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Taybeh
A igreja de Cristo Redentor, sede da paróquia latina de Taybeh. Foto © Fabian Figueiredo

Entrevista exclusiva

Pároco da última aldeia cristã da Palestina: “Se a nossa presença vos interessa, ajam. Se não interessa, digam-nos a verdade”

| 20/08/2026

Foi alvejado três vezes por colonos israelitas e continua a celebrar missa todos os dias. Bashar Fawadleh, 39 anos, é o pároco de Taybeh, a última aldeia inteiramente cristã da Palestina, a Efraim bíblica onde Jesus se refugiou antes da Paixão. O cerco vê-se a olho nu: mais de trinta caravanas de colonos a leste, meia dúzia de postos avançados a oeste, rondas de intimidação por entre as casas.

Dias depois de colonos terem invadido, uma vez e outra, a casa que uma família da paróquia se preparava para habitar, o padre Bashar Fawadleh recebeu-me com a hospitalidade de que não abdica e uma lucidez que não poupa ninguém: nem os ministros israelitas que dão cobertura aos atacantes, nem a Europa que condena por comunicado e mantém o embaixador longe. Nesta entrevista publicada em primeira mão pelo 7MARGENS diz, sem rodeios: «É uma limpeza étnica em câmara lenta.» E aos políticos europeus com medo das palavras deixa uma ordem simples: «Não tenham medo de as usar. E não tenham medo de as fazer valer no terreno.»

Bashar Fawadleh nasceu em Jerusalém no ano da Primeira Intifada e cresceu em Abud, aldeia a noroeste de Ramallah onde cristãos e muçulmanos são metade e metade. Entrou no seminário no começo da Segunda Intifada e é pároco de Cristo Redentor, em Taybeh, desde 2021.

Bashar Fawadleh “recebeu-me com a hospitalidade de que não abdica e uma lucidez que não poupa ninguém: nem os ministros israelitas que dão cobertura aos atacantes, nem a Europa que condena por comunicado e mantém o embaixador longe.” Foto © DR

 

Comecemos pelo que aconteceu a 5 de agosto. Dois colonos cortaram a vedação de uma casa que uma família cristã preparava para habitar. Voltaram uma vez e outra e acabaram por montar tendas. Qual é hoje a situação nessa propriedade e como está a família?

A situação é muito complicada, dura e perigosa. Cortaram a vedação da casa. A família comprou o terreno, construiu a casa, gastou muito dinheiro. Há um mês, quando já tinham posto a mobília toda lá dentro e se preparavam para se mudar, os colonos chegaram. Consegue imaginar? Imagine que comprou uma casa em Lisboa e que está pronto para entrar nela com a sua família, e alguém chega, ocupa-a, proíbe-o de entrar e corta-lhe a vedação. Há dois ou três dias, a tenda que tinham montado no terreno ao lado foi retirada: o exército israelita veio e removeu-a. Mas não sabemos como interpretar este movimento. Estamos confusos. Não estamos seguros.

 

Disse que os colonos fazem agora rondas lentas dentro da própria aldeia, entre as casas, para serem vistos.

Sempre. Entram em Taybeh para provocar. Querem criar problemas e provocar reações da nossa gente. Se conseguirem uma reação depois da provocação, os problemas crescem, e aí podem fazer tudo o resto. Nestes últimos dois dias não os vimos, porque a polícia israelita tem entrado e saído constantemente e expulsa-os. Quando a polícia aparece, eles vão-se embora, quando a polícia sai, eles voltam.

 

Mas nenhum ataque contra Taybeh levou a uma única detenção. Quando chamam a polícia, o que acontece?

Nunca ouvimos falar de detenções aqui. Ouvimos que em Tal, perto de Nablus, seis colonos foram detidos, em Taybeh, não. A polícia chega sempre tarde, uma hora, hora e meia depois. Só nestes dois últimos dias é que passou a aparecer com frequência, movendo-se nas mesmas zonas por onde os colonos andam. Penso que estão a fazer alguma coisa por causa da pressão das missões diplomáticas, sobretudo dos americanos, e da pressão eclesiástica, dos contactos dos líderes das Igrejas com o governo israelita. E graças ao cardeal Pizzaballa [Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém], que está a fazer um trabalho enorme. A responsabilidade sobre os ombros dele é pesadíssima.

