoas”, explicaria noutra entrevista.

Sara Tavares em criança, via Facebook Cláudia Lucas Chéu

Sara Tavares em criança. Imagem reproduzida a partir da página de Facebook Cláudia Lucas Chéu.

 

Foi também por causa dessa fé e esperança que, no final de 2009 (poucos meses depois de ter lançado o seu terceiro álbum de originais, Xinti), ao receber o diagnóstico de um tumor cerebral, Sara não ficou assustada, nem revoltada. “Tenho a criação da igreja, tenho um contacto espiritual muito forte, uma relação com as coisas que não são pragmáticas muito forte, então não me assusto facilmente”, dizia.

“Porquê eu?”, seria a pergunta expectável de uma jovem mulher com então 31 anos, que ainda tinha “fome de ver muita coisa”, mas Sara optou por colocar uma questão diferente: “Porque não eu?”. E até conseguiu ver o lado positivo de um diagnóstico que para muitos teria sido, desde logo, sinónimo de sentença de morte. Encarou-o como uma oportunidade para parar e cuidar de si, depois de sete anos muito intensos e desgastantes a promover os álbuns Mi Ma Bô (1999) e Balancê (2005), e num momento em que tinha já a agenda completamente preenchida para os três anos seguintes.

O cansaço acumulado era tanto que aquela pausa forçada foi quase “um alívio”, confessaria a Daniel Oliveira, no programa Alta Definição, em 2012. Foi essa pausa que lhe permitiu “voltar à essência” e à sua natureza “de não falar assim tanto”. Tinha consciência de que, por causa do tumor, poderia mesmo vir a deixar de falar (e cantar), mas confiou nos médicos, os seus “anjos na Terra” – para os quais até cantou naquele dia 8 de fevereiro de 2010, durante a operação de remoção de parte do tumor -, e confiou em Deus. “Nessas alturas, só Ele mesmo é que sabe”, disse a Daniel Oliveira.

Na verdade, já o tinha escrito vários anos antes de receber aquele diagnóstico, em “Eu Sei”, uma das músicas do seu primeiro álbum a solo e que se tornou um dos seus maiores êxitos:

Se a tristeza é mais profunda que a dorSe este dia já não tem saborE no pensar que tudo isto já penseiEu sei…
Se eu beber dessa luzQue apaga a noite em mimE se um dia eu disserQue já não quero estar aqui
Só Deus sabe o que viráSó Deus sabe o que seráNão há outro que conheceTudo o que acontece em mim

 

A música era uma adaptação do salmo 139, um dos seus preferidos, e refletia a luz de que se alimentava, mas também o desapego de Sara Tavares. “Sou assim meio desapegada do mundo, vivo isto um bocado como se fosse uma passagem… também me interessa chegar à outra margem”, explicou a cantora quando Daniel Oliveira lhe perguntou se sentia saudades de alguma coisa.

A saudade, esse sentimento tão lusófono e imortalizado por Cesária Évora – artista que Sara chegou a conhecer pessoalmente e que adorava ouvir a cantar mornas – reservava-a para a “avó” Eugénia, que entretanto faleceu.

Mas Sara nunca sucumbiu à tristeza ou à revolta. Reconhecia as “cicatrizes” que a distância dos pais e o facto de se ter sentido tantas vezes “a estrangeira” numa terra onde tinha crescido lhe deixaram. Ainda assim, dizia ter compreendido que “todas as coisas têm um sentido, um sentido estranho, mas as coisas vão-se encaminhando na hora certa”.

Terá sido, por isso, na hora certa que Sara Tavares viu Catarina Furtado na SIC a anunciar a primeira edição do Chuva de Estrelas e a desafiar quem gostasse de cantar a gravar uma cassete. E que decidiu participar, apesar da sua timidez. Mesmo que tenha depois percebido que o ideal teria sido juntar dinheiro para ir para uma escola de música, como também confidenciou a Daniel Oliveira.

A verdade é que concretizar essa alternativa não teria sido fácil, porque o dinheiro não abundava. Mas depois de ter ganho o Chuva de Estrelas e ter participado no Festival da Canção – o que só aconteceu porque tinha vergonha de dizer à autora Rosa Lobato Faria que não se identificava com a canção “Chamar a música” – , aí sim, Sara aprendeu a tocar guitarra, e também percussão. E pôde viajar até Cabo Verde, conhecer as ilhas onde os pais nasceram e ainda aprender a falar crioulo. “Às vezes, Deus escreve certo por linhas tortas”, dizia em relação a este início do seu percurso na música e a tanto na sua vida, sempre com os olhos postos na metade cheia do copo.

Talvez por isso, “luz” seja “a palavra mais recorrente nas descrições que têm feito da Sara”, escreveram os Shout na sua página de Facebook, esta segunda-feira.

No álbum Xinti (o tal lançado antes do diagnóstico), Sara também falava dessa luz:

No teu colo eu me entrego
Para que me nutras
E me envolvas
Deixa-me ser, só ser
Um ponto de luz
Que me conduz
Aceso na alma

Era uma luz que lhe vinha do encontro com Jesus Cristo, em quem admirava não só “o amor incondicional”, mas também “a independência dele, a liberdade”, e uma luz que transmitia a quem com ela se cruzava no caminho e a tantos que nem sequer conhecia, através da sua música.

E era essa luz “acesa na alma” que Sara acreditava que perduraria. “A alma transcende e a matéria perece. O corpo vai-se gastando, a mente vai-se gastando, mas depois há um fogo qualquer que arde… Eu acho que a alma vai continuar, não me perguntes para onde, que eu não sei, mas eu sinto que continua”, disse a Daniel Oliveira.

Talvez agora Sara Tavares já saiba.

E todos nós os que a escutámos, em parte, também. Porque ela morreu, mas essa luz e esse fogo continuam a brilhar e a arder sempre que alguém escuta as suas músicas. Se não, oiçamos só mais esta:

Gosto quando dás um pouco mais de ti
Fico feliz quando dás um pouco um pouco mais de ti
Deixa cair o véu, prometo não cairá o céu
Deixa-te revelar, prometo a música vai te embalar
Deixa-te levar, de olhos fechados
Tens que te abandonar para poder voar

 

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