Saúde mental dos padres

| 10 Jul 2022

padres, clero, clérigos,

Padres em reunião: é preciso combater os efeitos da pandemia nos sacerdotes que ficaram mais isolados. Foto © Direitos reservados.

 

Sabemos já, do senso comum adquirido nesta pandemia, do valor que tem a saúde mental nos tempos que correm. Em todas as profissões encontramos desgastes próprios de quem teve que se reinventar, de mudar rotinas e, para além do aspeto profissional, a pressão sobre as famílias, as relações, as rotinas diárias e a tendência para algum desequilíbrio e desajuste na forma de lidar com as emoções, sentimentos e afetos. Sabemos, por isso, que a área da saúde mental é um dos âmbitos prioritários no tempo que vivemos, não só para refazer “estilhaços” de vida que a pandemia provocou, como para readquir novos ritmos de vida onde situações de tensão e conflito, interior e exterior, sejam mais fáceis de gerir.

Em relação aos padres, a imprensa dá destaque a tudo aquilo que é escândalo, seja de cariz sexual, condutas fraudulentas, abusos de poder, e tantos outros comportamentos não apropriados para a condição presbiteral ou do ministério exercido. O escândalo torna-se ainda maior quando a visão mais comum que se tem é a do padre como um homem religioso e de Deus ou da esfera do sagrado, do cuidado e amor aos outros, com uma missão carregada de idealismo e até, muitas vezes, vista com algum heroísmo. Nós, padres, também tantas vezes escondemos as nossas fragilidades, dando a imagem de um “super-padre”, porque aquele que cuida e que está ao serviço tem que ser mais forte que as suas próprias feridas. A verdade é que o ministério é fonte de santidade e de vida plena, mas é também a sua própria traição quando não se consegue, a dada altura, identificar as dinâmicas da própria fragilidade.

Este período de pandemia foi e tem sido difícil para muitos padres. Há dioceses, um pouco por todo o lado, que têm procurado fazer uma releitura da vida do presbitério e da força anímica dos seus presbíteros. Padres que viram agravada a sua circunstância de solidão, fruto de isolamentos forçados, vidas paroquiais ou comunitárias fechadas com a incapacidade de se reinventar na exigência de tempos novos, padres em vida comunitária num maior tempo de relação constante com confronto com as tensões próprias de quem não se escolheu, queixas de distanciamento dos colegas ou bispos na expectativa de uma fraternidade não acontecida, gestão de instituições sociais em situações tantas vezes difíceis e agressivas, etc.

Essas e outras realidades colocaram à vista feridas, fragilidades, imaturidades e inconsistências que todos temos, algumas mais à vista e outras mais camufladas ou até negadas. Contudo, o tempo presente traz novas exigências. Os jovens não são mais os mesmos, muitas pessoas deixaram de viver da mesma forma a comunidade e estas sofreram mutações, não só de pessoas, mas de dinamismos, estando – estou convencido – a viver uma mudança de época sociocultural. Urge agora uma atenção também renovada, claro que na ação pastoral e nos seus processos, mas também nos seus ministros. Estes vivem também a necessidade de recuperarem humana e espiritualmente de dificuldades que a pandemia veio provocar ou colocar em evidência.

Impressionou-me recentemente uma entrevista do padre Hans Zollner, sj, à revista Família Cristã quando diz, a propósito dos padres abusadores, que os abusos surgem 15, 20 anos depois da ordenação, “quando as pessoas estão mais cansadas, esgotadas, sozinhas e chegam a um ponto em que as suas necessidades espirituais e emocionais não são preenchidas. Alguns caem no alcoolismo, outros abusam sexualmente e emocionalmente de menores, de mulheres, para preencher esse vazio”. (Família Cristã nº7/8, p. 52, também com versão digital)

Este é hoje um imperativo na ação eclesial: reconhecer, cuidar, curar e prevenir muitas destas dificuldades e fragilidades que vivem muitos padres. Este é, ao mesmo tempo, um dos âmbitos ainda mais negligenciados, não havendo nenhuma diocese em Portugal que se digne ter um projeto de formação permanente dos presbíteros que cuide e acompanhe, na sua integralidade, ou mesmo, que possa ajudar a uma transição entre um período de formação em seminário e a vivência alegre e feliz do ministério. Não haverá renovação da Igreja em Portugal que possa acontecer se não se cuidar também desta realidade que hoje deve fazer converter mais as nossas dioceses para que possamos viver o ministério de uma forma mais humana e saudável.

 

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz, na mesma cidade.

 

Luigino Bruni: “Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total”

Diretor d'A Economia de Francisco, ao 7M

Luigino Bruni: “Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total” novidade

Professor de Economia Política da Universidade Lumsa de Roma, e consultor do Dicastério para os Leigos, Luigino Bruni é um apaixonado pela Bíblia e pelo cruzamento entre disciplinas como a Ética e a Economia. No final do encontro global d’A Economia de Francisco, que decorreu entre os passados dias 22 e 24 de setembro em Assis, falou ao 7MARGENS sobre o balanço que faz desta iniciativa, e deixou alguns conselhos aos organizadores da Jornada Mundial da Juventude 2023, que irá realizar-se em Lisboa.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Índia

Carnataca é o décimo Estado a aprovar lei anticonversão

O Estado de Carnataca, no sudoeste da Índia, tornou-se, no passado dia 15 de setembro, o décimo estado daquele país a adotar leis anticonversão no âmbito das quais cristãos e muçulmanos e outras minorias têm sido alvo de duras perseguições, noticiou nesta sexta-feira, 23, o Vatican News, portal de notícias do Vaticano.

Neste sábado, em Lisboa

“Famílias naturais” em convívio contra a ideologia de género

Prometem uma “tarde de convívio e proximidade”, um concerto, diversão e “múltiplas actividades para crianças e adultos: o “Encontro da Família no Parque” decorre esta tarde de sábado, 24 de Setembro, no Parque Eduardo VII (Lisboa), a partir das 15h45, e “pretende demonstrar um apoio incondicional à família natural e pela defesa das crianças”.

Gratuito e universal

Documentário sobre a Laudato Si’ é lançado a 4 de outubro

O filme A Carta (The Letter) será lançado no YouTube Originals no dia 4 de outubro, anunciou, hoje, 21 de setembro, o Movimento Laudato Si’. O documentário relata a história da encíclica Laudato Si’, recolhe depoimentos de vários ativistas do clima e defensores da sustentabilidade do planeta e tem como estrela principal o próprio Papa Francisco.

Prémio D. António Francisco homenageou pediatria e Serviço Nacional de Saúde

São João e Centro Materno Infantil

Prémio D. António Francisco homenageou pediatria e Serviço Nacional de Saúde novidade

A ala pediátrica do Centro Hospitalar Universitário de São João e o Centro Materno Infantil do Norte (CMIN) receberam, ao início da tarde desta segunda-feira, o Prémio D. António Francisco correspondente à edição deste galardão para o ano de 2020. Em virtude da pandemia, o prémio só agora foi entregue, em cerimónia que decorreu no Palácio da Bolsa, no Porto. Ambas as entidades foram consideradas pelo júri como cumprindo “de forma exemplar os valores do Prémio”, que com esta atribuição fqaz também um “reconhecimento público ao Serviço Nacional de Saúde, pelo esforço desenvolvido na resposta à pandemia”.

Agenda

Fale connosco

Autores