Ruínas Igreja bizantina de São Jorge (Al-Khader), do século V.

Ruínas da igreja bizantina de São Jorge (Al-Khader), do século V, testemunho de dezasseis séculos de presença cristã ininterrupta em Taybeh.
Foto © Fabian Figueiredo

Taybeh é a Efraim bíblica, a povoação para onde Jesus se retirou com os discípulos antes da Paixão, no Evangelho de João. A sua igreja é dedicada a esse Último Retiro. O que significa ser o pároco do lugar onde Cristo se escondeu de quem o queria matar, no momento em que os seus paroquianos estão a ser expulsos?

É um privilégio estar no mesmo lugar onde Jesus esteve. Nesta terra, em cada metro, Jesus esteve. Se estou aqui, sigo os passos de Jesus. E essa é a mensagem para mim e para a minha comunidade: no meio do tempo mais duro, ainda temos esperança. A última palavra não pertence à morte nem à cruz, pertence à ressurreição, ao túmulo vazio, à vida nova. Isso dá-me força e compromisso para estar ao lado do nosso povo, ouvi-lo, visitá-lo, estar por dentro dos problemas que enfrentamos. Estar por dentro dos problemas significa não ser um problema, ser uma solução, e dar às pessoas coragem para ficar. Mas, infelizmente, continuo a ver gente a pensar partir. Quinze famílias já partiram. Isso é muito duro para mim.

 

Há uma bela ironia no nome da aldeia: diz a tradição que foi Saladino, um conquistador muçulmano, quem rebatizou Efraim como Taybeh, “a boa”, pela hospitalidade do seu povo cristão. O que nos diz essa história sobre a coexistência que hoje está a ser destruída?

Primeiro, com todo o respeito por Saladino: essa teoria não é absolutamente segura. Não temos nada de concreto, datas, documentos históricos, sobre essa mudança de nome. Taybeh era Ofra, um nome hebraico e cananeu, e os nomes mudaram sempre. E há três Taybeh nesta terra: uma perto de Jenin, outra no Triângulo [zona de povoações árabes no norte do Estado de Israel], junto a Umm al-Fahm, e esta. De qual falamos? Respeito a lenda, não a recuso, mas não é sólida.

Quanto à coexistência, conheço-a bem, porque sou de Abud. Abud não é como Taybeh: é metade metade, 50% muçulmanos e 50% cristãos. E tínhamos ótimas relações. Quando era criança, andava sempre com o meu avô, que era um dos líderes de Abud. Depois da oração de sexta-feira, os líderes muçulmanos vinham todos a nossa casa. Sentavam-se, bebiam café, conversavam, riam. E um daqueles líderes do bairro muçulmano metia sempre a mão ao bolso e dava-me um shekel ou meio shekel [moeda israelita]. Significava muito para mim, porque sentia que era o mesmo que o meu avô também fazia. Infelizmente, esses encontros perderam-se, e com eles perdemos um pouco da coexistência. Mas respeitamo-nos uns aos outros. Os meus colegas de escola muçulmanos ainda hoje me chamam Abuna, padre. Respeitam a escolha que fiz na vida.

“E temos algo fundamental [em Taybeh]: a escola. Na nossa escola, 70% dos alunos são muçulmanos. Vêm das aldeias das redondezas, somos a única aldeia 100% cristã entre quinze aldeias 100% muçulmanas a leste de Ramallah [a cidade sede da Autoridade Palestiniana].” Foto © Fabian Figueiredo

E temos algo fundamental [em Taybeh]: a escola. Na nossa escola, 70% dos alunos são muçulmanos. Vêm das aldeias das redondezas, somos a única aldeia 100% cristã entre quinze aldeias 100% muçulmanas a leste de Ramallah [a cidade sede da Autoridade Palestiniana]. Quando há problemas, não são problemas entre muçulmanos e cristãos, são problemas entre estudantes. Nós vamos às festas deles, eles vêm às nossas. Ainda hoje, nas ruínas de Al-Khader [a igreja bizantina de São Jorge], um líder druso de Majdal Shams, nos Montes Golã ocupados, me disse: «dá-me o teu número, quero manter boas relações contigo.»

