Saúde mental e ócio

| 28 Out 2023

jovem solidao saude mental foto c petko ninov

“O ser humano tem pouca vocação ou nenhuma para o ócio absoluto, muito menos se for uma criança ou um jovem.” Foto © Petko Ninov

 

Num artigo do DN do último domingo sobre saúde mental, a psicóloga Inês Barroca escreve que «As crianças e adolescentes parecem já não saber aborrecerem-se. Várias vezes prescrevi, em consulta, como receita, “não fazer nada” e, até agora, não tive ninguém que o tivesse efetivamente conseguido.» (DN, domingo 15/10/2023, artigo “Não há saúde sem saúde mental”)

Com efeito, a exposição constante a estímulos indutores de dopamina, como sejam os que um telemóvel disponibiliza, somada por vezes a uma incapacidade total de impor limites às crianças por parte dos pais, têm contribuído para que as novas gerações acusem uma enorme intolerância à frustração e ao tédio.

Julgo, todavia, que não basta receitar o “não fazer nada”. A não ser, é claro, que isso signifique “fazer alguma coisa”. O importante, a meu ver, não é que as crianças e os jovens “façam nada”, mas que aprendam a usar o seu ócio e as suas energias (que são muitas) para fazer algo que lhes seja proveitoso, física e/ou psicologicamente. Algo criativo ou intelectualmente estimulante; ou algo que os ponha em contacto com a natureza; ou que os faça sentir o gosto de ajudar, de participar, de ver concretizada uma ideia, ainda que sujem e se sujem muito.

O ser humano tem pouca vocação ou nenhuma para o ócio absoluto, muito menos se for uma criança ou um jovem. É preciso estar sempre a fazer alguma coisa, porque é a partir do fazer, especialmente se este manifesta um claro pensar e sentir, que o sentido de uma vida humana se estrutura e define. Se as energias sempre fluentes de um indivíduo não são devidamente disciplinadas e canalizadas, é quase certo que conduzem à dispersão, e daí ao profundo tédio e ao não-sentido, traduzindo-se frequentemente em “perversões” da ação, como sejam as várias formas de violência, contra os outros e contra si próprio.

Dizer a uma criança ou jovem que “não faça nada”, é um bocadinho como dizer a um rio que pare de correr, ou a uma pomba que não se mexa. Os padres do deserto dos primórdios do cristianismo, muito à semelhança dos yogis orientais, desenvolveram a prática da “hesychia”, que mais não era do que o atingir de um estado profundo de silêncio e contemplação interior. A equivalente oriental, designada por samadhi, buscava basicamente o mesmo. Ora, a não ser que um indivíduo chegue a tanto, dificilmente conseguirá, literalmente, não fazer nada sem acabar por enlouquecer. E mesmo tais práticas contemplativas não são realmente um “nada fazer”, porque derivam de um esforço contínuo e persistente de disciplina mental ou espiritual. Um esforço que procura o absoluto da unidade em oposição ao absoluto da dispersão.

Mas também aí a nossa “civilização” está a falhar, porque, apesar do crescimento exponencial das possibilidades de escolha, e, portanto, também dos fatores de dispersão, ela é essencialmente incapaz de educar os indivíduos para a disciplina da mente e do espírito. O mesmo é dizer, é incapaz de educar para a verdadeira liberdade. Desde logo a própria escola, que está há muito refém do ritmo frenético que a sociedade lhe impõe, bem como das exigências industriais de produtividade a qualquer custo, sem considerar o ritmo e as necessidades subjacentes à maturação equilibrada, humana e espiritual, dos alunos.

O que é preciso é uma verdadeira educação para a liberdade. Não só de conteúdos, mas também de práticas e competências. A grande filósofa e mística francesa Simon Weil dizia, e com bastante razão, refletindo em parte o pensamento do seu mestre Alain, que o verdadeiro sentido de toda a educação, desde um problema de matemática a um de geografia ou filosofia, era o de educar para atenção. Porque uma atenção disciplinada é condição absolutamente essencial para que um ser humano seja humano, unindo as dimensões prática e contemplativa. Tanto serve para orar a Deus, como para meditar; para construir uma boa teoria metafísica ou um magnífico móvel para a sala de jantar, ou tão-só para saber escutar; ou seja, para amar.

Mas hoje perdermos de vista o sentido espiritual último de todas as coisas, até das mais ínfimas, e talvez estejamos por isso agora a pagar o preço que decorre do esvaziamento espiritual das almas. Ressalvo, todavia, que o materialismo estrito é uma condição, uma metafísica por defeito que se encontra tanto entre aqueles que são contra a metafísica (i.e. ateus militantes, fisicalistas, adeptos do cientismo, etc.), como entre muitos pretensos crentes. No essencial, o materialismo estrito exprime uma mais ou menos consciente, em todo o caso superficial, no nada, quer dizer, na crença de que todo o universo e todas as coisas são nada e se resolvem no nada, resultando na conclusão de que não há um sentido transcendente para a vida. É superficial, porque se situa ao nível de um simplismo lógico-discursivo imediato, embora desminta o mais profundo e radical desejo de unidade e de sentido metafísico que existe, creio eu, em todo o coração humano, longe dos holofotes e dos conformismos sociais. Já para não falar do que nos diz o facto incontornável de habitarmos uma consciência em si, quer dizer, uma realidade autosubsistente e interior, uma alma, em suma, facto que parece desmentir sem apelo o pretenso nada que, alegadamente, atravessa o coração de toda a matéria. Mas isto não vem ao caso agora.

Diria, por outras palavras, e em conclusão, que o problema da saúde mental requer uma abordagem integrada, que coloque no centro a ideia de que qualquer coisa de essencial está a falhar na educação dos nossos jovens, quer na escola, quer na própria sociedade e no seio da própria família. Essa coisa diz respeito à importância que o silêncio e o ócio ativo têm no seu desenvolvimento humano. Um espírito saudável é-o, necessariamente, aquele que ocupa com proveito as mãos, mas também a mente e o coração. Rosseau, no seu tratado sobre a educação, o Émile, dizia uma coisa bastante curiosa, que era a de que o indivíduo, quando não estivesse a trabalhar no seu ofício (e ele dava grande importância à aprendizagem de um ofício manual), devia ser filósofo. Certamente que há aqui algum exagero, porque nem todos têm de ser filósofos, mas penso que a ideia fundamental é a de que todos os ócios devem ser de alguma forma ativos e criativos, o que parece fazer todo o sentido. Hoje, pretende-se que o ócio signifique somente um “nada fazer”, ou um gozar sem mais de estímulos intermináveis sem nenhuma coerência, utilidade ou sentido. Este género de ócio, especialmente nos jovens, conduz a um vazio que, mais tarde ou mais cedo, terá de ser preenchido, nem que seja com toda a porcaria. Termino com as palavras que julgo serem de Zigmund Bauman, que escreveu que a vida não deve ser apenas o somatório de momentos agradáveis ou de prazer, mas antes a construção coerente e paciente de um sentido.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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