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Padre, confissão. Foto CottonbroPexels
Depois da ordenação, muitos padres deixam de ter espaços regulares de acompanhamento e escuta. Foto © Cottonbro | Pexels

Investigação no Brasil

Saúde mental dos padres: “Escutamos muita gente, mas não temos muitas vezes quem nos escute”

| 19/10/2026

Os padres estão habituados a escutar: acolhem pessoas em momentos de crise, acompanham famílias, recebem confidências, lidam com o sofrimento e procuram estar sempre disponíveis para as suas comunidades. Mas quem escuta os padres quando são eles que precisam de falar?

A pergunta está no centro de uma investigação realizada no Brasil entre 2022 e 2023, que envolveu aproximadamente dois mil padres e identificou stress, ansiedade e depressão entre os problemas de saúde que afetam o clero.

O estudo é dado a conhecer pelo Vatican News no contexto da intenção de oração de Leão XIV para outubro, dedicada à saúde mental. O Papa pede uma Igreja que seja “uma casa aberta, um espaço seguro” para quem sofre de ansiedade, depressão e outras doenças mentais, uma comunidade que “escuta sem julgar e se aproxima sem medo”. O apelo inclui também aqueles que, dentro da própria Igreja, estão habitualmente do lado de quem escuta e acompanha.

 

Falar sobre saúde mental continua a ser difícil

O responsável pelo estudo é o padre passionista José Carlos Pereira, teólogo pastoralista e doutor em Sociologia, que começou a aprofundar esta realidade depois de uma investigação anterior, realizada no âmbito do seu pós-doutoramento em Antropologia Social, que envolveu cerca de dez mil padres.

A saúde mental surgiu então como uma das áreas mais preocupantes. O investigador decidiu, por isso, realizar uma nova pesquisa, especificamente sobre as condições de saúde dos padres, entre 2022 e 2023, com cerca de dois mil participantes.

Um dos dados que mais o surpreendeu foi o nível de stress encontrado. “Boa parte das pessoas imagina que os padres não têm preocupações, não têm pressão, que não sofrem. E a pesquisa mostrou o contrário: um alto índice de padres acometidos por stress, a vários níveis”, afirma ao Vatican News. A ansiedade e a depressão surgiram igualmente entre as condições identificadas.

A investigação incluiu entrevistas presenciais com cerca de 200 padres, e foi aí que José Carlos Pereira encontrou um dado particularmente significativo: falar sobre saúde mental continua a ser difícil para muitos padres.

“Na conversa pessoal, senti retraimento de muitos padres em falar sobre determinados temas, sobretudo quando adentrava questões psicológicas”, relata.

Ao mesmo tempo, percebeu uma necessidade muito forte de serem escutados. “Os padres não têm quem os escute. Nós escutamos muita gente, mas não temos muitas vezes quem nos escute”, afirma.

Os resultados da investigação foram reunidos no livro Cura-te a ti mesmo: enfermidades e cuidados de saúde do clero, publicado em 2025 pela Paulus. Depois da publicação, segundo o investigador, vários padres e até bispos contactaram-no para dizer que se tinham reconhecido na obra.

Capa livro cura-te a ti mesmo

O livro Cura-te a ti mesmo: enfermidades e cuidados de saúde do clero, publicado em 2025 pela Paulus.

 

A prevenção não pode terminar com a ordenação

O padre, teólogo e investigador considera que a prevenção da saúde mental ainda acontece de forma desigual nas dioceses e está frequentemente concentrada no período de formação dos futuros padres.

Depois da ordenação, muitos deixam de ter espaços regulares de acompanhamento e escuta. E o receio de falar das próprias dificuldades perante superiores pode tornar ainda mais difícil pedir ajuda.

“Muitos padres só vão falar que estão passando por dificuldades quando o problema já se tornou público ou não estão suportando mais”, afirma José Carlos Pereira.

Para o autor do estudo, o acompanhamento deve prolongar-se ao longo de toda a vida presbiteral, através do reforço da fraternidade entre os padres e da criação de espaços onde possam falar das suas dificuldades sem medo de julgamento.