Aceitamo-nos. A pergunta é: de onde vem a não-coexistência? Porque é que precisas que eu seja muçulmano, que mude a minha fé? Eu não preciso que sejas cristão. Preciso que sejas um ser humano, que me aceites como sou. Se aceitarmos o outro como ele é, conseguimos aceitar-nos a nós próprios.

 

A ocupação tornou essa existência mais difícil?

Nalguns pontos, sim. Já no tempo otomano se dizia: dividir para reinar. Quando dividem, conseguem governar. Quando não há divisão, não conseguem.

 

A história da Palestina é uma história de coexistência entre povos, fés e culturas.

Claro. E não é só uma história de diálogo: é uma história de vida em comum. Esse é o mosaico da Palestina. Se removeres uma parte do mosaico, deixa de ser o que é, passa a ser incompleto, deixa de ser belo.

Ruínas Igreja bizantina de São Jorge (Al-Khader), do século V.

As ruínas da igreja bizantina de São Jorge (Al-Khader), do século V, testemunho de dezasseis séculos de presença cristã ininterrupta em Taybeh.
Foto © Fabian Figueiredo

Os cristãos rezam em Taybeh sem interrupção há quase dois mil anos, as ruínas de São Jorge são do século V. Sente o peso de poder ser a geração em cujo tempo isto acaba?

Ainda tenho esperança. Se falarmos numa perspetiva humana e histórica, talvez um dia esta terra fique vazia de cristandade. Mas se falarmos numa perspetiva eclesial, bíblica e espiritual, não acabará. Porque tudo começou nesta terra, é impossível que seja removida daqui. Jesus prometeu: «sereis minhas testemunhas, de Jerusalém até aos confins do mundo.» Se o cristianismo for removido de Jerusalém, então a promessa não era de Deus. E este é o meu desafio a Deus.

 

Entrou no seminário em 2000, quando começava a Segunda Intifada. Foi ordenado em Ramallah em 2014, numa noite em que o exército israelita atacou a cidade. Como é que uma vocação nascida sob ocupação molda a forma de entender o Evangelho?

Entendo o Evangelho quando ponho a cruz ao ombro e sigo Jesus até ao Gólgota. Nasci em 1987, na Primeira Intifada, na Segunda, nasceu a minha vida espiritual. Entre essas duas colunas da minha vida fui crescendo: a ver a minha terra ocupada, ameaçada pelos colonos, pelos soldados, pelo exército. E ao mesmo tempo com esperança, porque sou cristão. Os cristãos acreditam em Jesus, que ressuscitou da morte. E eles não sabem que nós, cristãos, somos semelhantes a Jesus Cristo: se morrermos, ressuscitaremos.

 

Chegou a Taybeh em 2021 e disse que a aldeia não tinha problemas com os colonatos vizinhos antes deste governo. O que mudou com Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich?

Mudou isto: remover os outros da terra, não aceitar os outros, não respeitar os habitantes originais nas suas terras e nas suas casas. São fanáticos, radicais, fundamentalistas. Só querem ver judeus nesta terra, vista pelos olhos deles, e os palestinianos removidos dela.

Padre Bashar Fawadleh. Cisjordânia

“No incêndio, cancelaram três vezes a coordenação entre o COGAT [organismo do Ministério da Defesa israelita que coordena as atividades civis nos territórios ocupados da Palestina] e os bombeiros palestinianos.” Foto: Padre Bashar Fawadleh. Cisjordânia. © Patriarcado Latino de Jerusalém

Explique-nos a mecânica do cerco. Seis postos avançados em redor da aldeia?

Mais. Na zona leste há mais de trinta caravanas, e cada caravana pode transformar-se num posto avançado e crescer. Na zona oeste serão uns seis postos avançados, talvez menos, talvez mais: não sabemos ao certo, porque não conseguimos chegar a essas áreas.

