Biblista irlandês assegura

“Se a Igreja ordenasse mulheres, nada de fundamental na fé mudaria”

| 30 Ago 2023

A Última Ceia de Jesus celebrada também com mulheres, na visão do polaco Bohdan Piasecki (1998).

A Última Ceia de Jesus celebrada também com mulheres, na visão do polaco Bohdan Piasecki (1998).

 

“Todos os seres humanos são à imagem e semelhança de Deus; todos os cristãos são à imagem e semelhança de Cristo. Dizer que uma mulher não pode representar Cristo seria minar a nossa compreensão fundamental do batismo e a condição para a ordenação não é o género, mas precisamente a fé e o Batismo”.

A conclusão é do teólogo e frade agostiniano irlandês Kieran J. O’Mahony que, além de biblista, especialista em S. Paulo, e pároco, tem desempenhado na diocese de Dublin cargos ligados à formação dos ministérios ordenados e laicais. Foi igualmente presidente das duas associações de estudos bíblicos do seu país.

Este teólogo acaba de publicar um artigo no jornal La Croix International intitulado Learning from the women of St Paul [Aprender com as mulheres de S. Paulo] que constitui um contributo para a reflexão que o lugar das mulheres na Igreja certamente terá no Sínodo sobre a Sinodalidade, em outubro próximo.

Como o autor refere logo no início do texto, dos 70 membros do Sínodo que não-bispos com direito de voto, metade são mulheres, facto que, parecendo em si mesmo irrelevante, reveste-se, no seio da Igreja, de um caráter “revolucionário e (provavelmente) irreversível”, observa O’Mahony. Para ele, como salienta o artigo, estando a questão do papel das mulheres na Igreja institucional já firmemente inscrita na agenda sinodal, “a verdadeira questão é ouvir a voz das mulheres, através da Igreja, não por graça e favor, mas por direito”.

Então que nos ensinam as “mulheres de S. Paulo”? O biblista – é nessa qualidade que escreve – começa por traçar um quadro evolutivo dos ministérios nos primeiros cem anos do cristianismo. Paulo, recorda ele, viveu naquilo a que chama “o período do carisma”, grosso modo situado entre os anos 30 e 60. Como se pode ver em Romanos, 16, ele estava acompanhado por mulheres em funções ministeriais, em coerência com o seu ensinamento de que “já não há judeu nem grego; já não há escravo nem livre; já não há homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3,28).  Essas mulheres têm nome: Febe, diácono (significa líder local) da igreja de Cencréia; Prisca (uma colaboradora de Paulo) e Júnia (uma parente de Paulo, chamada por ele nada menos que apóstolo). Mas há outros nomes: Maria, Trifena, Trifosa e a amada Pérside. Todas elas são descritas como “trabalhadoras no Senhor”, uma expressão que, explica o biblista, significa que exerciam funções de ensino ou de evangelização.

 

As mulheres não estiveram caladas, foram caladas

Em jeito de aparte jocoso, O’Mahony acha que não era de esperar que estas mulheres “ficassem caladas na Igreja”, em referência àquilo que ele alegadamente escreveu em 1 Coríntios 14:34-36 e que, aduz, é hoje geralmente reconhecido como interpolação não paulina. Isto é, um inciso inserido no texto quando a coleção das suas cartas ficou disponível, “uma tentativa de fazer o grande apóstolo dizer o que ele nunca, jamais, teria dito”.

O texto refere-se, depois, a uma geração seguinte (anos 60-90), designado “o tempo da memória”, de caraterísticas mais conservadoras, que o autor deteta na atitude face ao lar e à escravatura, que surge nas cartas chamadas deutero-paulinas (por serem atribuídas não ao punho de S. Paulo, mas a discípulos ou a uma tradição a ele ligada, especificamente, neste caso, Colossenses e Efésios. E propõe também um período seguinte, até ao ano 120, dito o “tempo da institucionalização”, no qual a busca de “uma maior conformidade com as expetativas da sociedade” leva cartas deutero-paulinas como 1 e 2 Timóteo e Tito, a proibir as mulheres até de falar na igreja, coisa que só mostra que elas falavam: “não há necessidade de proibir o que não está a acontecer!”, nota o autor.

 

A hierarquia da Igreja não remonta ao Jesus histórico

Santa Febe, mulher diácono

Ícone ortodoxo representando Santa Febe, uma das mulheres diáconos identificadas nos textos de São Paulo.

Foi nesta altura que começou também a surgir o ministério triplo de supervisor (episcopos, mais tarde bispo), ancião (presbyteros, mais tarde presbítero) e servidor (diakonos, mais tarde diácono).

