Saúde mental dos jovens: a urgência de um novo paradigma

| 29 Jun 2022

jovem solidao saude mental foto c petko ninov

Terminado o ano letivo para a maior parte dos alunos, é possível verificar que foram muitos os que sofreram com problemas relacionados com a saúde mental ou com a falta dela, tendo muitos vivido esse abismo sozinhos, com medo de procurar ajuda. Foto © Petko Ninov.

 

A saúde mental dos jovens tem-se vindo a tornar, aos poucos, num tema com particular relevância nas reflexões da sociedade hodierna, ainda que se verifique que estas possam, muitas das vezes, não resultar em concretizações visíveis e materializar em soluções para os problemas que afetam os membros desta mesma sociedade. A verdade é que, apesar de todos os esforços por parte dos profissionais de saúde e também das pessoas, toda a temática é, ainda, envolvida por uma “bolha de estigmas”, o que a transforma numa temática-tabu.

A “bolha de estigmas” surge como consequência indissociável da nossa “sociedade do medo”. O tabu corresponde a uma simples equação que tem como incógnitas a vergonha, a culpa, a martirização, a diminuição e cujos resultados são a não-procura de ajuda e o aumento dos custos pessoais, sociais e económicos resultantes deste problema.

Que reflexão temos, então, que fazer? O cenário obriga a que paremos e reflitamos coerente e aprofundadamente sobre a temática, tendo em vista o alcance rápido de soluções e a anulação completa de focos provocadores de instabilidade. Estes focos corporizam razões que nos permitem justificar a cena, das quais destaco duas: a pandemia e o mundo da exigência e da competitividade no qual estamos inseridos. Não é tempo para brincadeiras – é imperativo mudar o paradigma!

Em 2021, a UNICEF [Fundo das Nações Unidas para a Infância] alertou para o impacto negativo e duradouro da situação pandémica na saúde mental das crianças e dos jovens, num relatório global intitulado A Situação Mundial da Infância 2021 – Na Minha Mente: promover, proteger e cuidar da saúde mental das crianças, que fez uma reflexão alargada sobre o estado da saúde mental das crianças e dos adolescentes. A nível mundial, calculava-se que mais de um em cada sete jovens com idades compreendidas entre os dez e os 19 anos vivam com um distúrbio mental diagnosticado. O relatório denunciava também o subfinanciamento ao nível dos sistemas de saúde e recursos comunitários.

Para os jovens, este é, sem dúvida, um assunto que se reveste de uma carga emocional intensa e que corporiza em si as ânsias, os medos e as preocupações que acompanham o quotidiano de cada um. Tudo isto é consequência dos focos provocadores de instabilidade, que subtilmente, sem que as pessoas percebam, se apoderam da estabilidade das crianças e dos adolescentes e que, muitas vezes, acabam por parcial ou totalmente destruir a sua vida. Para mim, jovem que vive intensamente todos os momentos, não é difícil identificar quais são, afinal, estes focos. A adolescência e os primeiros anos da vida adulta são tempos profundamente marcados por mudanças de vários tipos que, dependendo de pessoa para pessoa, podem afetar o percurso normal do jovem; correspondem a um período de uma construção gradual e emocionalmente intensa da sua própria personalidade, com auto-questionários que resultam na afirmação da pessoa que é; são anos de uma natural apreensão e stress.

É um processo que não é fácil e que não tem balizas temporais, pese embora a sociedade as queira traçar e obrigue os jovens a forçar uma coisa que não é manipulável – este é um dos grandes focos. Outro foco provocador de instabilidade é o que é inerente a estes tempos de modernidade – a sociedade exige que se seja melhor do que os outros, que não se falhe, sob pena de sermos desvalorizados ou pouco reconhecidos. Infelizmente, é isto que acaba por acontecer, apesar de a minha linha de raciocínio não ser essa: dou o meu melhor em todos os momentos mas reconheço que errar é qualidade humana. Mas, queiramos ou não, esta pressão social é o que, infelizmente, acontece. Vejamos os casos dos alunos que perdem a componente social, graças ao tempo que passam dentro do seu quarto a estudar, única e exclusivamente para agradar à sua instituição educativa, que quer alcançar os melhores resultados nos rankings. Vejamos os alunos do Ensino Artístico, por exemplo, que são pressionados pelo mundo da competição que os rodeia, obrigando-os a não falhar em palco, e acabando por criar neles uma base de ansiedade permanente. Vejamos os jovens que, por competências e qualidades reconhecidas, são frequentemente solicitados e têm que responder no mesmo nível de qualidade de sempre. Olhemos à nossa volta, observemos os jovens que vivem doentes no foro mental e perceberemos que todos estes aspetos se assumem, efetivamente, como focos potenciadores de um percurso de vida pouco saudável.

Por último, há outro foco que não posso deixar de destacar – apesar de benéfico em alguns aspetos, o crescente uso das tecnologias está associado também ao emergir de pressões adicionais, graças à conetividade possível em qualquer rede social e a qualquer hora do dia ou da noite, desencadeando a construção de uma sociedade do medo e da pressão, na qual se polariza e normaliza, com muita facilidade, o desrespeito pelo outro e o seu mal-estar. São todas estas situações que revoltam os jovens dos nossos dias que, inconformados e irreverentes, erguem bandeiras a este propósito (e.g. “Um psicólogo por cada freguesia”), defendendo uma valorização mais visível e eficaz da saúde mental.

Mas não é só aos jovens que se exige uma postura firme em relação a esta matéria. Qual é o papel das escolas relativamente a esta situação? Elas assumem a importante função de educar para a prevenção e de disponibilizar, na medida dos possíveis, os recursos para uma resposta eficiente às situações que surgem. Convenhamos que não é fácil que as escolas garantam uma plena estabilidade mental dos alunos, mas há duas coisas às quais não devem fugir: a atribuição do direito da palavra e da expressão de angústias e emoções aos alunos e a conceção de aluno como um todo cognitivo e intelectual, cuja preparação resulte na formação de pessoas responsáveis, conscientes e preparadas para a sociedade e do medo e dos estigmas, formação que obviamente incluirá, mas num nível secundário, a obtenção de bons resultados. Terminado o ano letivo para a maior parte dos alunos, é possível verificar que foram muitos os que sofreram com problemas relacionados com a saúde mental ou com a falta dela (excesso de cansaço, burnouts, depressões) tendo muitos vivido esse abismo sozinhos, com medo de procurar ajuda.

É por isso que afirmo que é urgente que se prepare um futuro de estabilidade. “A saúde mental é uma parte da saúde física, não nos podemos dar ao luxo de continuar a vê-la como se assim não fosse”, dizia a diretora-executiva da UNICEF a propósito do relatório suprarreferido. Não nos dispensemos, então, da participação da reflexão de sociedade. Um novo paradigma é o nosso desiderato – encontremos um grande megafone para que se afirme.

 

Sérgio Silva é aluno do 11º ano na Escola Artística Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, em Braga.

 

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