 

A pedreira foi tomada em março, com uma bandeira israelita içada no silo. O autocarro escolar ficou com os vidros partidos. Estradas fechadas. E o incêndio em Jabal al-Masis, com os bombeiros retidos. Há uma estratégia por trás desta sequência?

Não está isolado do que aqui acontece. É tudo junto, embora tenhamos sempre de ser cuidadosos em tudo o que afirmamos. No incêndio, cancelaram três vezes a coordenação entre o COGAT [organismo do Ministério da Defesa israelita que coordena as atividades civis nos territórios ocupados da Palestina] e os bombeiros palestinianos. Proibiram-nos de ir apagar o fogo. Se o fogo não é teu, se a terra não é tua, porque nos proíbes de lá chegar? Porque proíbes os bombeiros? Porque nos roubaram os telemóveis e nos partiram os carros? E o mais perigoso: porque dispararam contra mim e contra outros, três vezes?

 

Dispararam contra si três vezes?

Sim. Dispararam três vezes.

 

Desde 2023, quantas pessoas deixaram Taybeh? E quantos filhos da aldeia vivem já no estrangeiro?

Quinze famílias e dezenas de pessoas a título individual: oitenta, noventa. E a diáspora são quinze mil.

 

A paróquia criou dezenas de empregos para segurar as famílias. Podem os empregos e a fé competir com o medo?

Em parte. Quando crias empregos, dizes às pessoas: estamos aqui e estamos ao vosso lado. Mas não chega. E digo-lhe uma coisa, através de si e do vosso parlamento, como parte da União Europeia: o embaixador da União Europeia na Cisjordânia ainda não veio a Taybeh. É a quarta vez que o digo a interlocutores europeus. Não o culpo, mas fazem-se eventos, atividades, festas, e para nós isso não serve. Se são europeus, têm de vir, sem precisarem do meu convite. Segundo: é preciso investir em Taybeh. Se não há segurança, que haja pelo menos trabalho, salário, sustentabilidade. Temos um projeto de habitação: estamos a acabar os primeiros cinco apartamentos, para vender abaixo do preço de mercado, e a segunda fase está em angariação de fundos. Se os europeus, se um parlamento como o de Portugal, ajudarem nisso, o efeito na nossa presença aqui é real. E talvez consigamos convencer gente da diáspora a voltar. Mas precisamos do vosso apoio e do vosso compromisso.

 

É padre e é quase um presidente de câmara.

Não. Sou padre e pastor. Preocupo-me com tudo o que se passa em Taybeh e ajudo o presidente da câmara na mesma perspetiva: o bem de Taybeh.

 

Taybeh é famosa no mundo pela sua cervejaria e pelo Oktoberfest, que até muçulmanos e judeus frequentavam. O que aconteceu ao festival e à economia da aldeia?

O Oktoberfest está cancelado desde 2023. O último foi na semana anterior ao 7 de outubro [de 2023]. Eu gostava do festival, não faço parte dele, porque sou padre, mas os donos da cervejaria são meus amigos, são família, e eu ficava feliz por ver as ruas cheias de carros e de gente, ano após ano. Era um recurso para o povo de Taybeh: vendia-se cerveja, mas também trigo, azeite, mel, os produtos da terra. Foi cancelado pelos proprietários e pela “situação”, e com as restrições e os bloqueios militares tenho a certeza de que este ano também não haverá.

Mas continuamos a fazer algo semelhante no Natal: nove dias de festival, que comecei quando cheguei a Taybeh. Só parámos um ano, quando a guerra contra Gaza foi mais dura. De resto, crescemos sempre, para mostrar que Taybeh ainda tem vida e procura vida. Cantamos, dançamos dabke [dança tradicional palestiniana], comemos. É preciso pôr no coração das pessoas o sentimento de que ainda há momentos para viver em paz e em alegria. Gente da diáspora organiza agora as férias para vir no Natal.

No ano passado convidei catorze missões diplomáticas, e vieram. Temos também a procissão de Ramos das três paróquias juntas, da melquita [greco-católica] à católica romana e à ortodoxa, até São Jorge do século V, os campos de férias sob a égide da comissão dos párocos e o Festival Mariano no fim de maio. No último, convidei oito embaixadores, cônsules e representantes. E aponte isto: o exército israelita chegou de manhã cedo nesse mesmo dia e quis cancelar o festival, proibiu-nos de o fazer sem autorização deles. Estivemos parados duas horas à espera da autorização. Mas fizemo-lo.