Assim sendo, temos que “os ministérios evoluíram nos primeiros cem anos do cristianismo e podem ser encontrados nas igrejas paulinas” e que “o ministério triplo que acabou por surgir [no virar do primeiro para o segundo século da era cristã] não remonta ao Jesus histórico”.

O processo de separação da Igreja face à religião-mãe (o judaísmo) foi problemático, “em parte, explica Kieran J. O’Mahony, porque não havia qualquer ensinamento ou expetativa de Jesus sobre O Caminho como uma entidade religiosa separada”.

A ter sido assim, algumas consequências tornam-se significativas: “Será que Jesus ordenou apenas homens? Na realidade, Jesus não ordenou ninguém – é anacrónico ler a evolução muito posterior da vida e do ministério de Jesus. A questão de quem pode ordenar é, por conseguinte, mais aberta do que poderíamos imaginar! Esta visão evolutiva só é possível se acreditarmos no trabalho contínuo do Espírito, mesmo hoje”.

A verdade é que – lembra o teólogo – “a longa tradição da Igreja é que só os homens podem ser ordenados”. Mas a tradição tem forma (ordenação de homens) e conteúdo (significado). “Qual é o significado de limitar a ordenação aos homens?”, questiona, então o autor, para responder de seguida: “se confinar a ordenação a homens faz parte da ‘economia da salvação’ e se, como sabemos, tudo na economia da salvação promove os valores e a visão do Reino de Deus, então, como é que a exclusão das mulheres promove o Reino? Dificilmente uma resposta a esta pergunta deixará de ser objeto de uma crítica muito dura”.

O frade irlandês traz à liça, neste quadro, “a nova doutrina das dimensões petrina e mariana”, que tem servido ao Papa Francisco para justificar a tradição de ordenar apenas homens, formulada numa entrevista à revista America, em 22 de novembro de 2022, visando dar ao problema uma dimensão ou fundamentação teológica.

“Nessa doutrina, explica O’Mahony, a igreja ‘doadora’ é representada pelo princípio masculino e a igreja ‘recetora’ é representada pelo princípio feminino. Este é um terreno perigoso. Levado ao extremo, então todos os homens da Igreja deveriam ser ordenados e todos os leigos deveriam ser mulheres! A Bíblia ensina o contrário. Todos os seres humanos são criados à imagem e semelhança de Deus, sem distinção de género (Génesis 1,26-27)”. Por isso, uma mulher não poder representar Cristo seria “minar a nossa compreensão fundamental do Batismo”; “a condição para a ordenação não é o género, mas precisamente a fé e o Batismo”.

 

Pode a Igreja evoluir doutrinariamente?

O artigo termina com uma questão de fundo, vital para os membros que participarão no Sínodo e para todos os fieis: “pode a Igreja desenvolver a – e crescer na – sua doutrina?” Ou seja, a doutrina é imutável ou pode evoluir?

A resposta, para o teólogo, só pode ser afirmativa. “A Igreja Católica tem, para ele, uma doutrina de desenvolvimento da doutrina. Podemos ver isso nos sacramentos, na Eucaristia, no Matrimónio, em Maria, na doutrina social, no diálogo inter-religioso e, não menos importante, no ecumenismo (que começou fora da Igreja Católica). A Igreja está sempre a crescer e a responder às solicitações do Espírito. Não há provas de que essa evolução tenha de alguma forma parado, congelada num momento idealizado do passado. Não temos de pensar que estamos no fim do cristianismo – estamos mesmo no início, com apenas 2000 anos!”

E remata deste modo:

“Imaginemos por um momento que as mulheres pudessem ser ordenadas. Que doutrina fundamental da fé mudaria? A Trindade? A encarnação? A salvação? A graça? Sacramentos? Nenhuma grande doutrina seria ameaçada; em vez disso, teríamos um enriquecimento do ministério, um verdadeiro desenvolvimento da doutrina. O que é que há a temer?”

Mas não basta ter em conta o processo da própria Igreja, Para o biblista, há também a questão da credibilidade: “Qualquer instituição que exclua sistematicamente as mulheres das suas estruturas tem um grande problema de credibilidade na sociedade atual. Porquê acrescentar mais um obstáculo à fé? Mais uma vez, a verdadeira questão não é tanto a disponibilização de padres, por muito importante que isso seja. A verdadeira questão é ouvir a voz das mulheres, mesmo através da Igreja, não por graça e favor (com o devido respeito pelo Papa Francisco), mas por direito”.

O Sínodo, que se vai prolongar pelo ano de 2024, representa uma oportunidade para ouvir uma e outra vez o que o Espírito está a dizer às igrejas. Esperemos que o Espírito seja ouvido!”, finaliza Kieran J. O’Mahony.

 

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