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Concerto na Gulbenkian

Schubert, Sophia e a Incompletude

| 30/11/2021

Imagem de arquivo do auditório da Gulbenkian, num dos seus concertos. Foto do site da Fundação.

 

Regressar finalmente aos concertos da Fundação Gulbenkian. Talvez por me ver privada destes momentos únicos durante quase dois anos de pandemia, uma enorme alegria tomou conta de mim. Enquanto esperava, os músicos afinavam os seus instrumentos sob orientação do 1º violino. O painel do fundo do palco abria-se diretamente para os jardins iluminados sobriamente, uma zona escura qual túnel, sem se saber exatamente aonde levava. Tanta leveza! Tanta profundidade!

A Sinfonia nº 8 de Schubert foi a “essência” do concerto, sinfonia que comummente apelamos de “Incompleta”. Não sabemos exatamente porque ficou “incompleta”. Por ter só dois andamentos, allegro moderato e andante con moto? Porque fora diagnosticada a Schubert uma doença fatal? Ou, simplesmente, na sua incompletude Schubert considerou-a completa?

Esta sinfonia só foi descoberta alguns anos após a morte de Schubert, depois de a Sociedade Musical de Gratz lhe ter atribuído um diploma honorário. O compositor quis agradecer dedicando esta obra à Academia. Desconhece-se se terão sido escritos mais andamentos.  

Pessoalmente considero esta sinfonia uma das mais belas peças de Schubert.  Entre os acordos heroicos com o clarinete e o oboé, prevalece a infinita onda de instrumentos de cordas, nomeadamente os violinos. Vão da angústia mais profunda à alegria mais pura e densa e a uma infinita ternura. Enquanto escrevo este texto ouço em música de fundo esta sinfonia. Recorro a esta sinfonia com alguma frequência e, quando o faço, ouço-a num modo repetido, incansavelmente, deixando que as frases musicais se impregnem em mim. Esta sinfonia tem-me valido em momentos variados da minha vida, sobretudo em momentos de perda e ausência. Faz-me sentir que nada é irreversível e que mesmo o “incompleto” pode simplesmente ser a antecâmara do “completo”.

O dicionário diz-me que incompletude é a “qualidade do incompleto, do que não está acabado, completo, perfeito [por extensão] em que falta algo, geralmente de teor muito importante”.

Intuo que Schubert, depois de voltar a escutar os dois andamentos iniciais – Allegro moderato (si menor) e Andante con moto (mi maior) – decidiu suspender a sinfonia porque a sua incompletude, para o artista, já era completa. Deixa-a em suspenso, então…

“beber a voz dessa promessa…”

Sophia de Mello Breyner Andresen numa foto datada provavelmente dos anos 1950. Foto Fernando Lemos/Direitos reservados

 

Enquanto escutava esta sinfonia de olhos levemente fechados veio-me à mente a frase de um poema de Sophia, “e na face incompleta do amor”. Sei o poema praticamente de cor:

Um dia quebrarei todas as pontes

Que ligam o meu ser, vivo e total,

À agitação do mundo do irreal,

E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora

A plenitude, o límpido esplendor

Que me foi prometido em cada hora,

E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,

Irei beber a voz dessa promessa

Que às vezes como um voo me atravessa,

E nela cumprirei todo o meu ser.

Qualquer texto se presta a múltiplas interpretações – nomeadamente um poema. Pessoalmente leio este poema como expressão da sede de Deus: “quebrar pontes”; “a agitação do mundo do irreal”; “subir até às fontes”; a “plenitude”; “a face incompleta do amor”; “beber dessa promessa”; “um voo me atravessa”; “cumprir todo o meu ser”.

Sim, é um poema sobre a sede de Deus que se expressa numa possível dicotomia entre palavras: “total” – “incompleto”; “agitação” – “calma”; “quebrar – subir”; “morar – irreal”; “atravessa” – “cumprir”; “límpido esplendor” – “face incompleta do amor”.

Esta “face incompleta do amor” leva-me à “Sétima Morada” de Teresa d’Ávila. Porque a “Sétima Morada” é a morada do desejo insatisfeito, incompleto, com pequenos laivos de completude ou de fusão total em Deus . A metáfora das velas usada por Teresa é sempre uma inspiração: “(…) porque sempre fica a alma com o seu Deus naquele centro. Digamos que a união é como se duas velas de cera se juntassem em tal extremo, que toda a luz fosse uma, ou que o pavio, a luz e a cera fosse tudo um; mas depois pode-se apartar muito bem uma vela da outra, e ficam as duas velas, e o pavio da cera. Aqui é como se caísse água do céu num rio, ou numa fonte, onde tudo fica feito água (…) não haverá meio de os apartar”. 

“Treinar para atender ao mais leve esplendor…”

Êxtase de Santa Teresa, de Bernini. Foto Alvesgaspar/Wikimedia Commons

 

Teresa viveu nos seus momentos de êxtase, experiências de fusão completa com Deus. Mas essa fusão continha a necessidade de “apartar”, “voltar a separar” para que pudesse continuar a obra de Deus neste mundo. Esse o seu chamamento, por vezes num cansaço sem fim, como acentua o poema:

Vossa Sou, para Vós Nasci

Que quereis, Senhor, de mim?

Se me queres na alegria,

Por amor de Ti vou alegrar-me.

Se me enviais trabalhos 

quero morrer a trabalhar.

Eu sou vossa, por vós nasci,

Que quereis, Senhor, de mim?

Paulo Freire afirma a sua filosofia com clareza em Pedagogia da Autonomia: “A consciência do mundo e a consciência de si como ser inacabado necessariamente inscrevem o ser consciente de sua inconclusão num permanente movimento de busca.”

Um fragmento de um poema de Marie Louise Gluck (Prémio Nobel da Literatura 2020) pergunta: “Quem sabe se não me estarás a treinar para atender ao mais leve esplendor?” Que inquirição tão bela!

Fico-me com esta interrogação, a propósito da tensão existente na Sinfonia Incompleta: “Quem sabe se não me estarás a treinar para atender ao mais leve esplendor?” Esta pergunta serena-me, faz-me caminhar com calma e sem ansiedade, sedenta de água viva e vivendo desse desejo. 

Tranquila na minha incompletude repouso no fragmento poético de Mário de Sá Carneiro:  “Um pouco mais de azul – eu era além.”


Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal.
t.m.vasconcelos49@gmail.com

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