Cripta das ruínas da igreja de São Jorge (Al-Khader), do século V

Cripta das ruínas da igreja de São Jorge (Al-Khader), do século V, marcada pelo fogo ateado durante as incursões de colonos e denunciadas pelos Patriarcas e Chefes das Igrejas de Jerusalém. Foto © Fabian Figueiredo

Os Patriarcas de Jerusalém disseram que as autoridades israelitas «facilitam e permitem» a presença dos colonos em torno de Taybeh. Estamos a falar de crimes de extremistas ou de uma política de Estado?

Dos dois lados. Dos colonos fanáticos, radicais, fundamentalistas, que estão sob a proteção de dois ministros: Smotrich e Ben-Gvir. E continuam a crescer. É essa a mentalidade que eles lhes metem no coração. A maioria dos que atacam são adolescentes, catorze, quinze anos, menores. Os responsáveis por eles são os adultos.

 

Para lá de cem famílias deixaram Belém desde o início da guerra, em Gaza restam menos de mil cristãos, e na igreja da Sagrada Família foram mortas a tiro, em dezembro de 2023, Nahida e Samar Anton, mãe e filha, e um ataque israelita à própria igreja fez três mortos em julho de 2025. A presença cristã na Terra Santa corre perigo de extinção?

Corre perigo, sim. Vê-se o resultado da emigração na comunidade cristã mais do que na muçulmana, embora os muçulmanos também emigrem muito: em Mazraa ash-Sharqiya [aldeia vizinha, de maioria muçulmana], 90% das pessoas partiram, restam mil, os outros estão no Brasil, nos Estados Unidos, por todo o lado, em Turmus Ayya é igual. Em percentagem, Mazraa ash-Sharqiya está acima de Taybeh na emigração. Mas nós, como comunidade cristã, estamos em perigo. E repito: na perspetiva humana, talvez um dia sejamos removidos, os números dos cristãos na Terra Santa talvez diminuam ainda mais. Na perspetiva espiritual e eclesial, mantemos a esperança.

 

No Domingo de Ramos deste ano, a polícia israelita bloqueou o cardeal Pizzaballa a caminho do Santo Sepulcro. E os cristãos palestinianos que vivem a poucos quilómetros raramente obtêm autorização para lá rezar na Páscoa. Existe liberdade religiosa para os cristãos?

Não é um caso isolado. É o que acontece na Cisjordânia todos os dias. Não está isolado da agressão à freira católica em Jerusalém [derrubada e pontapeada no chão junto à Porta de Sião, a 28 de abril, por um colono israelita], nem do que continua a acontecer ao Patriarcado Arménio: as ameaças, as pedras atiradas, as cuspidelas aos crentes. Nada disto é isolado.

Em novembro, os cristãos palestinianos de todas as Igrejas publicaram o Kairos II, “Fé num tempo de genocídio”, que fala abertamente de genocídio, limpeza étnica, apartheid e colonialismo de povoamento. E dois senadores norte-americanos que visitaram a sua igreja, Chris Van Hollen e Jeff Merkley, escreveram que há uma “limpeza étnica em câmara lenta”. Reconhece a realidade do seu povo nessas palavras?

Sim. É uma limpeza étnica em câmara lenta.

 

Alguns políticos na Europa dizem que estes termos, apartheid, genocídio, limpeza étnica, colonialismo, põem em risco o diálogo. O que lhes diz?

Não tenham medo de usar as palavras. E não tenham medo de as fazer valer no terreno.

 

Diplomatas de mais de vinte países visitaram Taybeh. O ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, chamou aos ataques «crimes» e «terror». O Papa manifestou preocupação mais de uma vez, e o padre apelou diretamente a Leão XIV. E no entanto disse: sentimo-nos esquecidos, sentimo-nos sós. Qual é a diferença entre a solidariedade que conforta e a solidariedade que protege?