E esta não é uma questão apenas relativa aos padres do Brasil. Recorde-se que, no passado mês de setembro, durante o XI Simpósio Nacional do Clero, em Fátima, também os padres portugueses identificaram a solidão, a sobrecarga e a necessidade de maior acompanhamento como desafios da vida presbiteral [ver 7MARGENS] O encontro defendeu, entre outras medidas, a criação de equipas multidisciplinares capazes de apoiar os párocos perante situações de sofrimento complexo e de saúde mental.

 

O preço de estar sempre disponível

Para o frei Vagner Sanagiotto, carmelita, psicólogo e doutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Salesiana de Roma, o sofrimento psicológico entre padres não é um fenómeno novo. O que mudou foi a possibilidade de reconhecer e compreender melhor essas experiências através da psicologia e da psiquiatria.

Não existe, porém, uma causa única na origem desse sofrimento. A sobrecarga de atividades, a dificuldade em garantir períodos de descanso, a solidão, os conflitos comunitários, as exigências pastorais e as mudanças de missão estão entre os principais fatores que para ele contribuem. A estes juntam-se questões relacionadas com a história pessoal, a afetividade e as características de personalidade.

Por isso, a formação dos futuros padres deve prepará-los não apenas para o exercício do ministério, mas também para reconhecer limites e procurar ajuda. E não deve terminar com a ordenação.

“A formação humana deve ser o fundamento de toda a formação sacerdotal, mas a formação continua ao longo da vida. Bem preparado não é aquele que nunca sofre, mas aquele que aprende a reconhecer o sofrimento, a buscar apoio e a amadurecer”, defende.

O cuidado, acrescenta, não pode depender apenas da iniciativa individual de cada padre. As instituições eclesiais devem garantir condições para o descanso regular, o acompanhamento pessoal, o cultivo de amizades e o acesso a ajuda especializada quando necessário.

 

“É muito difícil ser cuidado”

Centro Ancora, no Brasil. Foto DR

Centro de Revitalização Âncora, em Pinhais, no Paraná (Brasil). Os principais motivos de chegada ao centro são cansaço, depressão e problemas de relacionamento interpessoal, incluindo burnout. Foto: Direitos reservados

Um exemplo dessa abordagem pode ser encontrado no Centro de Revitalização Âncora, em Pinhais, no Paraná, que acompanha padres, religiosos e seminaristas.

A religiosa Silvia Cristina Maia, das Irmãs da Copiosa Redenção, é psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e trabalha há seis anos no centro. Ali, uma equipa assegura cuidados de saúde mental, acompanhamento médico, cuidado físico e acompanhamento espiritual.

Segundo a última avaliação interna, os principais motivos de chegada ao centro são cansaço, depressão e problemas de relacionamento interpessoal, incluindo burnout.

“O religioso chega muitas vezes com muita resistência porque, para quem constantemente está cuidando do outro, é muito difícil ser cuidado”, explica a religiosa.

O processo pode durar entre um e três meses e inclui oração comunitária, formação diária sobre saúde mental e espiritualidade, psicoterapia individual duas vezes por semana, acompanhamento médico e cuidados físicos.

Uma das primeiras mudanças acontece quando os religiosos começam a aceitar o processo e deixam de ver os profissionais como uma ameaça às suas fragilidades.

“Muitos dizem: ‘eu voltei a sorrir’”, partilha a irmã.

 

Uma Igreja que também cuida de quem cuida

A saúde mental dos padres coloca, assim, uma questão que ultrapassa o acesso ao acompanhamento psicológico. Obriga também a olhar para as condições em que o ministério é vivido.

Na intenção de oração deste mês, Leão XIV pede uma Igreja que acompanhe e não exclua, que escute sem julgar e se aproxime sem medo. Essa escuta não pode ser dirigida apenas às pessoas que chegam às comunidades em busca de ajuda: precisa também de alcançar quem está habitualmente do outro lado, a cuidar dos outros.

Para a irmã Silvia Cristina Maia, a prevenção começa por uma maior atenção àqueles que estão ao nosso lado. “Precisamos enxergar mais o outro, olhar mais nos olhos, ter mais interesse pela vida uns dos outros”, afirma. E ser capazes de “uma escuta generosa, sem julgamento”, destaca.

E isto, conclui, “não pode ser um dia no ano”. Tem de haver uma formação humana “contínua”.

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