Primeiro: têm de escolher qual é a verdade. Se são europeus, se pertencem à nossa Igreja, têm de procurar onde está a verdade. E se a verdade é clara perante os vossos olhos, têm de a escolher, têm de a pronunciar, e têm de fazer pressão para encarnar essa verdade no terreno. A verdade é uma só: não tem cores diferentes Segundo: convido todos esses políticos europeus a fazer como o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha: venham, estejam aqui, e fiquem. Ficar significa ouvir as nossas histórias, não duas ou três horas antes de voltar a Jerusalém ou ao vosso país. Significa visitar cada atividade económica de Taybeh, as instituições, o presidente da câmara, a cervejaria, o lar de idosos, e fazer parte da nossa vida. Temos onde vos acolher, na nossa casa paroquial, na nossa casa de hóspedes, e não vos apresento fatura no fim, porque isto é a hospitalidade árabe palestiniana. Depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão cá ter estado, não vimos um único colono em Taybeh durante dois meses. Eles são parte interessada, tal como os americanos, e eu digo-lho na cara: vocês são partes interessada e têm de fazer alguma coisa por nós. Se a nossa presença vos interessa, façamo-lo. Se não interessa, digam-nos essa verdade, e nós encontraremos maneira de nos protegermos.

Cripta das ruínas da igreja de São Jorge (Al-Khader), do século V, onde se vê uma bandeira palestiniana

“Investir não é dar-me dinheiro e ir embora, é pôr o dinheiro e acompanhá-lo aqui na terra, no futebol, na arte, na cultura.” Foto: Cripta das ruínas da igreja de São Jorge (Al-Khader), do século V, onde se vê uma bandeira palestiniana. DR

 

Portugal reconheceu o Estado da Palestina em setembro. O que pediria a um país como Portugal?

Peço a Portugal uma coisa muito especial para o nosso povo e para as nossas crianças. Sabe que um dos homens mais influentes do mundo, hoje, é o Cristiano Ronaldo. Se essa influência se encarnasse na terra de Taybeh, se o Cristiano Ronaldo aqui viesse, isso influenciaria as pessoas mais do que os políticos. É um dos pontos de que falo sempre com o representante de Portugal em Ramallah: como trabalhar com os clubes portugueses. Investir não é dar-me dinheiro e ir embora, é pôr o dinheiro e acompanhá-lo aqui na terra, no futebol, na arte, na cultura. Podemos ter uma geminação com um clube português. Um dos meus paroquianos sonha tirar o curso de treinador da UEFA. Até hoje não encontrámos quem lhe desse essa oportunidade, e Portugal é fortíssimo nisso.

E depois, geminações de paróquias. Já temos várias: em França, com Crema e Desio, em Itália, em Houston, no Texas. De 17 a 24 de agosto estarei em França com nove alunos da escola, num intercâmbio com uma paróquia no norte, junto à fronteira belga. Estas geminações promovem o intercâmbio pastoral, académico e cultural, família a família, criança a criança. Quando as pessoas voltam destas experiências, vivem mais e melhor em Taybeh, porque amam Taybeh.

 

Palestina. Igreja de Cristo Redentor

“Todos os dias, na missa, ponho a minha vida e a segurança e a vida da nossa comunidade no coração de Jesus, entre as mãos de Deus.” Foto: Interior da igreja de Cristo Redentor. © Fabian Figueiredo

Última pergunta. Escreveu que partir é por vezes uma necessidade humana, mas ficar é um ato de fé e de esperança. Onde vive a sua esperança, nos dias difíceis?

Entre as mãos de Deus, dentro da Igreja, quando celebro a missa. Todos os dias, na missa, ponho a minha vida e a segurança e a vida da nossa comunidade no coração de Jesus, entre as mãos de Deus. Não ponho a esperança em eleições nem em ninguém. Ponho a esperança em Deus e nas pessoas que testemunham o amor de Deus.

 

Fabian Figueiredo é licenciado em Sociologia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. É atualmente deputado à Assembleia da República pelo Bloco de Esquerda, tendo desempenhado as funções de Presidente do Grupo Parlamentar.

 

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